3 de out de 2011

Plural de Solidão - Verônica Heiss



Eu me sentia a pessoa mais sozinha do planeta, e não faz nem uma semana. Não tinha assunto pra ninguém e não parecia fazer falta, era só uma preguiça imensa de me impor. Não queria fazer esforço nenhum pra existir pro mundo. Pra que me aproximar se fatalmente farei sofrer? Pra que me interessar se sei que não me apaixono? Pra que viver se eu posso ir levando uma vida medíocre, fingindo esquecer o motivo que faz pessoas acordarem todos os dias e tentarem, mais uma vez, achar um complemento?

Se desistir dos outros já é difícil, imagine desistir do mundo e de você, de você no mundo. Desistir de tudo que é pela metade. Sorrisos pela metade, cumprimentos pela metade, vidas pela metade... Se não é inteiro, não me interessa. Acontece que a gente não pode deixar pra trás tudo que não teve tempo de se formar: uma hora isso me deixa pela metade, e eu não quero ser deixada também. Aprendi a falar esse idioma humano, "oi, tudo bem?" sai automaticamente, mesmo quando quero dizer "Você está bem? Por que eu nunca falei com você antes?". Conhecer melhor as pessoas é uma questão de estar aberta pra isso e saber abrir os outros também. É tomar iniciativas, encontrar assunto, e eu tenho que estar disposta a ser alguma coisa de verdade. Não posso desistir assim.

Eu sei que as pessoas são todas esburacadas, mas o que move o mundo é a busca pelo revertério. Elas vão se preenchendo de música, de festa, de comida, de academia, de gente, porque têm fé no que chamam de amor. Nem que seja o amor próprio. Algo que faça brilhar os olhos, que esconda a realidade fria por alguns segundos ou mais. E o que atrai os outros, inconscientemente, é exatamente isso: essas pessoas parecem tão repletas que despertam fascinação e vontade de estar perto. Mesmo que não sejam repletas de verdade, mesmo que também procurem isso no mundo.

Porque sozinho não é só quem acorda de manhã numa casa sem cachorro, trabalha conversando com a planta no vaso que não toma sol e vai dormir depois de ter visto uma ou duas pessoas que nem ao menos lembram seu nome. Sozinho não é só quem vaga chorando pela avenida Maria Monteiro sem ter pra onde ir e sem ter quem pergunte onde pretende chegar. Não é só quem não tem amigos ou família na cidade e viaja todo final de semana em busca de casa.

Tem aquela sozinha que é a misteriosa da firma e troca olhares com meia dúzia de caras, fazendo as mais tímidas questionarem o seu segredo e desejarem seu lugar, mas que chega em casa e só queria um cafuné, uma cama quentinha, um abraço quentinho. E isso olhar de desejo não oferece. Tem o sozinho que passa o dia entretendo o mundo e não tem ninguém pra agradecer, porque é só mais um malabarista de farol que pede moedas e oferece arte e sorrisos, um chato que incomoda conversas apressadas no celular, atrapalha o trânsito. Tem a tia sozinha que se veste de menina e sai com meninos, mas que nunca é levada a sério. E sabe disso. Sabe também que é melhor fingir essa alegria juvenil do que admitir o fracasso de não ter conseguido evitar a própria idade.

Solidão todo mundo sabe o que é, já experimentou pelo menos uma vez na vida. Tem gente que se rende, tem gente que foge. Mas essa menina carente que é a Solidão - grande ironia - não gosta de ficar sozinha. Às vezes ela traz o medo, a angústia, a dor, fazendo parecer terrível sua existência. Fere os mais vulneráveis. E quando a solidão decide ficar sem machucar? E quando você descobre que é sozinho sim, mas isso não é questão de escolha ou castigo? E se isso não for a pior coisa do mundo, como parece? A solidão não é um bicho de sete cabeças, não é necessariamente uma coisa ruim. Talvez eu ficar sozinha seja o melhor pra todo mundo. Enquanto eu sentir isso, permaneço aqui, no papel. Ser só é ótimo para as articulações dos dedos.

A solidão, quando toma conta assim de alguém, quando não dá outras alternativas, passa a ser mais de uma solidão. Tem solidão de gente, de espaço, de vida. Plural de solidão é vazio existencial. Mas eu estou viva, não estou? As pessoas estão todas aí, não estão? Só me falta somar ao invés de substituir e viver ao invés de escrever. Dá licença, vou até ali fazer diferente.

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