27 de ago de 2011

Nosso fim



Nós nos olhamos uma última vez. Resolvemos que era melhor cada um seguir a vida conforme achar melhor. Resolvemos aniquilar a nossa história do mapa. Deletamos o carinho, a paciência, o conformismo que existia entre nós. Conformei com a vida e com aqueles sonhos contraditórios que existia entre nós. Nós nos olhamos pela última vez e eu me perguntei : É assim que se termina um relacionamento?  Mas ainda bem que não houve resposta. Nenhuma pessoazinha que existia em mim resolveu responder ou me fez voltar atrás. É assim que se diz adeus para um sonho? Acho que sim. Eu estava terminando um sonho, uma metade, uma vida ali. Estava adiando aquilo que quis tanto, mas estava pronta. Estava pronta para o que chegasse.
E chegou. Conheci meninos diferentes, de vários sorrisos, de vários cortes de cabelos e milhares de formas de olhares. Sempre fui a outra e eles foram os outros nessa história. Mas me importei muito com tudo isso. Era cruel me transformar dia após dia no que sou hoje. Tingi o cabelo, de morena retornei ao loiro. Mudei a forma de tratar as pessoas, mudei o meu modo de olhar, mudei o jeito que posso encarar a vida e tudo aquilo que me ronda.
Posso fugir descontroladamente de algo, mas também sei que posso erguer o meu rosto e enfrentar aquilo de frente. Posso dar o direito que grite comigo, mas posso me dar ao direito de gritar. Aquela menina que você havia conhecido adormeceu dentro de mim. Sempre há algo novo. Um sorriso novo, um rosto novo ou até mesmo uma nova intenção. Sempre serão os mesmos de sempre porque não sei deixar ninguém ir embora. Eu olho para tudo com muita saudade. Porque eu sei que jamais vai voltar. Você jamais vai voltar, e eu não irei mais ser aquilo que todo mundo estava acostumada com que eu fosse. Olho para cada lado e sinto algo desesperador. Uma aflição, um desespero, uma nostalgia sem freios. Mas foi melhor assim. Eu não sei se é o que eu queria naquela época, mas observando bem, foi melhor você ter ido embora.
Infantil fui eu de depositar toda a minha confiança em quem tinha um coração leviano. Mas idiota foi você de jogar tudo para o alto como se eu fosse apenas mais uma menina. Talvez eu seja apenas uma menina, leviana, podre e nostálgica. Mas também sei que sou muito mais além do que apenas uma menina. A gente se despediu sem meias palavras ou sem nenhuma frase de efeito. Nos despedimos e eu me perguntava o que a vida tinha feito com nós dois. O que a vida fez com os nossos sonhos e com o nosso futuro? Por que eu estava te mandando embora sendo que queria que você ficasse? Por que você aceitou ir embora sem ao menos me procurar? E aquela teoria de nunca se apaixonar eu enfiei pela garganta, vomitei as palavras e os sentimentos, não sobrou mais nada, nadinha de nada.
Lembro do seu nome só por conveniência. Lembro porque me lembram. Quando falam “Você realmente gostou dele!” Eu apenas dou um sorriso, porque não há mais nada para se dizer. Não há mais nada do que proclamar para a saudade e muito menos para você. Joguei fora tudo que poderia me lembrar você. Não assisto mais aquela série da TV, não quero mais te encontrar em meio do acaso e não quero nem sonhar passar perto da onde você mora. Não vou mais ser masoquista. Não quero mais ser masoquista. Não quero mais ser a coitadinha que se apaixona e se fode no final. Não quero mais telefonar e desligar. Não quero mais ter medo da vida. Não quero mais nada.
Pensei que não iria mais me acostumar. Quem eu iria procurar quando a loucura chegasse? Quem eu iria poder ser o que sou sem medo algum? Quem poderia tentar me fazer sentir melhor? Ninguém! Não havia ninguém mais para me deixar melhor. Só havia o silêncio entre nós dois. Só houve o silêncio depois de tudo.
Aquele dia foi apenas um dia entre todos os dias que ainda irão acontecer. Aquele dia foi o nosso fim. Foi apenas um basta. Na verdade, não foi o fim, foi apenas um começo. Um (re)começo. Uma nova história. Uma nova Layla nascia naquele novembro. Era tanta mágoa, tanto rancor, tanta dor que não conseguia me movimentar. Estava cheia de tudo aquilo, literalmente. Foi apenas uma história. Foi apenas uma lembrança daqueles anos atrás. Foi apenas o fim daquilo que nunca começou realmente. Foi apenas eu e você.


26 de ago de 2011

Segredo


Esse é o nosso segredo. Não diga mais de mim para ninguém. Não diga que eu existo ou que passou tanto tempo comigo. Não conte sobre as minhas paranóias, não diga a quem for que eu tenho um sotaque puxado. Recordei das últimas palavras que pude dizer a você. Em meio de tanto desespero a única coisa que queria mesmo era de dar um fim naquele tormento que nós dois havíamos criado. Doía muito te amar, doía muito enfrentar o mundo e me enfrentar, doía muito ter que aceitar que por mais diferente que fosse nossa história, seria apenas mais uma em meio de tantas outras. Eu não aceitava que você tivesse seguido em frente. Eu não aceitava que nunca mais ouviria sua voz e o seu tom de arrogância dizendo que queria me abraçar. Não aceitava e pouco me importava com essa história de seguir em frente, pouco aceitava os fatos. Além de doida, aquilo tudo me deixou exausta. Nos sonhos, continuei sendo sua. Na fila da padaria, ainda era sua. No colégio, academia. Sendo loira ou morena. Sendo louca ou insana, continuei sendo sua. Até que alguém me fez ver muito além do que eu acostumei. Me mostraram que a vida pode ser linda. Existem tombos, chutes e lamas, mas existem formas de se levantar, superar e até mesmo sorrir novamente.
Não sei mais por onde você anda. Não sei se está com a mesma menina do mês passado. Não sei nem ao menos se sorri do jeito que sorria antes. Não sei se ainda continua indo para as festas. Não sei nem ao menos o tom da sua voz. Me esqueci de tudo aquilo que nos cercava, menino.  Esperava uma ligação sua em meio de tanta loucura. Esperei a sua volta. Esperei que você chegasse e segurasse o meu rosto e dissesse que tudo aquilo já iria passar. Esperei por tanto tempo que ocuparam meu lugar, ou melhor, você deixou que isso acontecesse. Não impediu. Não tentou. Apenas me esqueceu como se eu fosse uma memória pequena da sua infância.  Mas eu prometi que não iria mais ficar de triste, prometi que não iria mais reclamar, nem ao menos tentar parecer alguém bem resolvida.. Apesar de tudo, eu ainda tenho a minha vida. Eu preciso continuar seguindo do jeito que sempre segui. Aglomero pessoas, esqueço algumas, volto de vez em quando ao passado, mas ainda assim, quero o que está lá na frente. 
Eu sei que essa menina te ama, e a faça feliz, por favor. Eu te peço isso. Eu sei que ela te ama, consigo ler isso ao ver os olhos dela. Faça ela sorrir como me fez um dia, não a abandone como me abandonou, não a faça chorar, nem a chame pelo meu nome. Não conte de mim para ela, talvez, isso complique sua vida. Não diga a ela do que eu gosto ou o que eu faço, esse  texto é o nosso segredo. Talvez você a ama também, como nunca chegou a me amar. Diga a ela como ela é linda, sorria quando disser alguma piadinha ruim, sorria quando ela falar que você é o prepotente. Não mais me importo em descobrir quem é você. Não mais me importo em contar. A única coisa que me importo realmente é que você a faça feliz.  Não te peço mais nada disso. Ela disse que ninguém mais sente o que ela está sentindo. Tudo bem, eu aceito. Tudo bem, ela não me conhece, não sabe da minha história. Tudo bem, eu já havia desistido. 
Para quem me lê, não me veja como uma chantagista. Quero que ele seja feliz, mesmo – tudo bem que a menina é bizarra, mas ainda assim, tudo bem – Para você menino, que me lê agora, não me leve mal mas não me leve a sério também.  Talvez, nada disso que te desejei mais cedo seja verdade. Talvez você mereça alguém que te faça sofrer, e que pise imensamente em você. Talvez você mereça ser feliz. Não sei, não julgo, não nego, só dou risada.  Algo melhor está preparado para mim, tenho certeza. Algo melhor está preparado para todas aquelas que sofrem e sonham como eu sofri e sonhei. Ele tem outra. Eu tenho outros e mais outros. E ainda assim, esse é o meu segredo.  Não repita nossa história, não conte sobre os meus medos, nem diga a ninguém o quão insensível consegui ser. Não diga mais para ninguém sobre você ter sido o que foi para mim. Não diga, não repita, não sonhe mais comigo.
Se a saudade apertar dentro de você, se contente. Foi você quem escolheu isso. Se quando ela dizer algo parecido comigo, se contente, foi você quem escolheu esse nosso destino. Se contente agora. Se afogue nessa vida que quis ter. Se ela for igual ao que fui, se contente com a podridão que haverá dentro de você. Se afogue nas lembranças e nesses segredos, se afogue quando se lembrar que desprezou quem só quis te ver bem. Se afogue naquilo que foi e durma com os anjos. 

23 de ago de 2011

Agosto por dentro - Caio Fernando Abreu



Foi na ponta do Leme, no Rio. Parecia verão pleno, mas era apenas julho, um dia quente e azul, pouco mais de meio-dia, a praia cheia de gente. Já repararam como, em dias quentes e azuis na beira da praia, no Rio, todos parecem deuses? Nesse dia, pareciam. Não só as adolescentes de cintura fina e cabelos encharcados de sal, mas também as mulheres um tanto passadas, e os homens também, e até os velhos pareciam deuses cansados, mas deuses. As cores, talvez, as peles, não sei ao certo. Há sempre um toque de divino no humano em dias assim, pensei.

         Da sombra, e vestido, porque não posso tomar sol, continuei olhando e bebendo uma água de coco, porque não posso beber álcool. E era um dia perfeito para torrar-se mesmo naquele tipo de sol dos horários mais impróprios que dermatologistas dizem ser assassino. Um dia perfeito também para empapuçarse de chope olhando o horizonte. Mas disso eu não me queixava, porque era um dia perfeito também para apenas contemplar o perfeito, mesmo sem poder fazer a maioria das coisas que o tornariam ainda mais perfeito. Digamos que naquele momento eu não fazia questão dessas tais coisas: tudo que precisava estava ao alcance talvez não exatamente das mãos, mas certamente dos olhos, o que já é alguma coisa.

Devo ter suspirado ou movido um pouco a cabeça para receber melhor no rosto a brisa com cheiro de algas, ou feito qualquer outro desses gestos típicos de quando se quer mudar de parágrafo por dentro, compreendem? Sei que não acendi um cigarro, seria um crime naquele ar, naquele azul, e sei ainda que não lembrei de nada acontecido há poucos ou muitos anos naquela praia onde vivi tantas coisas, tantas vezes. Para o futuro, também não cometi o erro de projetar o pensamento, pois sei que não tentei adivinhar se outra vez, algum dia, voltaria ali. Sem muita consciência do que fazia, não fiz nada que pudesse — a palavra é pedante e um tanto cristã, mas é a que quero usar — macular aquele estar ali.

Nos próximos segundos eu poderia quem sabe levitar, mas com isso chamaria muita atenção, talvez apenas entrasse num discreto satori tropical. A coluna ereta, o pensamento parado e mais vivo do que nunca, sem que ninguém percebesse. Foi então que alguma coisa — eu ia escrever “deu errado”, mas não, nada deu errado, o que houve foi só a continuação do que estava acontecendo, e só seria “errado” se o que estava acontecendo fosse “certo”, compreendem? Nem eu.

Mas o que houve — o tropeço, o solavanco, o esbarrão, a tosse no meio da área lírica —, o que houve foi um pensamento impiedoso e exatamente assim: não faço parte disso.

Não uma dúvida, mas uma certeza. Absoluta.

Sem inveja nem mágoa, revolta ou vontade furiosa de que pudesse ser de outra forma. Secamente, definitivamente, eu não fazia parte daquilo. Não por estar vestido e na sombra, não porviver noutra cidade, não pela água de coco em vez de chope. Por razões que não sei explicar; e nem precisariam tentar ser explicadas porque eram e, pior, continuam sendo completamente indiscutíveis.

Eu não fazia parte, e pronto.

Voltei lento e atordoado para o hotel.

A imensa janela de vidro do i8 andar dava para a praia. Cheia de sol, azul, turquesa, jade, cheia de gente viva. A janela não abria. Feito uma vitrina, uma jaula. Bebi água com gás, coca- cola, não lembro o quê, telefonei para algum número ocupado ou peguei o controle remoto e fiquei dando zaps frenéticos na tevê. Não sei o que se fez ou o que eu mesmo fiz depois. Sei, e isso com certeza absoluta, que não teve a menor graça.

Desde então, tenho uns agostos por dentro, umas febres. Uma tristeza que nada nem ninguém conserta. É assim que se começa a partir?


                                                                                                                  Zero Hora. 12/08/1995

20 de ago de 2011

O nosso caminho



Nos perdemos no caminho, ninguém nunca mais nos ensinou qual estrada que deveríamos seguir, ninguém pode ensinar como é que se vive depois de ter perdido um amor. Talvez não tenha perdido realmente, talvez toda essa imensidão que senti um dia esteja descansado para que depois possa renascer às escuras. Talvez a única alternativa que me resta é seguir em frente mesmo querendo voltar para trás. Talvez essa seja a nossa estrada que evitamos durante o tempo. Seguir em frente mesmo querendo voltar e voltar e mais uma vez, voltar para o passado e reviver novamente tudo aquilo. Talvez essa seja uma alternativa, mas eu não a quero. Definitivamente não.
O nosso caminho continuará se cruzando em meio das paredes geladas e dos sussurros noturnos. O meu caminho continuará atravessando meninos, situações e até mesmo alguns sentimentos, mas nada grave. O seu caminho continuará atravessando por meninas, desejos e bebidas, porque você é feito disso. Vamos nos encontrar de novo, porque é isso que acontece. Nós resumimos nossas vidas entre vindas e idas só para não sentir aquela saudade aterrorizante. E você vai aparecer de novo na minha vida só para esfregar a realidade em meu rosto e dizer entre as pequenas frases de sempre. Você vai aparecer mais uma vez e esfregar em meu rosto que você continua lindo, indiferente, e mulherengo. Enquanto eu estou jogada ao vento, entregue a sorte e com o coração em tratamento.
Quanto mais o tempo passa mais certeza tenho que pouco a pouco o dia se refaz. Não haverá sempre as mesmas dores, algumas serão tão novas e outras serão tão velhas que você saberá lidar com todas elas.  Não há segredo algum como conseguir encarar a dor, aliás, o segredo é esse, o segredo é não se deixar levar por sentimentos falsos e promessas inválidas. O segredo é encarar tudo conforme o mundo diz. Não se pode lutar contra o destino, não se pode lutar contra o seu próprio futuro, e eu tenho certeza disso.  Lutei muito contra o meu destino, lutei muito para não me esquecer do que você foi e do que passamos, mas não adianta, aos poucos, fui me desapegando dessa história. Aos poucos, o nosso conto se tornou apenas uma pequena história numa página amarelada e que não contém título algum, porque se tornou indiferente demais.
O tempo passa, você amadurece, se torna alguém que nunca pensamos em ser.  Um dia me perguntaram o que eu ganho para escrever tanto por alguém que me deixou, antes não sabia bem o que dizer, mas hoje posso dizer com tantas as letras. Eu ganho o perdão por todos aqueles que passaram em minha vida e eu não dei valor porque estava infiltrada nessa história.  Escrevo mais por aceitar do que sofrer. Deixei de fazer o amor como conseqüência, não o faço de objetivo algum. Não tenho algum objetivo para hoje. Ultrapassei tantos os meus planos que acabei ficando zerada. Ultrapassei pessoas sem ao menos perguntar o que elas sentiam, ultrapassei e matei o que de bom havia dentro de mim. Não há mais nada igual aqui, não há mais a mesma história, nem mesmo os mesmos personagens. Cada qual ocupando um espaço diferente em tempos totalmente diferentes.
Sabe menino, me culpei muito por você ter ido embora. Chorei por muito e muito tempo, reclamei sua falta dia após dia e eu tinha apenas uma vontade de enfrentar o meu futuro por nós dois, mas não vale mais a pena. Talvez eu esteja enganada, talvez seja só ironias do destino que nos rondam, mas também posso estar certa. Talvez, o nosso caminho continuará se cruzando por todo o resto de nossas vidas, mas talvez, em meu desespero em ver que tudo poderia ser e não foi, tornará apenas mais algumas lembranças.
Sei que posso te encontrar, sei que posso não mais te ver, e também sei que nunca mais poderei dizer o seu nome, mas tudo bem. O nosso caminho sempre foi e sempre será esse, o nosso caminho se cruzará e evitará conforme o previsto. Mas está tudo bem, está tudo em paz, e eu não sei mais se te quero de volta. Posso parecer infantil, mas ainda assim, está tudo bem. Aos poucos, a gente esquece e supera. Aos poucos, nos tornamos adultos. Aos poucos, o tempo passou.

19 de ago de 2011

O nosso passado



Alfenas, 19 de agosto de 2011.
                                                     Para você,

Escrevo aos poucos essa carta sem ter a intenção que te faça mal. Escrevo porque preciso dizer de uma vez por todas tudo que acontece comigo. Você sempre foi o meu conselheiro. Você sempre foi aquela pessoa em que saberia que poderia contar. Você foi mais do que aquele menino mimado que retrato nos textos. Você não é tão filho da puta assim, não com os outros. A gente se olhou pela última vez, e eu já sabia que aquela ali era a nossa última vez.
Passei a escrever descontroladamente, passei até mesmo esquecer que eu tinha uma vida realmente. É difícil acumular as palavras certas para poder tentar escrever tudo que fomos e tudo que não chegamos a ser. A nossa despedida era ali. Era com minha prima em volta e todo aquelas pessoas na academia. Era com a minha mãe implicando para que eu não atendesse o meu celular. Era com a minha pulseirinha rosa de pedidos do Senhor do Bonfim arrebentando. Olhando por um lado, nós estávamos certos. Mas analisando o outro, totalmente oposto daquilo, nós estávamos errados. A idéia foi minha, o sonho foi meu, e infelizmente, o amor também chegou a ser somente meu.
Eu gostava da forma em que você confundia as bandas. Eu gostava quando você chegava com esses papos em que eu acabaria casando algum guitarrista ou baterista, mas em silêncio, eu dizia que eu não queria casar com nenhum guitarrista, eu queria me casar com você, sendo que nunca fui fã de casamento algum. Nunca acreditei em casamento, mas algo muito mais forte me fazia sorrir. Talvez pelo seu jeito de dizer, ou talvez por ter uma má impressão tão grande de tudo aquilo que acontecia. Você chegava com assuntos estranhos, queria até mesmo ter uma filha, e eu sorria, porque sabia que aquilo não era para mim. Eu sabia que nunca tive vontade de ter filho. Acostumei sozinha com essa idéia de ser sozinha, entende? Então, não adianta. O meu destino é esse. O meu destino é continuar a ser sozinha, mas com algumas idas e vindas. Mas de todas as bizarrices, de todas as coisas bizarras que havia acontecido comigo, você chegou a ser a melhor. Lembrei de todas as nossas brincadeiras e daqueles silêncios contraditórios que tanto me irritavam. Lembrei daquele abismo que existia entre o querer e o poder. Quando não gostávamos de um assunto, sempre deixamos para lá. O vácuo era mais do que esperado. E eu já estava pronta para enfrentar o que viria pela frente. Eu queria ir embora, você disse que era pra eu ficar. Queria mudar de turno no colégio, de país. Queria cancelar minha conta da internet, e até mesmo apagar qualquer coisa que poderia acontecer. Mas não, o máximo que consegui foi te deletar do meu Orkut, que naquela época, era ainda uma mania. Foi corrosivo viver do jeito que vivemos. Enfrentamos algumas coisas, deletamos outras, e ignoramos as principais. melhor de todas.
Nosso passado foi esquecido e trancado a setes chaves. Não comento sobre você, não digo o seu nome e finjo que nem te conheço. Você não se lembra de mim, não se recorda o tom da minha voz e nem dos meus defeitos. Foi preciso fingir que estava tudo bem para que pudéssemos ser o que queríamos. Não sei mais, não entendo, não me questiono. Quando o seu nome é o assunto entre a roda dos meus amigos, só consigo sorrir. Um sorriso fraco. Ah Layla, essa foi a pior coisa que você já fez. Ah Layla, você poderia ter economizado palavras e sentimentos por ele. Ah Layla, eu ainda acho que ele gosta muito, só que você sabe, há muito coisa entre vocês. E a minha sorte que eu não acredito mais nessas frases que acabaram se tornando um clichê. Acabaram se tornando repetitivos, mas eu cansei  mesmo de enfrentar o mundo por aquele que não me quis mais por perto.
Não foi por mal, eu sei disso. Não precise pensar ou até mesmo se sentir mal por ler todos os textos. Não pense que eu te culpo. Me tornei alguém melhor e eu agradeço isso a você. Não, eu não estou sendo irônica, só estou dizendo a verdade. Estou alguém bem melhor depois que aprendi que não se pode ter tudo. Eu sei que você nunca mais vai me ligar, sei até mesmo que você já não se lembrará do meu sotaque tão puxado. Mas o pior de tudo é que já não tenho mais vontade alguma de ir na sua casa e invadir seu mundinho. Eu não tenho mais vontade de te encontrar, nem te dizer o que sempre quis. Não tenho mais vontade de pedir para que você volte. Não tenho nem ao menos vontade de dizer em sussurros para Deus para que tudo acabe logo. Chega disso.
Escrevo hoje só para você se recordar do que fomos. Escrevo para que quando você sinta saudade, saiba que aqui continuará tudo que o que eu senti por você. Escrevo porque tenho saudade mas infelizmente ou não tão infeliz assim, não quero voltar.
                                                                                                            De-sua-não-sempre-sua, Layla Péres

16 de ago de 2011

Último suspiro



Suspiro. Não, não é mais amor. Suspiro novamente e logo passa. O sentimento acabou, e o coração tão vazio tomou conta de tudo. Acabou o romantismo exagerado, acabou a paranóia, acabou os suspiros, acabou aquela batalha entre enfrentar o futuro. Acabou. É difícil dar a volta por cima, porque você nunca sabe o que vai te esperar lá na frente. Não dá nem ao menos entender os caminhos que percorri. Simplesmente, enfrentei o que precisava enfrentar. Venci o meu medo contra a solidão. Venci meu medo da morte. Venci o sentimento mais caótico que existiu dentro de mim.
Analiso cada parte dessa história. Me vejo em novembro do ano passado, aflita, porque havia perdido um homem. Agora, depois de meses, vejo que não fui eu que o perdi, foi ele que me perdeu. Minha complicação é demais para uma mente simples como a dele. Minha humildade é demais para alguém que só consegue ser arrogante. Meu coração é imensamente puro para alguém que só consegue se divertir com as pessoas. Sem desapego, sem choro nem vela, vou desistindo dessa história que só me fez crescer.
Volto ao passado mas não quero ficar por lá. Por pura acomodação quis não enfrentar mais nada. Lógico, era mais seguro ficar nessa história que me sugou, que acabou com qualquer forma de fé que ainda restava dentro de mim. Eu sinto saudade mas não é mais algo tão devastador. Sinto mais saudade do que ele era. Sinto saudade do que eu fui. Ele soube despertar todos os meus anjos e demônios. Ele soube me desprezar como ninguém jamais havia tentado. Ele soube criar algo que vai muito além de monstrinha. Ele soube criar uma nova mulher.
Ainda continuo não sendo bem resolvida. Corro atrás, tenho algumas atitudes de criança, e fujo de qualquer responsabilidade. Definitivamente, não sou como as outras mulheres. O nosso fim é esse. Sem drama algum, menino. Fui enfrentando meus medos e os meus demônios. Fui sendo alguém que nunca tinha sido. A menina santinha, pacata, e sofrida acabava de velar seus restos na virada do ano.
A menina sofrida, dolorida, e tão apaixonada acabava sendo morta por uma tão mais cruel, tão mais decidida, tão mais cativante. Enfrentei meus medos – menos da injeção – mas enfrentei todos, desde do amor, até o da morte. Conheci teorias, pessoas, e sentimentos. Deparei  com algo que nunca havia enfrentado. Simplesmente aquela menina que todos conheceram já não existia mais.  Tinge o cabelo de um lado, faz uma tatuagem, coloca um piercing, sombra escura, batom vermelho, mais um copo de vodka, mais um coração vazio na pista. Mais outro copo, mais coração vazio, mas tá tudo bem. Digo que está tudo bem. Digo até mesmo que você já não existe mais. Quem? Ele? Ah, sumiu né?
Por obra do destino saí o nome dele, mas não tento puxar assunto. Ainda acredito que quanto mais se toca numa ferida, pior ela ficará. Então é melhor deixá-la de lado. Não toco mais na minha ferida inflamada. Não digo mais seu nome, nem do nosso passado. Penso que é uma página virada. Penso até mesmo que essa história nem ao menos aconteceu comigo. De tanto pensar, quero começar a crer que nada disso aconteceu, que foi apenas um pesadelo duradouro de todas as noites durante dois anos, e que hoje, depois de tudo, estou livre e até mesmo sonhando com um novo menino.
Vejo a página dele na internet, olho bem sua foto, olho de novo e mais uma vez. Olho o que tem de novo na sua vida, e vejo quem é foi a última menina que suspirou apaixonadamente por ele. Suspiro tanto quando vejo sua foto. Ela diz que ninguém jamais irá sentir o que ela sente por ele. Ei menininha que se parece comigo, olha aqui. Venha me ler. Veja o quão apaixonante e cafajeste é o seu novo amado de voz suave. Veja o que ele é realmente. Mas está tudo bem. Ainda está tudo bem. Fecho sua página. Esqueço.
Me odiei pela primeira vez. Me odiei querendo levar essa história até o fim. Mas descobri que não, não posso continuar. Me odiei por não ter deixado ninguém ocupar o seu lugar. Me odiei por ser tão boazinha ao ponto de acreditar que ele iria voltar. Se você me amasse, talvez estaria aqui. Mas nada disso.
Esse é o nosso fim, e o preço é esse. Pago caro para esquecer, pago caro para sair dessa história. Mas digo novamente: Está tudo bem. Suspirei por você, por mim, por todos aqueles que sabem da minha vida, e por aqueles, sortudos, que escaparam da minha neurose. Esse foi o sonho que ele, o menino que entreguei meu coração, fez questão de pisar em cima. Mas ele esqueceu que sou um vidrinho, o vidrinho vagabundo, e que pena, cortei o seu pé inteirinho. Me sinto como se tivesse dado o último suspiro. Como se fosse o último amor, e até mesmo o último sonho. Esse foi o último suspiro. 

Carta Anônima - Caio Fernando Abreu



Para ler ao som de Melodia sentimental, de Villa-Lobos, cantada por Olivia Byington.

Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos, e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas são sempre bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.

Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, agora não, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés delas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.) E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você — seria, seriam?

Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam uma nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito poder de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos mesmo meio tudo isso, não tem jeito, e tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olivia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Wim Wenders, mais Cecília Meireles que Nélson Rodrigues.

Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca na minha mão, eu toco na sua.

Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão Cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas Contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente mas penso tanto em você que na hora de dormirvezenquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha, sonho com  os anjos. Nuvens, espaços azuis, pérolas no fundo do mar. Clack! como se fosse verdade, um beijo. 


                                                                                                O Estado de S.Paulo - 16/3/1988

O Zelador - Tati Bernardi



No domingo veio o Gustavo. Esse eu confesso que não é o que se pode chamar de irmãozinho, ainda que a gente já tenha tomado muitos banhos juntos. Mas olha, seu Zé, que menino mais fofo: veio me trazer um presente. Uma luminária super bonita, dessas de chão. Você não acha que ele mereceu aquele beijo que eu dei nele no elevador? Eu sei que o senhor viu, sei bem. E sei também que o senhor viu que não foi bem um beijinho inocente. Mas ele não merece? Um presente bacana desses, veja só! O senhor entende, né?
Na terça tava um silêncio danado na rua, a maior paz. E eu sei que acordei o senhor. O senhor tava lá dormindo escondidinho na guarita, não tava? E eu no interfone desesperada pra subir logo. Mas o senhor logo entendeu meu desespero, não foi? Não vou enganar o senhor não, pra esse eu dei mais do que um beijo safado no elevador e uma mordiscana irmã no braço. Pra esse eu dei banho e fiz até torrada no café da manhã. O senhor viu como ele era bonito? Nossa. Ah, o senhor reparou também que ele é bem mais novo do que eu? Caramba, seu Zé, mas tá tão na cara assim? Só porque ele usa o moletom da faculdade? Aliás, que moletom mais cheiroso, seu Zé. Que será que tá acontecendo comigo, heim? Ando muito a fim desses garotinhos que ligam pra avisar a mãe que não vão voltar. Será que é a crise dos 30, Zé? Ou será que já que o cérebro de um de 20 é o mesmo que o de um de 50, então pelo menos vamos ficar com o melhor desempenho na corrida dos 100 metros rasos? Essa vida viu, Zé. Pode ser boa que é uma coisa. Já chorei muito, já doeu muito esse coração. Mas agora tô, ó, tá vendo? De pedra. Uma tora. Um macho.
Na quarta eu não vi o senhor, mas será que o senhor me viu chegando cedinho, com o dia amanhecendo? Balada, Zé. E da boa. Sabe quem tava lá? Esse mesmo. Ele que veio me trazer, o senhor não viu? Ah, o senhor viu? Que vergonha. Eu tava meio caindo pelas beiradas não era? Era sono. Tá, um pouco disso e um pouco daquilo também, mas basicamente sono. O senhor não viu ele indo embora? Então somos dois. Mas vou confessar pro senhor: adoro quando eles vão embora sem me dar nenhum trabalho.
Se eu cobro? Que é isso, seu Zé! Tá louco? Sou menina de família! Escritora, publicitária e a espera de um grande amor. Mas to me divertindo, ué. Não é isso que mandam a gente fazer? Quando a gente chora e escreve aquele monte de poesia profunda. Quando a gente se apaixona e tudo mais e enche o saco dos amigos com aquela melação toda. Não fica todo mundo dizendo pra gente parar de tanto drama e se divertir? Poxa, to só obedecendo todo mundo. 
Não é isso que todo mundo acha super divertido? Beber e fumar, e beber, e fazer sexo sem amor, e beber e fumar e dançar e chegar tarde e envelhecer e não sentir nada? Sabe Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu consegui. Eu não sinto nada. Nada. Uns vem, uns vão. As garrafas tão lá, ao lado do lixo. As cinzas saem dançando por aí. As minhas vão junto. No dia seguinte eu acordo, tomo um banho, passo protetor solar, sento na minha varanda com o meu jornalzinho e ó: nada. Nadinha. Nem pena do mundo eu consigo mais sentir. Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. Todo mundo só abusava dela. Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma. Já era, Zé. É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja. Bate aqui no meu peito, Zé? Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço, Zé? Desculpa.
Mas hoje é quinta, hoje tem visita. Hoje tem risada alta, tem festinha, tem maquiagem e música. O senhor promete que não me julga, Zé? Eu sei que você se atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não é? Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são outros. Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe. A gente chora, escreve lá umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e descobre que esse aí não existe não. 
Amanhã é sexta, um novo dia. Um novo outro qualquer. Eu queria te dizer que eu sinto muito, Zé. Mas eu não posso te dizer isso porque a verdade é que eu não sinto mais nada. Nadinha, Zé. 

11 de ago de 2011

É só saudade


Nunca quis causar a dor de ninguém. Nunca quis que ninguém virasse e falasse que eu era o motivo de todo sofrimento, ou até mesmo que ciclano havia chorado por tudo que fiz. Não fazia mais sentido me infiltrar na vida de quem só me resolveu me ver longe.  Para assumir todo o amor que havia dentro de mim, tive que aniquilar o meu orgulho. Eu, que sempre fui tão orgulhosa, me vi desmascarada e sem proteção alguma. Era tarde demais, estava exposta ao ridículo sem perceber. E quando percebi, já estava fazendo parte de algo que já não era mais meu. Algo que havia passado pela minha vida e tinha me deixado. Não tinha mais o direito de encarar o mundo só para tentar lhe mostrar o quão puro era o que sentia. Nada disso, você dizia. Nada disso, vá embora daqui menina. Você pensava.
Olho sua foto aos poucos. Pouco consigo pensar em algo realmente bom. Foram idas e vindas, houve sorrisos mas também houve muito desespero. Houve faltas, houve presenças. Houve sonhos mas infelizmente partida chegou. Olho sua foto e percebo que aos poucos consigo sorrir novamente. É só saudadezinha daquilo que fomos e daquilo que nunca tivemos. É só saudade de acordar no meio do nada e perguntar entre lágrimas o que será que você está fazendo.  É só saudade de escrever textos e mais textos mas ter a vergonha de publicar por saber que todos iriam perceber que eu, a menina tão insensível, no fim das contas, tinha um coração tão puro. Eu sinto muito mais saudade do que não chegamos a ser, do que realmente fomos.
Sinto mais saudade daquilo que nós havíamos programado do que o passado interrompido. Sinto mais saudade sua do qualquer menino que possa ter passado em minha vida e que eu não percebi. Uma feridinha inflamada dentro do meu peito era muito mais do que qualquer coisa, era a aflição. Uma dorzinha incomoda perto do meu coração era muito mais que um começo de infarto, era apenas me avisando que algo estava errado. Algo estava completamente errado e eu não posso mais fazer parte disso.  Me dei a liberdade para sair por aí, sem me preocupar com a tal valorização que todos dizem. Me dei a liberdade para escrever para outros homens, e eu nunca tinha tentando isso. Achei tão caótico sair da minha própria história para poder ser personagem em outra. Na verdade, é só saudade.
Porque foi difícil me levantar e perguntar de qual mundo eu pertencia. Foi difícil enfrentar o mundo e suas terríveis intenções. Precisei fugir daquilo que me fazia mal mas que ainda assim, preferia ficar lá. Precisei encarar o mundo, o destino, e até mesmo a morte. Precisei ser a heroína, e eu não estava acostumada com isso. Acostumei a ter um lugar seguro, e quando acordei, acabou. Acostumei a ter um sorriso robótico, não paro nem ao menos para pensar se estou realmente bem. Aprendi que o sorriso disfarça todas as minhas dores, então, comecei a sorrir.
Era muito mais que um simples amorzinho de pré-adolescente. Era muito mais que uma estóriazinha de príncipes e princesas. Foi muito mais do que uma simples história. Mas na verdade, o mais cruel disso tudo é que essa grandiosidade foi analisada só pelo meu lado. Se você realmente me amasse, hoje estaria aqui. Se você realmente me amasse, lutaria contra o destino, impossível, morte, sofrimento, fantasmas, marinheiros, para estar aqui comigo. Se você me amasse, não teria ido embora. Se você me amasse, hoje eu não estaria escrevendo esse texto que só me faz refletir. Se você me amasse, eu não sentiria tanta saudade. Se você me amasse, eu não teria olheiras. Se você me amasse, eu seria apenas uma garotinha, e hoje, sei que posso ser muito mais do que uma garotinha que tem medo da solidão.
Talvez essa saudade que senti ao ver sua foto no canto esquerdo do meu computador seja apenas uma aviso. Talvez essa saudade passe depois de algumas doses, ou aumente, depois que alguém, sem querer, fale seu nome.  Eu não quero destruir sonhos de ninguém, mas me sinto melhor sendo sozinha. Me sinto melhor vendo o que errei, gosto de analisar, gosto do silêncio, e gosto de fingir de indiferente. Gosto do impossível, e eu amo as ironias do destino.
É só lembranças daquilo que fui, dos sonhos que tive, da memória que perdi.
É só saudade daquele abraço evitado, do sonhos que adiei, e daquilo que deixei.
É só saudade de acordar do nada, ligar e não ser louca, e não esquecer o que evitei.
É só saudade de você. É só saudade daquilo que tem nome, e perfume.
É só saudade de ser o que era. É só saudade daquele amor.
Aquele amor que foi embora e que sei que não voltará.
Aquele amor que corroeu. Machucou.
Aquele amor que pude escrever sem dó. Sem mágoa. Sem você.

Posso passar? Disse a Saudade.
Não, aqui você não passa mais. Respondi. 

10 de ago de 2011

Nobody's


Realmente queremos um cara que apareça do nada e diga uma dúzia de palavras e faça sua vida mudar. Um cara que sorria, e não te apresse quando for tomar uma decisão. Que te entenda perfeitamente quando você for escrever e não fique com ciúmes, porque ele entende que é isso que você faz. Esperamos uma ligação que nunca chega. Um abraço que é evitado. E um sorriso que nunca aparece. Continuamos esperando uma visita inusitada. Continuamos andando na rua procurando o amado, mas quando ele aparece, simplesmente abaixa a cabeça. Porque é mais fácil, não é verdade?!
Hoje eu já não sou mais assim, já andei muito pela rua procurando em cada olhar algum que pudesse me fazer sentir segura. Corri muito da dor, e enfrentei inúmeras vezes, sem medo ou distinção de loucura. E conheci várias histórias, algumas bizarras, outras lindas, e isso fizeram ser o que sou. Sou um amontoado de histórias, sorrisos, e livros. Sou um amontoado de estrelas, borboletas, e beija flores. Nunca acreditei em príncipe encantado, não espero que o menino perfeito chegue um dia e me faça mudar totalmente. Na verdade, não espero e não quero que nenhum menino apareça e me faça mudar. Estou bem do jeito que estou.
Há tempos passei sozinha, caminhei em direção ao que eu queria buscar e sofri o triplo com isso. Por lutar tanto por aquilo que quis, hoje já não penso em enfrentar o mundo por ninguém. Não implico mais com a vida, e nem reclamo. Quero só me manter afastada daquilo tudo que possa me lembrar o meu passado. Tudo que eu senti foi mágico, especial, lindo até demais, mas não posso continuar. Hoje percebi que não falo mais sobre você.
Acho que estou ficando adulta, acho que estou querendo ter algo extremamente real. Não quero mais essa brincadeirinha idiota de tentar adivinhar se você irá chegar ou não.  Não nasci para ser sofredora. Por mais que eu ame um drama ou até mesmo que seja tão dramática, nunca quis ser a sofrida da história. Na verdade, não sou fraca. Sei que posso enfrentar o mundo, sei que posso gritar e até mesmo negar em fazer algo do que estou tão desacostumada a fazer. Vou sair por aí, sem obrigação de saber se vão ou não me conquistar. Vou continuar sorrindo para que ninguém perceba o quão sofri e o quão estou esgotada. Mas ainda assim, está tudo bem.
Continuarei maquiando as cicatrizes que tenho, para que ninguém perceba que um dia me entreguei a dor. Continuarei disfarçando com o assunto com apenas uma palavrinha. Continuarei nesse luta de me enfrentar e enfrentar meus pensamentos. Não sei quando paro, na verdade, eu nunca paro.
Eu queria te ligar, mas não para dizer que estou magoada e todo o assunto de sempre de sentir saudades ou não. Mas eu queria te ligar só para dizer que, todo o sofrimento que me causou me deixou alguém melhor. Já perdi a mania de querer fazer o mundo sofrer, já perdi a fobia do amor. Que se dane o amor e suas boas intenções, porque eu sei, tudo é questão de escolha. Prometi que não iria mais reclamar sobre a falta de mais ninguém, e continuarei assim. Não chorarei, não reclamarei e nem falarei sobe o meu passado. A nossa história foi linda, cara, mas, preciso ir.
Tenho uma vida me chamando lá fora. Tenho novos sonhos, outros objetivos, tenho até mesmo a sensatez de acreditar que estou ficando adulta e que já não quero mais brincar de destinos iguais. A maluca fui eu. O amor foi mais maluco ainda pensando que conseguiria sair sã e salvo dessa história. Mas foi apenas um engano. É muito luto aglomerado, muito sorriso e muito podre que reside nessa história sem ao menos perceber o que o tempo havia me tirado e o que ele sem querer havia me entregado. Não que eu acredite sempre em destinos, ou coincidências, mas às vezes, prefiro acreditar que estou aonde deveria estar. Eu aprendi que é melhor não tocar numa ferida até que ela sare completamente.
Não tem mais ligação para ser esperada. Não tem mais visita, muito menos, abraços. Não espero que ninguém chegue. No fundo, todos vão embora, e eu fico. Então, que continue assim. Não há nada para comemorar, pois tudo que tinha, perdi com o tempo. Não há ninguém mais para amar, o coração é podre e é melhor fugir daquilo que perturbe seus pensamentos. Esteja pronto para fugir daquilo que te fez mal. Esteja pronto para lutar por aquilo que tanto deseja. Simplesmente, esteja pronto para o que der e vier.

9 de ago de 2011

Extremos da Paixão - Caio Fernando Abreu




"Não, meu bem, não adianta bancar o distante 
lá vem o amor nos dilacerar de novo..."


Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro (a) mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo (a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo (a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira:compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe,berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolos em face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.
O Estado de S. Paulo, 8/7/1986
Caio Fernando Abreu  

8 de ago de 2011

Anjo



Volto ao passado e encontro uma garotinha. Uma garotinha de sotaque bem caipira, com cabelos lisos castanhos e olhos cor de mel. Uma garotinha que não tinha a companhia de seu pai, porque sua mãe se separou, e acabaram não mantendo mais o contato. Uma garotinha que havia apenas um amigo de verdade, e que até hoje, ele continua com ela, e é um cachorro peludinho, pretinho, um amor. Mas essa mesma garotinha, com sotaque puxado, e sorriso de aparelho tinha alguns sonhos. Quais os seus sonhos, garotinha? Ora, serei secretária do meu padrinho! Ele prometeu que iria me buscar quando eu entrasse no ensino médio, e eu serei sua secretária, moça.
Volto ao passado e encontro com esse moço. Alto, com um sorriso lindo, os dentes perfeitos,  um semblante de paz que acalmava quem estava por perto.  Ele era tão amigo, tão querido, tão protetor. E a vida é tão injusta que me recuso acreditar que aquela pobre menininha ficou sem aquele moço, aquele Anjo.  Descubro o passado deles dia após dia. Promessas, sorrisos. A mãe dessa menina tão amiga desse moço, aliás, são sobrinho e tia. Com pouca diferença de idade, e bastante em comum. Um tomando as dores do outro. Um rindo das idiotices do outro. Uma amizade tão igual. E chegara uns amigos do Anjo. Outros dois anjos. Um tinha nome que a menina não conseguia dizer, e acabava sendo algo como “Ervilho, Ermilho...” Já o outro amigo, era um verdadeiro palhaço e eu me lembro das nossas gargalhadas. Não havia como estar triste perto dele. Volto ao passado e encontro um poodle. Levado mas carinhoso.
Ora menininha, você não tem pai? Tenho sim! Claro que tenho pai! Ele só não mora comigo. Ele só não mora perto de mim. E a menina chorava. Anjo, por que eu não tenho pai? Tem sim, menininha. Sou seu pai de mentirinha. E aí a brincadeira começou. Pai, Pai, Pai! Eu tenho um pai agora, e esse meu pai é um dentista lindo de São Paulo. Eu tenho pai. MUNDO, EU TENHO UM PAI AGORA PRA PODER DAR PRESENTE DO DIAS DOS PAIS!  Eu tenho pai agora pra poder me levar no parque Duque de Caxias, em Santo André!
Olha menininha, dizia a sua mãe, o coração do seu Anjo está doente. Sério, mamãe? Sim, meu amor. Meu anjo vai sair dessa né mamãe? Sim, pequena, seu Anjo vai sair dessa. E a pobre menininha, não acostumada com a movimentação daquela cidade, ficava vendo ambulância indo e vindo na direção do consultório do seu Anjo. Tomara que seja com o meu Anjo. E todas as noites, das férias de julho e dezembro era aquela alegria, por saber que mais um dia seu Anjo estava lá com ela.
Idas e vindas ao médico, telefonemas, visitas, sorrisos, abraços e pai. Domingo, 08 de agosto de 2004. A menina iria completar onze anos. Já não usava mais aparelho. E seu cabelo já não estava mais liso. A menininha ouviu sua tia gritando, falando que seu Anjo havia se tornado realmente um Anjo. Tadinha da menina, seu pai de brincadeirinha havia partido no dia dos pais! Pobre criança, não pode entregar seu presente e nem pode dizer o quão amava aquele Anjo, não chegou nem ao menos dizer um feliz dia dos pais.  Por quê? Por que meu Anjo? Por que não poderia ser o Anjo de outra menina? O que vou fazer com o presente dele? Mãe? Por que ele, Mãe? O mundo era lindo, cheio das cores. E depois daquela tarde, daquele domingo de agosto, nada mais fazia sentido para ninguém. Nem para os amigos do anjo, nem para a mamãe do anjo, nem para o mundo. Nada mais fazia sentido. Por quê? Ele era tão bom! Ele era um Anjo. Nunca tinha feito mal a ninguém.
Sete anos se passaram. Ainda mais nada faz sentido para ninguém. O Anjo era jovem demais, com tantos sonhos para se acabarem assim do nada. Eu era tão nova, e eu mal sabia o que era perder alguém. Mal sabia que aquela dor, me tornaria o que sou hoje. Hoje não penso mais ser a sua secretária, hoje penso em ser igual a ele. Com a mesma profissão, e tentando seguir o seu exemplo e querendo ser melhor, para que o meu Anjo se orgulhe.  Não tenho mais onze anos, quase estou completando dezoito, e ainda sinto falta do meu Anjo. Aquele em que, dediquei uma tatuagem – Como se ele, desde sempre fosse uma estrela, e que hoje, só há as marcas dele em mim  -  Por isso, uma estrela vazada no meu pulso direito.
Olho as estrelas e fico imaginando qual é a sua. Olho para as estrelas e volto ao passado, e vejo aquela menininha aflita que sempre teve medo de sua morte. Você não estava aqui quando fiz minha primeira comunhão ou até mesmo quando completei quinze anos. Mas eu sei que onde você está, continua querendo que eu me torne cada vez melhor.
Espero que você possa entrar por aquela porta um dia, mesmo sabendo que isso é impossível. Algo me faz crer que ainda continua vivo. Algo me faz crer que o meu Anjo ainda está presente. Mas é mentira que criei. Ele já não está mais aqui conosco.  Meu Anjo foi forte. Não se deixava abalar, e lutava por aquilo que queria. Meu Anjo me ensinou muito mais do que ser Corinthiana ou gostar da Gaviões da Fiel. Meu Anjo me ensinou que devo lutar por aquilo que tanto quero.
Sonho com o meu Anjo ainda. Ora chora, ora me abraça. Mas eu prefiro acreditar que fui ao encontro dele. Foi tão difícil perder novamente um pai. Foi tão difícil, eu não era criança, mas também não era adulta. Mas sabe, chorei muito, ainda choro, porque muita coisa poderia ter sido evitada. A morte do meu Anjo foi inevitável.
Meu Anjo se tornou um Anjo. E hoje, é o aniversário que ele se sentou lá céu e está olhando por aquela menininha, que hoje é quase adulta. Ele orienta seus amigos também, hoje, não falo mais o nome deles errado. E ele orienta sua mamãe, que também sente tanta falta. Ele simplesmente, se foi para fazer aquilo que sempre fez de melhor. Ele foi e está protegendo cada um dia nós. Em silêncio, peço para que o vento me traga a sua presença, ou que pelo menos mande um abraço meu para você. Mas vai muito além.
Vejo as cartas que ele mandava para minha mãe e que na época, eu era apenas um bebê. Vejo nossas últimas fotos. E só consigo sentir saudade.
Eu sei, Anjo. Sinto sua presença. E sempre peço para que me oriente. Isso me faz sentir você por perto. Eu sinto sua falta. E sei que continuará me guiando até o dia em que eu for ao seu encontro. Não sei se breve, mas tudo bem, eu espero o tempo que for para poder te abraçar e dizer bem baixinho aquilo que não te disse. Vou te dizer bem baixinho, Anjo: Que bom te ver e feliz dia dos pais!


Ps: Eu sei que hoje não é dia dos pais. Eu sei que esse texto é impróprio para postar. Mas esse Anjo merece minha homenagem.
Ps: Me perdoem! Estou com saudade do meu animalzinho, e esse texto saiu um bocado profundo e desorientado. Espero que me entendam.

6 de ago de 2011

ESTOU DE LUTO!

Perdi hoje um dos meus anjinhos. Por favor, espero que me entendam. Não haverá texto hoje.
E se quiserem ler algo, leia a minha despedida que fiz para o meu anjinho.

http://storyoffarces.tumblr.com/post/8557878684/perdi-quatro-patinhas-duas-orelhinhas-e-em-uma

Obrigada, Layla Péres.

5 de ago de 2011

I don't need


Me senti matando os meus restos, algumas partes boas demais, outras perversas demais. Me vi sozinha e querendo me tornar cada vez mais distante daquilo que acreditei por um bom tempo e que hoje já não faz mais sentido algum. Senti como se passasse tanto tempo grávida e na hora do nascimento, puft, abortei. É exatamente essa sensação, fiquei tão preparada para o nascimento, que na hora, simplesmente deixou-se de existir. Esperei tanto, escrevi tanto, reclamei muito e agora a intensidade diminuiu. Finalmente parei de querer algo tão intenso e dolorido. Finalmente parei de querer algo que está tão longe de mim, e dos meus pequenos sonhos. Finalmente, deixei de sofrer muito para sofrer só de vez em quando.
Não sei reunir as palavras certas para poder dizer tudo que sinto agora. Não sei reunir as palavras, minha cabeça não sossega. Eu nunca sossego! Não sei não pensar, são tantos sonhos e medos que não há espaço para simplesmente anular. Não há espaço dentro de mim para sofrer por algo tão vulgar. Não há espaço dentro de mim para algo tão sonso e constrangedor. Dentro do que sou, não há espaço mais para a dor.  I don't need!
Passei muito tempo sem saber o que fazer e pela primeira vez em dois, três anos, não quero lutar, correr, falar de você. Pela primeira vez nesses anos todos, minha vontade é fugir de tudo que possa me lembrar você. Acho que isso é sinônimo de que o tempo está passando. Não é assim que se diz? Consigo respirar mais aliviada em meio do caos lá de fora, consigo até mesmo tentar não insistir em mais nada que possa me fazer sentir menor do que já sou, finalmente proclamei: Não vou mais borrar minha maquiagem para aquele que em vez de me ajudar, só consegue fazer com que eu possa me sentir mesquinha.
Não vou mais me entregar a qualquer coisa que se diz perfeita para aquilo que eu sou. Não me deixarei abater por aquele que só quer me ver mal. Não irei entregar minha alma para aquele que diz que minha dor é apenas uma graça, sendo que nessa história, não há graça alguma. Eu não quero mais ser sempre a louca que se dá mal, quero apenas ser a louca. Não quero mais brincar de esconde-esconde com o meu destino. Não quero ser a burra que ama alguém que nem me quer por perto, e eu não quero ter por perto aquela pessoa em já fez parte do meu passado e que hoje já não me faz ter nem ao menos o respeito por Ela. Não quero ter rótulos de sofredora. Na verdade, não quero ter rótulos algum. E aí descobri que não preciso passar por tanto sofrimento para saber quem realmente merece um lugar especial dentro da minha vida.
Depois de tanto tempo, eu chorei em silêncio. Não derramei nenhuma lágrima, respirei fundo e ergui minha cabeça. Chorei em silêncio, andei pela rua, com a cabeça erguida mas ainda assim, aumentando o ritmo da minha respiração para não derramar mais nenhuma lágrima. Chorei em silêncio porque o menino que pensei que entregaria minha alma e todo o amor que havia dentro de mim, estava se tornando uma figurinha do passado, e enquanto isso estava eu, tentando seguir em frente, de maneira mansinha. Nada de ter uma vida exposta, chega disso.  E agora será assim, não haverá mais choro, só haverá o silêncio.
Minha história foi linda, divertida, engraçadinha, mas não preciso sofrer de novo, não mesmo. Sofrer nem por quem merece, resolvi. Sofrer de novo não. Minha história foi um conto de farsas realmente mas não preciso me recordar sempre. Não preciso me maltratar tanto ao lembrar que ele não me amou. Eu não preciso ser a boazinha de sempre, porque afinal, de boazinha só tenho o olhar meio sonso. Não sou nada boazinha, não nasci para ser boazinha, não nasci para ser tida como sonsa. Talvez a realidade seja realmente uma escolha que preciso.
Sentei em frente o espelho da escola e fui analisando cada parte do meu rosto. Já não sou mais aquela menina aflita e tão constrangida que mal sabia o que dizer. Já não sou mais a boazinha que simplesmente deixa para lá. Já não sou mais aquela louquinha, que se faz de feliz quando está triste. Na verdade, nem ao menos sei se sofro realmente. Já perdi  o senso do que é sofrer realmente, já perdi o senso do que é ter um amor. Parece que agora, já não sinto mais. Às vezes, sinto como se eu nunca tivesse amado verdadeiramente. Não sei, pensar demais me faz entrar em questionamento, e eu não quero isso para agora.
Não me importo se o meu destino sairá conforme o que tanto planejei ao longo desses meses. Não espero que ele volte. E não espero que essa sensação de alivio dure muito tempo. Mas está tudo bem, porque eu resolvi, vou seguir em frente.  Eu não preciso chorar, não preciso fantasiar nada. I don't need. I don't need you!

                                                                                                                 storyoffarces.tumblr.com

4 de ago de 2011

Nove meses


Alfenas, 04 de agosto de 2011.
                                                  Para você,
Já se passaram nove meses. Nove meses atrás estava lá sofrendo, querendo acabar com o mundo e querendo acabar com as boas intenções. Nove meses atrás, te mandava embora do meu destino, e com isso, só sobrou uma pessoa saudade. Escrevo essa carta como se eu já fosse outra pessoa. Como se a sua falta causasse um grande efeito sobre a minha personalidade. Escrevo sem querer me desesperar ou desesperar alguém ao meu redor. Acho que a graça de sofrer tanto acabou. Acho que a vida está tentando me dar uma nova chance de recomeço, e pela primeira vez na vida meu coração está tão vazio, menino. Não tenho amores paralelos, acabaram se todos. Não sei o motivo, talvez seja por ser agosto, e as coisas nesse mês são reais demais, talvez eu esteja entendendo que não preciso de um homem para me deixar inteiramente feliz.
Não preciso de um homem para me abraçar ou para segurar a minha mão, até mesmo para dizer que me ama e não quer me ver sofrer. Não preciso amar ninguém compulsivamente para me tornar alguém feliz. Eu juro que queria que alguns desses amores durassem mais de meses, mas não vão, eles não chegam da parte do amadurecimento.Claro que de vez em quando eu sinto muito a sua falta. Sinto falta e não posso correr atrás de você. Já não tenho mais ciúmes, já não quero te ver morto – brincadeirinha – mas também não penso em te encontrar logo depois que acabar tudo isso. Sejamos sinceras, se você me amasse ou gostasse de algum texto meu, hoje você estaria comigo. Você não se importa e agora consigo finalmente entender que não me ama. Não sei se chegou a me amar, mas agora, essa é a verdade. E ela já não dói tanto em mim como antes. Tenho preguiça de tentar coisas novas, sonhos novos e até pessoas novas. Tenho preguiça de conquistar coisas diferentes. Me acostumei a ter tudo em segurança e reservado. Me acostumei a viver sem riscos, mas aos poucos fui até mesmo esquecendo desses pequenos detalhes que fazem parte da minha vida.
Mas e você? Como está vivendo sem ter a minha presença tão esmagadora e persistente? Como é respirar mais leve sabendo que já não há mais alguém perdida no mundo inalando tanto amor e tanta saudade? Qual é a sensação de saber que talvez, você acaba de perder só quem te amou verdadeiramente?  Se sente aliviado agora? Me conte. Quero saber qual é a sensação.  Pessoas desistem de mim, pelo fato que eu não as enfrento, simplesmente, fujo delas. Sabe menino, apesar de ter sofrido muito e comer realmente pão que o diabo amassou, acho que finalmente sei o sentindo de seguir em frente. Acho que agora estou pronta para te deletar realmente do meu mundo – Sem dramas, choros ou cartas – E eu estou nessa de me dar ao valor só porque o mundo quer. Porque no fundo, não quero nem saber de me valorizar, nunca fiz questão. Até me esqueço dessa teoria de mulheres bem resolvidas, e você sabe menino, não sou nada bem resolvida.  
Percebi que não gosto de ser a vítima da história. Odeio menininha que se faz de vítima. Eu não me importo, não deixo mais que ninguém sinta dó de mim, não deixo que ninguém mais dê aquele sorriso amarelado que no fim só serve de consolo. Foi tão difícil recomeçar. Volto ao passado e me vejo aquela menina com alguns quilos a mais, desesperada, procurando solução para tanto amor. E agora me olho no espelho. Poucas coisas em mim mudaram, talvez o olhar, ou a cor do cabelo, mas por dentro eu sou tão outra pessoa. Meus sentimentos mudaram, meus objetivos também.
Não sei se foi realmente melhor assim, não sei o que quero para frente. Mas agora sei que foi preciso passar por tudo que passei para tentar ser alguém melhor. Foi preciso chorar, reclamar, invadir mundos e quebrar paredes para aprender que tudo na vida há um preço e que devemos pagá-lo por ele, seja lá qual for. Aprendi que se eu não me libertasse, jamais te esqueceria e eu continuaria me destruindo dia após dia. Foi preciso passar por todo o sofrimento para ter a certeza de quem eu sou de verdade. O sofrimento não me deixou pior, me deixou melhor.
Escrever me fez entender. Abandonar às vezes é preciso. E seguir em frente é o caminho.

Ps: Espero que você esteja bem.
Ps²: Espero que fique feliz ao saber que estou melhor.
Ps³: Chega.
                                                                   Algumas saudades, Layla Péres. 

1 de ago de 2011

Agosto


Agosto mês-do-desgosto. Agosto que o mês que ainda está inverno. Agosto que o mês que não tem feriado e parece que os dias são intermináveis. Agosto que não tem amores, nem sussurros. Agosto que não vai me trazer o menino que me deixou e nem vai me levar para perto do meu cretino. Agosto, apenas agosto que não suporto, e que me leva de volta ao passado constantemente. Agosto dos abraços quentes, das provas de química, e dos suspiros. Agosto que me tirou e trouxe tantas coisas. Agosto que faz o Leão se tornar Virgem. Agosto que faz ventar muito. Agosto que logo vem setembro e me lembra que logo estarei mais velha. Agosto que arrepia. Agosto que talvez nem seja tão mal assim como todos pensam que ele seja. Particularmente, odeio agosto.  De uns anos para cá, esse mês tem certa carga no que sou e na minha história. Mês do dia dos pais, aí lembro que já não tenho mais o meu por perto e ele não receberá o meu abraço. Mês em que os dias são intermináveis e cansativos demais. É uma correria entre escola e sua vida pessoal. Passarei o mês inteiro sem um amor fixo. Procuro como enfrentar esses dias terríveis e Caio Fernando Abreu me manda inventar um amor, então, vamos lá. Inventarei um amor com cara de passageiro, nada fixo, nem sofrimento, muito menos cobrança. Um amor com cara de não-amor.
Mais da metade do ano passou, ainda bem que passou. O que aconteceu com a gente, eu não sei, mas voltar atrás não é uma prioridade. Estou cansada de ferrar comigo. Estou cansada de ser tão masoquista. Não vou ter muito tempo para sofrer por você, há um futuro pela frente e eu preciso correr desesperadamente atrás dele. Há um futuro que não sei será do jeito que espero, mas tudo bem, sem cobranças, aceito tudo que está acontecendo. Não é que estou me desvalorizando, é que não dá para continuar sofrendo. Não dá mesmo. E agosto, tudo muda, a intensidade aumenta e tudo continuará muito mais insuportável do que já está. Escrevo sem pretensão de nada, escrevo ouvindo uma música da banda Luxuria, no computador e que fica me dizendo que é para dar uma chance a vida. Talvez seja isso que preciso. Talvez eu precise dar uma chance para a vida e para o destino.
Exagerei demais, fui do luxo ao lixo. Foi difícil recomeçar. Foi difícil traduzir sentimentos em palavras, mas hoje, entre trancos e barrancos, consigo ser o que sou. Estava disposta a passar de cima de qualquer pessoa para te esquecer, e hoje, depois de muito tempo, só vejo que estava atormentada. Agosto chegou, meu amor. Agosto chegou e eu sei que vou sofrer muito mais nesse mês, mas ainda assim, preciso evitar. Não evito, deixo acontecer lentamente. Sem freios, com algumas despedidas, mas tudo bem, talvez seja essa nova fase. Torço para que eu não seja tão cruel comigo ou com os outros. Quero ser melhor esse mês. Quero enfrentar a dor. E faço um esforço enorme para poder sair dessa dor. É agosto: o mês dolorido, sofrido e não muito sonhado.
Por não esperar nada, acabo esperando alguma coisa. Essas minhas esperas são intermináveis, mas dessa vez quero fazer tudo diferente. Não espero que esse mês mude minha vida. Não quero encontrar algo perdido, nem tentar achar algo que jamais foi encontrado. Só quero ficar cada vez melhor, sem me deixar levar pro problemas. Por mais que eu sinta a falta do menino, a vida precisa seguir. Não espero nada desse mês que começou. Não espero que a dor passe, nem que eu encontre um cara que faça a minha vida mudar totalmente.  Não espero que entre pela porta do meu quarto e diga que descobriu que me ama intensamente. Não quero sonhar com aqueles que deixei ir. Não quero me culpar pela palavra mal falada ou mal interpretada. Não quero sofrer por aquilo que poderia ter sido e que jamais aconteceu. Não quero ser  mesmo. Não quero ver agosto mais triste do que ele já é.
Só espero que esse mês que começa traga tudo que desejo.  Espero que ele comece de uma forma cativante, com menos drama, e menos amor. Quero que agosto possa me trazer paciência, paz, abraços, festas, e uma dose de tequila.

Ps: Agosto, seja bem vindo!
Ps²: Como as aulas voltaram, volto a abandonar um pouco a dor, mas espero que vocês não me abandonem.
Ps³:  Dê uma chance pra vida te mostrar
Um jeito menos doloroso de se despedir.
Não seja assim tão duro amor com as palavras.
Lave bem as suas mãos antes de se decidir.
Tira essa lama das botas
Antes de me dar as costas .  (Banda Luxuria)
                                                                                                               Story of farces - Tumblr



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