Hoje existir me dói, meu pescoço dói, meu corpo dói, minha alma incomoda, pulsa, arde, e também dói.
Você diz que eu nunca escrevi um texto para gente, mas como vou escrever um texto para minha realidade? Aquela realidade que me fez ter o pés no chão, e me fez pela primeira vez viver a vida de verdade, não com achismo, não com suposição, não com romance e cor de rosa, mas a vida nua e crua, de adulto, de gente grande. E eu nunca havia me sentido assim, tão adulta, tão completa, mesmo que intercale sempre entre ser uma criança assustada e uma adulta que paga as contas.
Me dói saber que você não se acha o amor da minha vida, como pode? Entendo que tenha passado amores tortuosos e fortes mas não havia passado ainda um amor calmo em que eu não preciso escrever textos, suplicar por notas de rodapé na nossa história, implorar de joelhos para ser olhada minimamente.
Dói saber que nosso filho nunca vai existir. Eu nunca mais vou ver teus olhos redondos olhando aos meus como se tudo fosse uma grande descoberta e como se eu tivesse 20 anos de novo.
Nossa família não vai existir. Nossos cachorros não vão existir. Não haverá correria dentro de casa, não haverá mais cheiro de feijão refogado, e nem cheiro da gente no ar.
A gente riu tanto juntos, sabe? Quase esquecia que eu fui inundada a vida inteira pela tristeza. Eu perdi tanto tempo sendo triste e eu não quis mais ser assim, merecia ser feliz com você. Merecia correr para teus braços depois de um dia horrível. Merecia dormir confortável depois de ter passado tantas e tantas noites incomoda.
Só queria ver nossos filhos no caminho da vida. Só queria ter pra sempre teus cachos perto de mim e teus olhos redondos e escuros olhando aos meus.
Me dói saber também que nosso futuro não existe mais. Você não quis asfaltar mais caminhos para caminhar juntos, e eu entendo. Mas e agora? O que eu faço o que eu sinto?
O que eu faço com o caminho que eu quis asfaltar para andar junto e até você?
Não posso jogar lama, não posso jogar lixo, não posso também ignorar. O caminho está ali, bem na nossa frente, e bem atrás de nós. O que eu faço com tanto amor que eu sinto no peito e não consigo nem ao menos demonstrar?
O caminho que me levou é o caminho que te afasta. Afasta você de mim. Afasta nosso futuro. Afasta nossos filhos que poderiam existir.
Eu poderia caminhar por esses caminhos de novo, mesmo com pedra, mesmo com areia, mesmo sujo. Mesmo que eu caminhe desajeitada. Mesmo que eu segure sua mão de forma esquisita.
Eu ainda sei como voltar.
Eu consigo caminhar de novo, mas não consigo caminhar sozinha, não que eu não queira, mas eu não consigo.
Eu preciso da sua mão segurando a minha.
Eu ainda tenho pernas para isso, e se você precisar de ajuda, eu consigo te apoiar. Mas caminhe comigo pela última vez. Pegue minha mão de novo.

