31 de out de 2011

Relicário



Estava pensando que talvez não tenha um relicário, mas afinal, todos esses textos se tornaram um pequeno relicário. E só vou parar quando o fim realmente chegar - cronologicamente falando faltam apenas quatro dias - E por que eu nunca penso que o fim se aproximou? E eu quero destruir o relicário. Eu quero me libertar de tudo que um dia me prendeu e me sugou intensamente. Estou cada vez pronta para o fim, mas eu o amava. Amava tanto que todas as dores se tornavam pequenas demais perto de outras dores. Sinto como se tivesse quilômetros de pedras dentro da minha garganta e eu não consigo nem respirar direito. É como se fosse um nó absurdo que não se desfaz. Precisava novamente saber como estava. Precisava novamente ser sua para que pudesse lembrar o que a vida me oferecia quando existia aquele amor bem mais forte. E você era o meu amor, o esperado e desapaixonado. Você era meu anjo, meu demônio e tudo aquilo que poderia me fazer aprender. E eu fiquei tão triste. Triste porque faz quase um ano que você se foi realmente. E você nunca voltou para perguntar se tudo estava bem. Eu sinto tanta sua falta. Sinto falta daquele amor aglomerado, aquele mesmo amor que morria e ressurgia inúmeras vezes. Aquele amor que era tão intenso, tão bonito e tão fraco. Aquele mesmo amor que escondíamos dos outros. Aquele mesmo amor que me fazia sorrir e suspirar loucamente. É um novo recomeço de semana mas sei que em mim tudo continua a mesma coisa. O mesmo podre, e os mesmos planos que logo serão boicotados. E eu só consigo sentir falta. Falta de alguém que está tão feliz. Falta do silêncio que me constrangia e da gritaria que me envergonhava. Falta de alguém que partiu. Que voou para sempre e para longe.
Olhei sua foto e aquilo era tão recente. Era como se eu fizesse ainda parte de sua vida mas as escondidas, e você nunca saberá disso. Você nunca mais vai saber o quanto pensei em você e o quanto desejei que você estivesse por perto - Não para ter aquele sentimento de tesão mas para que possa me proteger - Olhar sua foto só me fez perceber que tudo não havia passado conforme imaginei. Eu não faço mais parte da sua vida, e é verdade. Era como se fosse a minha despedida. Como se fosse a última vez que olharia sua foto. Como se fosse o nosso fim. E talvez seja o fim que todos nós esperamos. Escrever não adiantou muito o meu esquecimento, só prolongou a dor. Chorei tanto que precisei para me sentir viva e limpa. Aquele podre finalmente vai se aliviando. Mas eu só preciso chorar. Chorar sem medo, chorar sem imaginar que depois vão me julgar de fraca. E eu preciso mesmo chorar para esquecer de vez. Mas o choro não chega. E me sinto tão passageira, tão vulnerável, tão pura. E eu descobri que sinto um amor tão puro e diferente por esse menino. E eu nunca vou esquecer daquele seu lado tão protetor. Mas ao mesmo tempo algo bem mais forte me empurra para frente. E eu não quero me desapegar de você. Eu só tenho você. Sobrou as lembranças e as velhas cartas de amor. Sobrou o respeito, o carinho e a dedicação durante esse tempo todo dentro desse texto. E eu perdi tudo. Perdi a fé de quando havia quinze anos, perdi aquele sonhos  de menina. E acabei enterrando e restaurando a velha e antiga menina. Talvez assim ele voltasse. Mas nada disso, ele não voltou porque voltei a ser do jeito que era antigamente. Se eu pudesse guardaria tudo dentro de um relicário. Se eu pudesse, nunca desejaria que você fosse embora. Mas você nunca havia me amado. E foi preciso me despedir daquilo que me orientava e que ainda assim, só conseguia me afastar.
Tentei inúmeras formas para esquecer e não ter o relicário mais. Tentei ser bruta, fria e estúpida com todos para que pudessem me deixar em paz, mas não foi por mal. Tentei ser a bonitinha, burrinha, e fútil para que todos percebessem que eu não valia a pena. Mas foi ao contrário. Apostaram em mim, e eu só queria embora daqui para sempre. E eu me apaixonei por inúmeros meninos mas nenhum deles fizeram com que eu ficasse apaixonada. Apaixonava e desapaixonava de uma forma caótica, e eu tentava acreditar que era melhor assim. Mas não era, nunca foi melhor assim. Sua ida só fez com que enfrentasse o meu lado sombrio, o lado que sempre evitei enfrentar. Sua partida me fez entender que o mundo não era só meu e que nenhum amor seria recomposto. Fiquei tão fria, tão distante, tão diferente. E eu me quero de volta. E eu te quero de volta, inúmeras vezes. Mas não posso. Preciso te deixar ir. Preciso te mandar embora e destruir o relicário. Preciso ir embora e se puder, por favor, me acompanhe. Me acompanhe ou me guie para onde nós se tornássemos o que sempre escolhemos. Tudo que preciso é destruir tudo que me faz ficar presa. Mas não posso. Eu não posso jogar tudo para o alto. E não posso destruir o relicário. Não posso. E não vou. É mais fácil ser sozinha acompanhada, entende? É sozinha que não importa o que seja, tem sempre alguém pronto para socorre. E você era assim. Eu era uma sozinha acompanhada. E agora sou só sozinha. Tão sozinha, tão diferente, e tão incapaz. Não me sinto mais triste. Não me sinto mais uma vadia. Mas tudo que preciso é destruir tudo isso antes que tudo isso possa me destruir.
Já faz tempo demais que tudo deixou de ser o que todos esperavam. Deixei de ser tudo aquilo que sonhei para ser outra que não estava nos meus planos. Já faz tempo que você partiu e eu estou partindo também. Estou indo, sem destino ou planos. Mas não me importo, tudo que preciso realmente é ir embora. Embora desse mundo, desse relicário e principalmente, ir embora para longe de você.

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