19 de dez de 2014

Caio F. Abreu: Sérgio Keuchgerian




“... isso que chamamos de amor, esse lugar confuso entre o sexo e a organização familiar...”

Sérgio, não sabia como começar — então comecei copiando essa frase aí de cima, é Caetano Veloso numa entrevista ao JB, vim lendo pelo caminho, não consegui me livrar dela. Agora estou aqui, escrevendo pra você no meu quarto antigo, que minha mãe conserva tal-e-qual, como se eu um dia fosse voltar para casa. E lá se vão — quantos mesmo? — sei lá, quinze, vinte anos, qualquer coisa assim.

Chove. Faz frio. E bom estar aqui. Tão bom, Me sinto protegido. Ficamos vendo velhas fotografias, bebendo vinho e rindo muito. Meu irmão Felipe vestiu um modelinho de couro negro e saiu “para dar uma prensa numa caixa de supermercado”. Márcia está tão bonita. E Rodrigo, meu sobrinho, que tem dois
anos e não parece quase me desconhecer. Deixei-os vendo um filme antigo dos Beatles, Lennon repetindo “d’ont let me down, d’ont let me down” — e agora percebo que meu inglês anda tão precário que não lembro se é d’ont ou don’t.

Cansado, cansado. Quase não dormi. E não consigo tirar você da cabeça. Estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. Hesito em dizer qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. Mas quero te contar umas coisas. Mesmo que a gente não se veja mais. Penso em você, penso em você com
força e carinho. Axé. (...)

Não era nada com você. Ou quase nada. Estou tão desintegrado. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Dificil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência. E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o zen de repente escapa e se transforma em sem? Sem que se consiga controlar.  (...)

E você não me conhece, eu não conheço você. Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não escrevesse.  (...)

Please, save me the waltz.

Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena. Todas as cartas de amor são ridículas. Esse lugar confuso de que fala Caetano. E eu estava só
começando a entrar num estado de amor por você. Mas não me permiti, não te permiti, não nos permiti. Pedro Paulo me dizendo no ouvido “nunca vi essa luz nos seus olhos”.
Eu não queria saber.

Tão artificial, tão estudado. Detesto ouvir minha voz no gravador ou ver minha imagem em vídeo. Sôo falso para mim mesmo. A calma, o equilíbrio, as palavras ditas lentamente, como se escolhesse. Raramente um gesto, um tom mais espontâneo. Tão bom ator que ninguém percebe minha péssima atuação.
Você compreende tudo isso? (...)

Dormi umas três horas e acordei ouvindo Quereres, de Caetano. Repeti, várias vezes, cada vez mais alto. Ah, bruta flor, bruta flor do querer. Discutia tanto com Ana Cristina Cesar, antes que ela acolhesse a morte (acertadamente? me pergunto até hoje, nunca sei responder): nossa necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários.

O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável. Você me dizia “que diferença entre você e um livro seu”. Eu não sou o que escrevo ou sim, mas de muitos jeitos. Alguns estranhos.

Não há nenhum subtexto nisto que te escrevo. Não acho bonito que a gente se disperse assim, só isso. Encontre, desencontre e nada mais, nunca mais, é urbano demais — e eu nasci praticamente no campo, até os 15 anos quase no campo, céu e campo. Não sei se a gente pode continuar amigo. Não sei se em algum momento cheguei a ver você completamente como Outra Pessoa, ou, o tempo todo, como Uma Possibilidade de Resolver Minha Carência. Estou tentando ser honesto e limpo. Uma Possibilidade que eu precisava devorar ou destruir. Porque até hoje não consegui conquistar essa disciplina, essa macrobiótica dos sentimentos, essa frugalidade das emoções. Fico tomado de paixão.
Há tempos não ficava.

E toda essa peste, meu amigo. O que tem me mantido vivo hoje é a ilusão ou a esperança dessa coisa, “esse lugar confuso”, o Amor um dia. E de repente te proíbem isso. Eu tenho me sentido muito mal vendo minha capacidade de amar sendo destroçada, proibida, impedida, aos 36 anos, tão pouco. Nem vivi nada ainda. E não sou, sequer promíscuo. Dum romantismo não pós, mas pré todas as coisas — um romantismo que exige sexualidade e amor juntos. Nunca consegui. Uns vislumbres, visões do esplendor. Me pergunto se até a morte — será? Será amor essa carência e essa procura de amor, nunca encontrar a coisa? (...)

Tudo isso, se eu te dissesse, talvez tivesse ajudado a doer menos em você. (...)

Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas. Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar: de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum
comportamento. Ser novo. (...)

Somos muito parecidos, de jeitos inteiramente diferentes: somos espantosamente parecidos. E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim — para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no
escuro. Me queira bem.

Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas. Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé.
Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro.
Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.

Com cuidado, com carinho grande, te abraço forte e te beijo
Caio F.
PS — Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos
descartáveis. E amanhã tem ☼. 

13 de dez de 2014

Divã




Oi, Doutor. Preciso me apresentar formalmente? Ok, ok. Meu nome é Anita.Tenho 21 anos, Sou virginiana, com ascendente em Áries, lua em leão. Aliás, minha Vênus está em leão. E não acredito em horóscopo. Apenas gosto de dar essas complementações porque simplesmente nunca sei o que dizer sobre o que sou. Quando a astrologia entrou na minha vida, Doutor? Nem eu lembro. Mas descobri que ficaria menstruada pela primeira vez quando li um horóscopo de uma revista. Nem acredito em revistas também. Às vezes, eu não acredito nem em mim, e é por isso que eu quero conversar com você, doutor. Se sou triste? Pois é, sou. Sou melancólica, e um bocado depressiva. Acho que é pelo fato de ser filha única, não sei. Quando começou? Não lembro. Sei que me sinto triste algumas horas por dias, e sempre nos finais de semana penso em morrer. 

Ah, Doutor, eu não sei porque eu quero morrer justo nos fins de semana. Talvez porque eu estou acostumada a entrar nessa tal roda gigante que todo mundo costuma dizer que é a vida. A vida é cheia desses altos e baixos. Cheia de trocadilhos ridículos, e de piadinhas de tios sem noção num fim de churrasco. Sempre estou indo embora. Embora? Sim, sempre estive pronta para dizer adeus e fim, fechem as cortinas. Mas nunca tive muita coragem. Tenho medo de morrer, vai que dói né? Doutor, eu sei que dói, e eu nunca fui num psiquiatra antes. Tenho medo de reencarnação. Pois é, dá para acreditar nisso? Nem eu acredito que tenho medo. 


Meu maior medo? De vacas. Morro de medo. E olhe que gosto de animais, gosto mesmo. Mas eu sei que elas são inofensivas. Mas acho que sempre gostei de dizer que tenho medo delas. Mas também morro de medo da cegueira que me ronda. Não cegueira literalmente falando, mas aquela cegueira sentimental que te faz ver as pessoas com outros olhos. Olhos felizes, ou até mesmo patéticos demais. Tenho medo de ser cega quando faço minhas escolhas. Tenho medo de ser cega quando me apaixono. E tenho medo de ser cega quando condeno os outros. Tenho medo de ter medo, e é engraçado dizer isso. Isso nunca me fez parecer insensata. Desculpa doutor, estou falando rápido demais, e tudo bem. Tudo bem mesmo. Mas aos poucos, meus medos são tão idiotas comparado ao das outras pessoas. Nunca entendi o medo de morrer. Nunca tive. Sempre tive a morte do meu lado desde criança. Então, convivo bem com ela. Nem tenho medo da solidão, eu sou melhor assim. Então, esses medos fortes, não me fazem ter medo de nada.


Por que você quer que eu fale sobre minha vida amorosa, doutor? Nem ao menos sei o que é isso. Sou meio doida, sabe? Meio punk mesmo. Porra louquíssima quando se trata de relacionamentos. Muitas vezes pensei em entrar nesses programas para mulheres que amam demais, mas tenho noção que é só drama. Se eu já amei, doutor? É lógico. Sou intensa demais para viver 21 anos da minha vida sem ao menos amar uma vezinha só. Mas amei verdadeiramente dois caras só. E os dois cagaram para que eu sentia. Na verdade, eles cagaram para minha existência. Não sei doutor, não sei se fiquei assim, meio triste por conta deles. Acho que não. Acho que gosto mesmo é de drama, e de fazer com que as pessoas se sintam culpadas pelo jeito. Eu tenho esse lado meio de querer culpar o mundo pelos meus problemas. É, doutor, eu sei que é errado.

Me apaixonei uma vez pelo meu melhor amigo. Foi a pior burrada da minha vida. Mas também me apaixonei por um menino da faculdade. E depois por um menino da minha sala. Me apaixonei também por um cara que nunca quis nada comigo, e ainda de brinde, viajou para longe. Mas eu sou apaixonada mesmo é pelos personagens que crio. Eu gosto de me sentir apaixonada, mas não sei lidar, então, entro em crise. Sempre entro em crise quando estou apaixonada e quando sou correspondida. Sempre entro em crise quando estou apaixonada e não sou correspondida. Sempre entro em crise quando se apaixonam por mim, e eu, infelizmente, não posso corresponder. Me sinto ofendida, doutor. E sempre dizem que tem a ver com o meu horóscopo, mas eu não acredito. Acho que tenho sérios problemas com confiança, e sempre também dizem que é porque nunca aprendi a confiar em homem. O motivo, doutor? Eu cresci sem pai. E torço para que nenhum namorado seja igual a ele.

Às vezes, acho semelhança nele com outros caras por aí. Uma vez andei de ônibus, e o motorista corria tanto, e era engraçado porque ele acelerava o ônibus, e lembrava bastante do meu pai, e como se não bastasse, ele cantava. Achei engraçado, doutor. Achei mesmo. Tive um professor na faculdade que era idêntico ao meu pai, e eu simplesmente tomei birra deles, doutor. A minha sorte que ele puxava meu saco, porque tudo que eu mais sentia era nojinho de ficar perto. E às vezes, acho que os caras que gostei tem uma puta semelhança com o meu pai, e desculpe o palavrão. A semelhança, doutor? Eles sempre cagaram para minha existência.

Tenho uma mania grande também de instigar a memória dos outros. Não conto minha vida inteira, doutor, porque acho tão sem graça. Mas também não quero me dopar de calmantes para viver minha vida tão em banho maria. Gosto de causar paranoia nas outras pessoas. Gosto mesmo. E admitir isso me faz menos insensata, doutor? É, eu sei, deveria ser mais franca na próxima vez. Prometo que serei mais franca na próxima vez. Mas tenho sérios problemas em ser franca. E isso é errado. Sou muito 8 ou 80. Ou minto muito, ou escapo todas as verdades universais num dia só. Por isso, nem ao menos sei quem eu sou. Às vezes, eu me vejo tão livre, e às vezes, eu me vejo tão presa nisso tudo.

Doutor, deitada nesse divã, tudo parece tão mais claro. Tudo parece tão menos infinito quanto me parece. Eu sempre acho que vou morrer, mas ao mesmo tempo, sempre acho que quero viver, morar nos Estados Unidos ou em Londres. Sempre acho que vivo escrevendo personagens na minha cabeça facilita tudo mais. Doutor, tem remédio para amar? Às vezes, eu sinto algo dentro do meu peito que nem ao menos sei definir. Uma vontade horrorosa de amar todo mundo, e ao mesmo tempo, uma vontade horrorosa de nunca mais viver. Eu tenho vontade de não mais existir, mas da mesma forma, tenho vontade de infinitas coisas. São tão infinitas que não sei ao menos sei decifrar. Doutor, eu sei que falo demais, e sempre implicaram comigo. Tudo que eu mais queria era ter alguém que não implicasse por eu ser assim, tão cheia de mim.

Doutor, eu já quero marcar outra consulta. Posso?
Ok, nos vemos semana que vem. Espero ter mais coisas. Porque é tão difícil ter alguma coisa vivendo nesse meu mundinho tão cheio de coisas sem nexos. E é tão difícil existir.
Prometo não fazer nadinha, prometo.
Até depois, doutor.


8 de dez de 2014

All you had to do was stay



Eu resolvi que ali seria o fim. Claro que eu sabia que iria passar noites chorando e escrevendo textos sem finais, claro que eu sabia que iria querer morrer, e iria procurar avisos celestiais. Mas eu escolhi que seria o último adeus, e a última vez que iríamos falar sobre nós. Escolhi que ali seria o nosso final. Eu não sentia mais viva perto de você, e aquele silêncio me fazia sentir a pessoa mais sozinha do mundo, mas eu estava ao seu lado. Eu me sentia sozinha com você do meu lado, e isso me fazia ficar triste. Isso realmente me deixava tão triste. Escolhi que seria a última vez que iria embora de sua casa, e sim, aquela foi a última vez.

Sobre os avisos celestiais, eles apareceram sim. Só que eu, tão cega por tudo aquilo, e tão ingênua, resolvi não vê-los. Resolvi que tudo aquilo era uma babaquice, e não havia aviso nenhum. Mas o destino estampava mais uma vez na minha cara que era hora de crescer e de resolver. Era hora de dizer adeus. Era realmente a hora de dizer que minha gastrite não aguentava mais, e eu achava que tudo aquilo bem maior que a minha pobre existência. E de fato, tudo aquilo foi bem maior que a minha minúscula existência.

Você estava cansado de mim, e eu sei disso. Estava cansado de saber que a minha existência era menor demais, e o que eu sentia era maior que tudo aquilo. Estava cansado e irritado por saber que meu endeusamento por você não passava de drama, e é verdade, tudo isso é drama. Tudo isso é vontade de escrever mesmo sabendo que isso vai sangrar por mais tempo. Mas sabe, escrever é exatamente isso. Escrever é sangrar, é remexer na ferida, e é esperar que o tempo cure, mesmo sabendo que esse clichê é uma puta encheção de saco.

Lembro que me sentia sozinha ao seu lado. Lembro aquele vazio imenso dentro do meu estômago todas às vezes que me mandava embora do seu mundo, me mandava ser mulher, me mandava até mesmo superar e esquecer. E eu, tão ingênua mais uma vez, me agarrava naquela lembrança mais escrota só para não te deixar morrer dentro de toda a história. Tudo que eu mais queria era morrer. Mas ao mesmo tempo, tudo que eu mais queria era viver.

Do mesmo jeito que você cansou de mim, eu me cansei de você. Cansei de não ser ouvida, nem sentida. Cansei de terminar algo que nem havia começado. Cansei de colocar reticências esperando simplesmente um próximo capítulo de sua artimanha. Mas aos poucos, aquele abismo se desfez. E eu pude colocar meus pés de novo ao chão. Minha existência era tudo menor do que poderia ter aguentado. Eu era apenas frágil demais para ter que lidar. Cansei de ser deletada, evitada, desviada. Cansei de ser simplesmente uma figura qualquer em seu mundo.

Eu não precisava de muito. Não precisava de orquestra na porta da minha casa. Não precisava de pichação de muro. Não precisava nem ao menos de escândalo. Só precisava que você me pedisse para ficar. Você deveria ter feito isso. Do mesmo jeito, que não deveria ter me feito escapar, fugir, ou surtar as escondidas. Não deveria ter me entregue tão fácil aos outros caras como se eu fosse uma mercadoria. Mas do mesmo jeito, eu, ingênua, não deveria ter entrado nessa história. Do mesmo jeito, eu não deveria ter ficado.

Pude voltar ao início.
Conheci outros perfumes, outros toques, outros olhares.
Conheci o mundo de uma maneira que não havia visto antes.
Por mais que a gente se canse, talvez, seja pra lá que a alma quer voltar.



29 de nov de 2014

Louquinha




Está chovendo e eu quero morrer. Simples. Não é paranoia, e sim, é só drama. Mas eu quero morrer. Não quero morrer porque estou triste com a morte do Bolaños, e nem porque estou de férias, mas eu quero morrer porque está chovendo. E eu fico deprimida quando chove. Talvez, eu quero morrer de tanto me entupir de chocolates. Ou talvez, quero morrer porque a tal louca interior que reside em mim simplesmente resolveu dar as caras de novo. Putz, aí a história é feia.

Nem sinto vontade de morrer todos os dias. Às vezes, eu sobrevivo semanas sem entrar em crise, mas não é daquelas crises que eu tenho quando fico completamente apaixonada - O último que me apaixonei era um agroboy dos seus vinte anos, que vivia dizendo que eu era a sua menina, ou a sua bêbada (ele realmente disse isso, e eu inventei esse "sua menina" só para poder me enganar) preferida, e cá entre nós, até pensei que a gente poderia ter dado certo, se não fosse o fato da gente ter se beijado enquanto ele ainda namorava, e eu não sabendo lidar com tudo aquilo, transferi de curso e resolvi assumir toda podridão humana que me envolvi. É, nós vamos transar mas não sei nem quando, e nem onde -

Essas minhas crises sem pé, e nem cabeça, só servem para me aproximar daquela louca que mora dentro de mim. Aquela louquinha intensa que morre de medo de vaca, e de envelhecer. Aquela louquinha intensa que resolve dar infinitas chances para a mesma pessoa mesmo sabendo que não é certo. Aquela louca intensa que adora sua bunda, e suas costas. Aquela louca intensa que adoraria ter filhos com você, mas que ao mesmo tempo quer jogar todas as crianças chatas do mundo dentro de um forno. Essa outra que mora dentro de mim vive me acalmando, e dando conselhos vulgares. Essa é aquela que me fez apaixonar por um cara que me vulgarizou o que eu sentia, e eu tão sensata, adorei tudo aquilo. Acho que não conseguiria viver sem meu outro eu, e sem minhas crises de querer morrer todas às vezes que o tempo fica nublado.

Essa insana que mora aqui dentro me faz retornar ligações, e evitar sentimentos. Me faz querer ter casos com homens escrotos e que vivem dizendo o quanto adoram meu olhar desatento e a minha boca. Ela adora surtar e causar o drama. Ela adora o ego e a vaidade. E talvez, tudo isso acontece porque minha Vênus está em Leão. Mas o problema é que essa louca que mora aqui dentro se apaixona também, e sou eu quem paga o pato. Sou eu que não durmo, e choro. Sou eu que acorda chorando, e tem noites de insônia. Sou eu que escuto Asleep - The Smiths e penso em morrer soterrada. Sou eu que também me apaixono. Sou eu que também quero arrastar a cara do menino no asfalto todas às vezes.

Já passei dos quinze anos há tempos, e tudo que eu queria era parar de culpar os outros por eu ser assim, tão cheia desse outro eu. Eu só queria entender o porque desse ego inflamado, e dessa saudadezinha que me invade quando penso no que poderia ter sido mas que não foi. Comecei escrevendo esse texto e eu já nem quero mais morrer. Talvez, eu nem queira mais nada. Talvez, eu queria ouvir Hurt - Johnny Cash e chorar na posição fetal, ou então sair por aí dizendo coisas do tipo "Putz, não te superei, caí na vida, e aí? Volta?" mas tudo isso é vontade de ser quem eu sou, e sem máscaras. Porque cada um sabe a dor e a delícia de ter essa louca intensa dentro de si. Cada um sabe a falta que o outro faz, e era só isso que eu precisava escrever.

26 de nov de 2014

A sua foto - Tati Bernardi



E mais uma vez, eu abri uma página sua de uma rede social e fiquei olhando sua foto. Como eu já sorri olhando praquilo, você não tem idéia. Mas das ultimas vezes, infelizmente não era sorrindo que eu olhava, era com desanimo, com saudade e mágoa misturadas.
Porque você tinha que morrer? Porque você tinha que matar tudo que eu sentia? Me obrigar a morrer também. Me obrigar a fingir estar viva pra todo mundo. Me obrigar a não chorar, quando tive vontade de chorar. Vontade de te esmurrar, te dizer que você é um idiota, um babaca, um cretino, um fraco, nunca passou disso.
Nunca uma piada sua foi engraçada, nunca você me surpreendeu. Nunca. Mas eu não consigo deixar de pensar em você, a cada dia, a cada ato meu. E quando eu procuro outras pessoas, eu procuro imaginando você me vendo. E tendo ódio de mim. Porque eu quero que sinta ódio. Porque ódio significa alguma coisa, e é melhor que indiferença.
Você que já foi tudo, já foi minha esperança, foi meu futuro imaginado, hoje não é nada.Não passa de uma foto numa rede social. Se eu vivo bem sem você, porque eu continuo te olhando? Porque eu sempre volto aqui? Porque eu ouço musicas que falam de tristeza? Por quê? Você não vale isso.
Mas eu faço. Eu continuo fazendo. Como uma cerimônia de luto, eu sigo a risca.Mas acontece que você não morreu de verdade, do jeito que eu preferia que morresse.Você está ai vivo, vivendo sua vida, fazendo suas coisas, feliz, tranqüilo, sem sentir minha falta, sem olhar minha foto em rede social. Porque eu não consigo? Porque você não podia ser alguém? Eu esperei muito de você? Não.
Eu não esperei nada, eu entendi tudo, eu entendia o que ninguém entenderia. Eu respeitei. Eu fiz como você quis. Tudo. Eu me anulei. Eu deixei de me amar, pra todo meu amor ser só seu. Eu voltei atrás. Eu chorei, eu pedi desculpas, eu agüentei besteiras. Agüentei tudo. Ajuntando do chão, migalhas do seu carinho, migalhas do seu amor. Do seu jeito explosivo e calmo. Um dia me amando como se a terra fosse acabar depois da meia noite. No outro dia um desconhecido me pedindo pra tratá-lo como qualquer um, por favor.
Você é meu personagem favorito. O dono de todos os meus textos, de todas as minhas histórias. O dono da curvinha das minhas costas. E eu tenho que dizer isso agora, só pra uma foto numa rede social. Porque você morreu na minha vida. Você pediu demissão, seu cargo era o de presidente, era membro honorário do conselho, tinha tapete vermelho e eu me vestiria até de secretária se te agradasse.
E você pediu demissão, sem aviso prévio nem nada. Me diz agora? Como viver bem? Como sobreviver, sem essa ponta de angustia? Eu sou feliz, cara. Eu sou feliz demais. Mas eu sou infeliz demais, quando penso em você. Quando penso no que poderia ser, no que poderia ter sido. Eu sei que não dá. Eu nem quero que dê. Não quero mais. Mas não sei o que fazer com esse nó. Vai passar né? Eu sei. Com o tempo eu não vou mais olhar sua foto, nem sofrer, nem pensar o quanto é infeliz tudo o que aconteceu. Tomara que passe logo. Porque a vontade de te ressuscitar as vezes, me domina.

23 de nov de 2014

Amor não se pede - Tati Bernardi





Se implorar resolvesse, não me importaria. De joelho, no milho, em espinhos, agachada, com o cofrinho aparecendo. 
Uma loucura qualquer, se ajudasse, eu faria com o maior prazer. Do ridículo ao medo: Pularia pelada de bungee jump.
Chorar, se desse resultado, eu acabaria com a seca de qualquer Estado, de qualquer espírito.
Mas amor não se pede, imagine só.
Ei, seu tonto, será que você não pode me olhar com olhos de devoção porque eu estou aqui quase esmagada com sua presença? Não, não dá pra dizer isso.
Ei, seu velho, será que você pode me abraçar como se estivéssemos caindo de uma ponte porque eu estou aqui sem chão com sua presença? Não, você não pode dizer isso.
Ei, monstro do lixo, será que você pode me beijar como um beijo de final de filme porque eu estou aqui sem saliva, sem ar, sem vida com a sua presença? Definitivamente, não, melhor não.
Amor não se pede, é uma pena.
É uma pena correr com pulinhos enganados de felicidade e levar uma rasteira.
É uma pena ter o coração inchado de amar sozinha, olhos inchados de amar sozinha. Um semblante altista de quem constrói sozinho sonhos.
Mas você não pode, não, eu sei que dá vontade, mas não dá pra ligar pro desgraçado e dizer: Ei, tô sofrendo aqui, vamos parar com essa estupidez de não me amar e vir logo resolver meu problema?
Mas amor, minha querida, não se pede, dá raiva, eu sei.
Raiva dele ter tirado o gosto do mousse de chocolate que você amava tanto.
Raiva dele fazer você comer cinco mousses de chocolate seguidos pra ver se, em algum momento, o gosto volta.
Raiva dele ter tirado as cores bonitas do mundo, a felicidade imensa em ver crianças sorrindo, a graça na bobeira de um cachorro querendo brincar.
Ele roubou sua leveza mas, por alguma razão, você está vazia.
Mas não dá, nem de brincadeira, pra você ligar pro cara e dizer: ei, a vida é curta pra sofrer, volta, volta, volta.
Porque amor, meu amor, não se pede, é triste, eu sei bem. É triste ver o Sol e não vê-lo se irritar porque seus olhos são claros demais, são tristes as manhãs que prometem mais um dia sem ele, são tristes as noites que cumprem a promessa.
É triste respirar sem sentir aquele cheiro que invade e você não olha de lado, aquele cheiro que acalma a busca. Aquele cheiro que dá vontade de transar pro resto da vida.
É triste amar tanto e tanto amor não ter proveito. Tanto amor querendo fazer alguém feliz.
Tanto amor querendo escrever uma história, mas só escrevendo este texto amargurado. É triste saber que falta alguma coisa e saber que não dá pra comprar, substituir, esquecer, implorar.
É triste lembrar como eu ria com ele.
Mas amor, você sabe, amor não se pede. Amor se declara: sabe de uma coisa?
Ele sabe, ele sabe.

20 de nov de 2014

O contrato - Tati Bernardi


Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós.
A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre. E a orelha ouviu uma sacanagem qualquer, e a mão se encaixou ali no meio das minhas pernas.
Você me chamou de amor ontem, enquanto a gente transava. Eu quis chorar. Mas também quis rir muito da sua cara. Acabei só esquecendo isso. Talvez o “mô” que você murmurou, seja porque no dia anterior, naquela mesma cama, você tenha comido alguma “Mônica”. Prefiro pensar assim. Se eu for muito, mas muito escrota, talvez eu me proteja de me assustar muito. Caso você seja escroto. Eu sendo de pedra não quebro com a sua pedra. Sei lá.
Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: não to esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer.
Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer e vontade de fazer sexo.
Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir  porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso.
Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado.
Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo.
Não é amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre.
E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor.
E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo “bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato”. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro.
Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita.


Tati Bernardi

13 de nov de 2014

Não é mais uma história de amor





Aquela esquina era claramente marcada para não ser mais uma história de amor. E não é uma história qualquer, muito menos, de amor. Tudo se refez conforme os contos de Lispector. Tudo havia se desfeito conforme os contos de Caio Fernando Abreu. Tudo havia se tornado conto. Até mesmo aqueles dois.

Ela olhou para ele com muito sono. Já não era mais amor, nem tesão, nem era ao menos loucura infiltrada como antes. Ela olhou para ele e para tudo aquilo em volta com muito sono. Não havia mais motivo para continuar, e nem desistir. Já não tinha mais motivo algum para procurar o nada, nem ao menos, procurar o que foi perdido há tempos. Já não havia motivo para procurar o cheiro dele em outros corpos, e nem em outros gestos. Já não havia motivo para chorar, descabelar ou enlouquecer. Já não havia motivo nem ao menos para dizer que tudo havia acabado. Na verdade, ele que era o motivo de tudo já não existia mais, e assim, chegaram ao fim.

Meados de aquele tempo em que só chove. Não há sol nem ao menos para dizer que o caminho está sendo iluminado. Não há claridade alguma para dizer que encontrou alguma resposta. Ela suspirou pela milésima vez, como se estivesse parindo alguma coisa, e tenho certeza que ali nasceu a saudade pela primeira vez. Ali, aquele parto em forma de suspiros, nasceu a saudade. Ela suspirava tanto, tanto, e tudo isso era para segurar o choro. Mal sabia ele os caminhos que ela andara. Mal sabia que ela estava disposta a entrar num mundo que nunca foi dela para ver se ao menos, tudo acabava.

Ela, cheia de si, estava lá, parada esperando que o mundo resolvesse dar uma resposta. Ela, cheia de respostas incompletas e cheia de reticências, estava parada naquela esquina, com um cigarro na mão, esperando que tudo se resolvesse. Mas como vai resolver algo que não teve nem início? Pois bem, ninguém sabe. Só sabia que doía sem parar naquelas noites vazias e silenciosas. Aquelas noites que vagava sem rumo, sem respostas, e até mesmo sem coração.

Até que um dia, ela o viu. Ele estava sendo feliz conforme ela se lembrava. Aquele olhar distante se transformou numa mágoa. E ela, que nunca havia sentido ódio de ninguém, estava tomada de amor, loucura e ódio por ele. Ele, que havia salvado seu mundo diversas vezes. Ele, que havia buscado tanta profundeza em sua alma. Hoje já não significa nem ao menos um motivo coerente para ela buscar as respostas. O ano está acabando, dizia ela. O ano está acabando, e eu também, então, por favor, me salva. Ela só tinha ele. Só ele com ela. Ela com ele. Ele comigo.

Ela não era ridícula. Não mesmo. Seu olhar havia malícia misturada com mistérios, e sabe-se lá o que isso quer dizer. Seu olhar que era meigo, havia se tornado um poço de solidão, de mágoa, e composto de álcool e de drogas. Ela se perdeu de você, de mim, e do mundo. Ela apenas não acreditava mais em nada. Nem signos, nem anjos, muito menos nos demônios. Ele se perdeu também, mas isso não vem ao caso. Ele que se perdeu, ele que se encontre. Estamos aqui para falar dela, da menina, da mulher, e do monstro que ela virou.

Todos se lembram daquela menina sorrindo, aliás, ela tinha um sorriso muito bonito, e era o que todos diziam. Atrás dele, havia outros, havia uma lista enorme de misteriosos homens querendo descobrir o que ela tinha atrás de tudo aquilo. E ela, fechada em seu próprio ego, apenas suspirava e gemia. Era um segundo parto, e esse parto nasceu a solidão. Suspirava com força como se algo fosse sair novamente. Suspirava com mais força para não chorar, e aos poucos, esse suspiro se tornou soluços.

Era apenas uma pré-morte para aquele pré-amor que nunca existiu. Era apenas uma morte de tudo que ela havia passado. Aos poucos, novembro está passando, e com ele, ela também está passando. Passando fundo, deixando marcas de vazio e loucura. Mas quem se importa? Ninguém sabe. Ele, que havia se tornado um personagem qualquer, havia passado. Sem pensar em mais nada. Sem pensar nela, e em qualquer pessoa, ele foi embora.

Ela, sem pensar na solidão, na loucura, nos livros, e nas músicas de Lana Del Rey também se deu o direito de embora de tudo aquilo. Às vezes, você também tem o direito de ir embora, pensava ela. E foi exatamente isso que aconteceu. Foi claramente isso que aconteceu. A menina que já era feita e refeita milhares de vezes, foi embora de uma vez por todas daquela esquina, daquele álcool, e do corpo daquele menino.

10 de nov de 2014

Ultimo segundo - Tati Bernardi





Não deixe quebrar, não deixe romper, não deixe virar grafite envelhecido e esquecido como qualquer contrato sem alma. Corra e cole os pedaços, corra e segure meus pés no chão porque eu estou quase voando, ou me faça voar novamente com você. Por favor, não espere o sanduíche ou a festa do ano, não espere a minha próxima assoada de nariz e a minha cara assustada perdida na sua ausência. 
Venha logo, traga de volta a minha certeza, não deixe, por favor, não deixe. Traga um agasalho para esquentar a minha falta de amor e ganhe em troca um ingresso para a minha fidelidade. 
Não espere o horário do trânsito livre, não espere ouvir o que você não quer, não espere a vida dar merda para colocar a culpa na vida. 
Eu ainda estou aqui por você, limpa, ilesa, sua. Mas cada milímetro do meu corpo me implora por vida, por magia, por encantamento. Por favor, me roube, não deixe, não esqueça do nosso pacto em não ser mais um daqueles casais que não conversam no restaurante e reparam tristes nos outros. 
Outro dia ouvi a música do Closer e lembrei o tanto que eu te amava, o tanto que ainda te amo, mas havia esquecido. Eu lembrei que enxergar sem pretensões você dormindo, com o seu ombro caído pra frente fazendo bochechas de criança na sua cara feliz, é a visão do paraíso pra mim. 
Eu preciso de força, eu preciso de ajuda, eu preciso que você me lembre de que eu não preciso de mais nada, que mais nada é tão perfeito e que podemos ser um casal imbatível. 
Caso tudo isso seja um trabalho inconsciente para me perder, parabéns, você está conseguindo. Mas se ainda existir dentro de você alguma esperança, eu preciso demais que você me abrace e me faça sentir aquilo novamente. É fácil, basta você querer, eu ainda quero tanto. 
Venha agora, não espere o músculo, a piada, o botão, o calo, a saudade, o arrependimento, o vazio. Eu preciso sentir que você ainda sente, eu preciso que o seu coração dê um choque no meu, eu preciso saber que seu peito ainda aperta um pouco quando eu vou embora e se espalha como borboletas nas veias quando eu chego. 
Tudo o que eu quero, quando ele me olha sem pressa e sorri nervoso sem saber porque a gente procura se perder, é que você desligue o DVD e me diga que esse filme é batido e não tem final feliz. Eu quero que você grite dentro da minha cabeça que não precisamos disso e que, por alguma razão, quando a gente se afasta a dor é maior do que todo o mundo que nos espera. 
Eu ainda preciso que você me ache bonita, se surpreenda, me comemore e esqueça um pouco de todo o resto pra se encantar sem medo do tempo. 
Não me tire a razão, não me tire a honra, não me faça estragar tudo só para sentir o vento na cara de novo e a música alta. Berre e assopre em mim enquanto é tempo. 
Me coma na cozinha, quebre a mesa, faça um escândalo, qualquer coisa para tirar o cheiro de velório do meu ventre. Eu ainda quero viver para você. 
Venha agora, ganhe a corrida, passe todo o resto pra trás, é você quem eu continuo eternamente esperando na linha final.

7 de nov de 2014

O não que tinha alma de sim - Tati Bernardi




Só quem tem o poder de te fazer sentir viva, pode fazer você se sentir morta. Só quem arrepia cada centímetro do seu corpo e faz você sentir o sangue bombear num ritmo charmoso, é capaz de estragar o mundo quando parte. Só quem tem o poder de tornar o mundo leve e fazê-la flutuar, também pode afundar sua noite e fazer com que seu corpo se arraste pelos restos que sobraram da festa. Aonde está a força de negar um desejo se enquanto ele não é saciado continua existindo? Desejos nascem, ocupam lugares interessantes do seu corpo, e não morrem antes de um formigamento exausto de prazer, uma manhã suja de arrependimentos, hálitos estragados de amargura e clicks que a vida nos dá, também chamados de momentos de verdade, que em muito se parecem com toques de mágica para você sair do estado encantado e falso da imaginação. 


O tempo não se encarrega de matar desejos, apenas de substituir os personagens. Você pensa que é forte sendo moralista, respirando fundo, contando até mil, sumindo da festa, rezando, desviando sua atenção, mas ele está lá, num bar com amigos, te olhando de longe. E ele continua lá  mesmo depois que o táxi o levou, meio embreagado, para casa. Ele está no vazio que deixou, na dúvida de como poderia ter sido, na esperança do próximo encontro, na consciência leve pela negação e pesada pela cobrança de um tesão ainda latente. Pecados existem, não os julgados por Deus, não as pecuinhas julgadas pelos humanos. Pecados existem dentro dos corações traidores. Mas se antes meu coração ardeu e se assustou de pecados, agora ele chora de saudade, de covardia e de aceitação. Ele está puro e nem por isso tranquilo. Esse é o maior problema dos desejos, eles não aceitam não como resposta. 


Você só coloca um ponto final nele se for até o fim. E o fim pode ser um simples enjoo ou, na pior das hipóteses, a morte. Mas você viveu. Para matar um desejo é preciso viver, nem que depois você morra junto com ele. Indo embora para casa, segurei o peito, que parecia solto, e abafei uma lágrima. Como eu queria agora estar com ele. Por aquelas três horas pagas de delícias e mais meia de arrependimento na hora de se vestir. Por aqueles segundos de esquecimento, mais meses de lembrança. Por algumas palavras idiotas, mais muitas contidas para não parecer idiota. O desejo me acompanhou até em casa. Muito , muito mais forte que minha nobreza em ter dito não. 


Ele está lá. No seu coração, na sua mente, no cheiro que você carrega junto com seu passado. Ele está em cada batimento cardíaco contraído da sua vagina, em cada torção contraída do seu estômado, em cada momento descontraído de seus hormônios. Você está aqui. Em cada linha que eu escrevo tentando ser boa redatora, em cada momento correto que eu me agarro para não deixar você errar, em cada provocação estratégica para você nunca desistir de insistir em errar. Você está aonde eu quero chegar, em tudo que eu quero negar, muito presente.


 Não quero uma só uma escapadinha, não quero uma vida ao seu lado. Não quero nunca mais te ver. Queria ter dez minutos com você, o bastante para não mudar minha vida em nada. Quero outra vida. Não estou nem aí pra você. Só penso em você. Você é meu amigo, você é um conhecido, você foi a melhor noite da minha vida. Mais do que qualquer certeza, confusão é paixão. Quis demais que você fosse embora, quis demais que você ficasse pra sempre, quis não pensar, me agarrei numa lógica fria que berrou no meu ouvido que toda ação tem sua reação. Toda traidora tem seu dia de enganada. Toda vontade negada tem seu dia de câncer. Todo silêncio tem seu dia de grito desesperado. 


Entenda cada som, de cada letra, de cada palavra, de cada frase, de cada sentença, de cada ideia carregada de desejo, como um grito de cada parte do meu corpo que ficou lacônica quando sua presença física abandonou a festa. O desejo era tanto, que travei. Tive medo que você tirasse meus grampos e minha maquiagem, a roupa que vesti para seduzi-lo. Tive medo da hora de ir embora, a maior solidão de uma mulher é não poder dormir nos abraços do seu amado, pois ele é sua apenas por três horas. Tive medo da sua pressa, que sempre me ofende tanto. Tive medo da sua fidelidade


Você sempre me comeu muito bem, mas nunca me emprestou seu ombro, seu colo, sua mão, seu olhar carinhoso, seu suspiro, seu sono, sua fragilidade. Tive medo de ser só desejo, porque para mim sempre foi mais. Prefiro ser perseguida pelo meu desejo, que não tem dia para acabar, do que ser abandonada mais uma vez pelo seu, que dura no máximo três horas.

6 de nov de 2014

Eu preciso saber - Tati Bernardi




A recaída de amor acontece como num daqueles pesadelos que se está caindo. De repente você acorda sentado na cama: Meu Deus, eu preciso saber! Mas se eu já estava tão bem há semanas. Volte a dormir, volte a dormir. Você já tinha decidido lembra? Nada a ver com você, chato, bobo, não deu certo. Mas eu preciso saber.
Não, não precisa. Pra quê? Vai te machucar. Não! Eu preciso saber. Então levanto da cama. Facebook, a desgraça em formato de parquinho virtual. Nome dele, aparece a foto azulada e ele de perfil. É tão bonito. Mas não há mais nada que eu possa ver. Nos deletamos mutuamente pra evitar justamente esse tipo de inspecão noturna.
Mas isso não vai ficar assim. Ligo pra nossa amiga em comum. Ela não atende, afinal, são duas da manhã. Mando mensagem “me manda sua senha do Facebook agora ou vou ficar te ligando até amanhã cedo”. Ela manda a senha e um palavrão. Acesso. Vamos ver. Eu preciso saber. Eu preciso. Então vejo que ele não posta nada há cinco semanas. Fotos, fotos. A única foto nova é o flyer de uma festa que eu fui e ele não estava. Nada
Jogo o nome dele no Google. Aparece uma foto dele alcoolizado dando entrevista em uma festa de mídia. Como é lindo. Tento o Twitter mas ele só escreve piada de político. Tento o Facebook, Twitter e blogs de amigos. Está ficando tarde. Se eu tivesse essa mesma concentração e minuciosidade e empenho e energia para o trabalho estaria rica. Estou retesadamente motivada e atenta. Mas não consegui nenhuma informação e eu ainda preciso saber.
São seis da manhã. Estou cansada. Coloco a música de quando você forçou a porta do quarto e entrou. Black Swan. Não sou boa de inglês como você, mas sei que é a história de algo que já começou fodido porque cresceu demais antes da hora, você que pegue um trem e suma daqui. Que bela música pra começar. Ok, agora estou chorando. Lembrei que eu me sentia tão viva com você me olhando bem sério e bem no fundo dos olhos e machucando meu braço. Sim, é definitivamente uma recaída e eu acabo de decidir que te amo mais que tudo no universo e que amanhã, ou hoje, porque já são sete e meia da manhã, vou resolver isso. Agora preciso dormir só um pouquinho
Volto pra cama. Coração disparado. Não tem posição na cama. O que eu faço? Não tô a fim de ler, não tô a fim de ver TV. Aquelas outras coisas que se faz pra acalmar tô com preguiça agora, minha imaginação está indo toda para traçar um plano para que eu descubra. Descubra o quê? Não sei, mas sei que algo está acontecendo, ou eu não estaria assim. Porque eu sinto quando ele está com alguém, sabe? Eu sinto. Sim! A cartomante!
Ligo pra Zuleide. Você atende hoje? Mas é domingo, Tati! Atende? Só se for por telefone. Tá bom, então joga aí: ele está com alguém? Mas Tati, você quer mesmo saber isso? Quero, mulher. Eu preciso saber. Joga aí: ele está com alguma puta? Tati, eu não posso perguntar isso pras cartas. Pergunta aí: ele tá com alguma piranhuda desgraçada vagabunda vaca dos infernos? Zuleide pede desculpas e desliga. Preciso do Lexapro mas ele acabou há semanas, igual meu amor. E agora, de repente, preciso tanto dos dois novamente
Você acha que ele está com alguém? Não sei, Tati, eu ainda tô dormindo, posso te ligar mais tarde? Você acha que ele está com alguém? E se estiver, Tati, quer ir ao cinema mais tarde? Você acha que ele está com alguém? Putz, sei lá, homem sempre tá comendo alguém né? Você acha que ele está com alguém? Tati, do jeito que ele gostava de você? Claro que não!
Chega, chega. Preciso me acalmar. Pra que isso? Se ele estiver com alguém agora, e daí? Terminamos não terminamos? Ele e eu não temos nada a ver, certo? Decidimos que era melhor assim, certo? Eu não tava bem com ele e nem ele comigo, certo? Porque era bom e tal. Aliás, meu Deus, como era bom. Mas não era bom pra ficar junto, certo? Então pronto. Chega. Adulta, adulta.
Qual o problema se ele estiver agora, justamente agora, lambendo a virilhazinha de alguma desgraçada? Qual o problema? Ok, eu posso morrer. Eu definitivamente posso morrer. Chega, vou acabar com essa palhaçada agora mesmo.
Tomo banho, me visto, pego a bolsa, entro no carro. Considerando que ele não mora em São Paulo, não sei exatamente o que eu pretendo com isso. Mas me faz bem enganar o cérebro e fazer de conta que estou indo atrás da verdade. Na verdade vou só na casa de outro, preciso fazer qualquer coisa que não seja sofrer, mas não consigo. O outro não conhece Black Swan, não ri da história da Zuleide, não me aperta o braço.
Volto pra casa, destruída. Sinto tanto amor dentro de mim que posso explodir e bolhas de corações vermelhas atingiriam o Japão. Quase não consigo respirar. Chega, chega. Ligo pra ele. Ele não atende. Ligo de novo. Ele atende falando baixinho. Você está com alguém? Estou. Desligamos. Pronto, agora eu já sei. Depois de um final de semana inteiro de palpitacões, descargas de adrenalina, músicas, textos, amigos, danças, gritos, sensações, assuntos, choros, dores, vida. Agora eu já sei.
O que eu nunca vou saber é porque faço tudo isso comigo só porque tenho tanto pavor do tédio. Era só isso o que eu precisava saber. 

5 de nov de 2014

Eu nem te amo - Tati Bernardi




É estranho como sinto saudades quando você vai buscar água. Aqueles segundos que separam o resto das suas canelas se perdendo no corredor com o pulo que você dá na cama. Aí você volta cheio de pressa em se livrar de mim e eu penso que tudo bem. Você tem pressa até de se livrar de você mesmo. O problema não deve ser eu. E eu nem te amo mesmo. Só fui te visitar porque tenho preguiça de transar com qualquer um e se fico mais de 3 semanas sem sexo começo a arrumar confusão no trânsito. 


Sua voz é chata e seu papo então, insuportável. Respiro aliviada e sugo o máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não é você. Não sonhei com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa mais estranha do mundo. Imagina só ficar grávida de um homem que tem pavor de mulher com enjôo? Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor da vida óbvia, cotidiana e imperfeita? Eu viveria infeliz. 


Não é você. E lá vem você me perguntar porque é que estão todos casando, e falar pela trigésima vez que você vai acabar sozinho e não deve nada a ninguém. E lá vem você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E me falar para eu não sofrer e para eu ir embora e para eu não esperar nada e para eu não desistir de você. E eu me digo que não é você. Porque, se fosse, meu sono seria paz e não vontade de morrer. 


Me despeço, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais amo. Ainda que eu nem te ame mesmo. E me despeço das partes da sua casa que eu mais amo. Ainda que nada disso seja amor. E entro no carro já sem chorar. Os últimos três anos chorando por você serviram ao menos para me secar por dentro. 

Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O mundo não suporta mais esse meu não amor por você. Meus amigos espalmam a mão na minha cara e já vão logo adiantando que se eu pronunciar seu nome, eles vão embora sem nem olhar para trás. Remédios só me deixam com um bocejo químico e a boca do estômago triste, mas não tiram você do meu coração. E escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha. Nem eu suporto mais gostar de você. E olha que nem gosto. 
É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia , os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhã na minha janela, a torta de palmito na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer com quem eu dormi (e todos eles parecem qualquer quando não são você). É como se o mundo inteiro me dissesse: “hei Tati, ninguém agüenta mais esse assunto! Chega!” 


E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar. 


Lembro de você me dando mostarda de café da manhã na primeira vez que dormi na sua casa, de você com os olhos disfarçando uma lágrima porque a minha cachorra buscou a bolinha e era só uma desculpa para eu fechar a porta antes dela voltar. Lembro de você querendo fugir de um museu na Itália porque tantos dias longe de casa te deram uma espécie de bobeira e você achava que estava sufocando. Lembro da sua jaqueta com um sol nas costas e do seu cabelo espetado igual ao sol, do cheiro que você tem bem no centro da nuca, do gosto amargo de menino que tem pressa de tomar banho que você tem bem no fundo da orelha. Lembro de você olhando a bunda da minha amiga e logo depois me dando um abraço forte e dizendo “cadê mesmo aquela revista que tem um texto lindo seu?”. E lembro da primeira vez que eu te vi e te achei meio feio, vesgo, estranho. Até que você me suspendeu no ar por razão nenhuma eu tive certeza que meu filho nasceria um pouco feio, vesgo e estranho. 


E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um…eu pergunto: por que é que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também amam ele?

Carta para o homem que morreu e um pouco de verdade viva - Tati Bernardi




Você pensa que eu não sei? Eu sei que tenho soluçado risos nervosos por aí. Sempre um por aí perto dos seus ouvidos. Tudo para você ver o quanto eu me divirto, o quanto sou charmosa. Para você lembrar de como a gente se diverte, com a minha risada, com a sua. E eu grito um pouco rindo, eu sei disso também. Que é para você lembrar de quando eu sinto prazer. De quando você me dá prazer. Eu passo quieta por você, você passa quieto por mim, e eu ainda escuto o barulho que a gente faz. Vocês pensam que eu não sei? Escova no cabelo todos os dias, lápis nos olhos, perfume de morango. Eu sei, eu sei, a paixão é ridícula. 
Sei que não cumpro o que prometo com olhares de mulher. Pois é, eu sou uma menina. Surpreso? Eu não. 
Você está surpreso mesmo? Achou que era uma mulher te instigando para fugir da lógica? Isso é coisa de criança. Lógica? Que se foda a lógica. Eu não tenho tesão nenhum em separar o certo do errado. Espero não aguentar mais a dor do caminho errado para mudar de vida, é só isso que acontece.
E o caminho certo também não me dá muito tesão não. Menos aquele que a gente fez para fugir, menos aquele que a gente fez para se pegar, se entrar, parar de pensar em sentir e sentir de uma vez.
E a inspiração para escrever Meu Deus! Foi para onde? Foi para o mesmo lugar da minha outra paixão esquecida. O homem para o qual dedico este texto.  Aquele que tirei do pedestal e nunca mais coloquei em lugar nenhum. Foi para depois. Depois que eu resolver o que é verdade, o que é de verdade.  Você pensa que eu não sei que você sabe que eu estou mentindo? Eu sei.  Quer um pouco de verdade? Leia o começo deste texto, não é sobre você que eu escrevo não.  Essa é a verdade, mas você me ensinou que ela não é necessária. Eu sei bem. E sei que você mente também. E sei que a gente se atura porque perder pessoas é muito triste. Por mais que você não venha me encoxar no meio da noite, não me agarre no corredor, não jogue a porra do controle remoto para longe, não fale no meu ouvido o quanto você está precisando me comer naquele momento. Por mais que você não seja esse homem, você respira quietinho ao meu lado enquanto dorme, lindo. E quando você dorme quietinho assim, eu sei que, apesar de eu não abalar sua vida em nada, você precisa de mim. E você já abalou tanto a minha vida. Que pena, agora você morreu. 
Mas eu continuo vendo você respirar, quietinho, ao meu lado.  A verdade é que eu ainda acredito 
em reencarnação. E eu te olhei tantas vezes implorando. Não morre, por favor. Seja ele, seja o homem que perde um segundo de ar quando me vê. Mas você nunca mais me olhou quase chorando, você nunca mais se emocionou, nem a mim. Você nunca mais pegou na minha mão e me fez sentir segura. Nunca mais falou a coisa mais errada do mundo e fez o mundo valer a pena. Eu treinei viver sem você, eu treinei porque você sempre achou um absurdo o tanto que eu precisava de você para estar feliz.  De tanto treinar acostumei. 
E cadê a inspiração? Foi embora junto com a minha pureza, a minha crença, a minha fidelidade. Eu sou comum, igualzinho a você, a vocês. Eu cometo erros mesquinhos e sou capaz de grandes momentos. 
Para cada grande momento, milhares de erros mesquinhos no ar, no lençol, no ralo de um banho cheiroso. 
Para cada fundo do poço, milhares de motivos de perdão boiando, boias de coração para eu me agarrar. 
E eu nunca me agarro em mim, sempre espero alguém chegar.  Eu não queria ter ido tão longe. Nem seguido um que não posso, nem aturando outro que nunca pude.  Eu só queria que ele aparecesse, o homem que vai me olhar de um jeito que vai limpar toda a sujeira, o rabisco, o nó. O homem que vai ser o pai dos meus filhos e não dos meus medos. O homem com o maior colo do mundo, para dar tempo de eu ser mulher, transar para sempre. Para dar tempo de seu ser criança, chorar para sempre. Para dar tempo de eu ser para sempre. Cansei de morrer na vida das pessoas. Por isso matei você. 
Antes que eu morresse de amor. Matei você. 
Eu sei que sou covarde. Surpreso? Eu não. 
Desculpa, eu tinha prometido nunca mais escrever tão subjetivamente. 
Te amo, viu? 
Você renasceu de novo. 
Eu sei que sou louca. 
Louca e covarde.

4 de nov de 2014

Carta ao Zézim - Caio Fernando Abreu





Porto, 22 de dezembro de 1979


Zézim,


cheguei hoje de tardezinha da praia, fiquei lá uns cinco dias, completamente só (ótimo!), e encontrei tUa carta. Esses dias que tô aqui, dez, e já parece um mês, não paro de pensar em você. Tou preocupado, Zézim, e quero te falar disso. Fica quieto e ouve, ou lê, você deve estar cheio de vibrações adeliopradianas e, portanto, todo atento aos pequenos mistérios. É carta longa, vai te preparando, porque eu já me preparei por aqui com uma xícara de chá Mu, almofada sob a bunda e um maço de Galaxy, a decisão pseudo-inteligente.

Seguinte, das poucas linhas da tua carta, 12 frases terminam com ponto de interrogação. São, portanto, perguntas. Respondo a algumas. A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda”.

Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / círculo vicioso.

Certo, eu li demais zen-budismo, eu fiz ioga demais, eu tenho essa coisa de ficar mexendo com a magia, eu li demais Krishnamurti, sabia? E também Allan Watts, e D. T. Suzuki, e isso freqüentem ente parece um pouco ridículo às pessoas. Mas, dessas coisas, acho que tirei pra meu gasto pessoal pelo menos uma certa tranqüilidade.

Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tudo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.

Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, "apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo". Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a "função social", nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação:um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na CultUra, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

Ou então vá fazer análise. Falo sério. Ou natação. Ou dança moderna. Ou macrobiótica radical. Qualquer coisa que te cuide da cabeça ou/ e do corpo e, ao mesmo tempo, te distraia dessa obsessão. Até que ela se resolva, no braço ou por si mesma, não importa. Só não quero te ver assim engasgado, meu amigo querido.

Pausa.

Quanto a mim, te falava desses dias na praia. Pois olha, acordava às seis, sete da manhã, ia pra praia, corria uns quatro quilômetros, fazia exercícios, lá pelas dez voltava, ia cozinhar meu arroz. Comia, descansava um pouco, depois sentava e escrevia. Ficava exausto. Fiquei exausto. Passei os dias falando sozinho, mergulhado num texto, consegui arrancá-lo. Era um farrapo que tinha me nascido em setembro, em Sampa. Aí nasceu, sem que eu planejasse. Estava pronto na minha cabeça. Chama-se Morangos mofados, vai levar uma epígrafe de Lennon & McCartney, tô aqui com a letra deStrawberry fields forever pra traduzir. Zézim, eu acho que tá tão bom. Fiquei completamente cego enquanto escrevia, a personagem (um publicitário, ex-hippie, que cisma que tem câncer na alma, ou uma lesão no cérebro provocada por excessos de drogas, em velhos carnavais, e o sintoma — real — é um persistente gosto de morangos mofados na boca) tomou o freio nos dentes e se recusou a morrer ou a enlouquecer no fim. Tem um fim lindo, positivo, alegre. Eu fiquei besta. O fim se meteu no texto e não admitiu que eu interferisse. Tão estranho. Às vezes penso que, quando escrevo, sou apenas um canal transmissor, digamos assim, entre duas coisas totalmente alheias a mim, não sei se você entende. Um canal transmissor com um certo poder, ou capacidade, seletivo, sei lá. Hoje pela manhã não fui à praia e dei o conto por concluído, já acho que na quarta versão. Mas vou deixá-lo dormir pelo menos um mês, aí releio — porque sempre posso estar enganado, e os meus olhos de agora serem incapazes de verem certas coisas.

Aí tomei notas, muitas notas, pra outras coisas. A cabeça ferve. Que bom, Zézim, que bom, a coisa não morreu, e é só isso que eu quero, vou pedir demissão de todos os empregos pela vida afora quando sentir que isso, a literatura, que é só o que tenho, estiver sendo ameaçada como estava, naNova.

E li. Descobri que ADORO DALTON TREVISAN. Menino, fiquei dando gritos enquanto lia A faca no coração, tem uns contos incríveis, e tão absolutamente lapidados, reduzidos ao essencial cintilante, sobretudo um, chamado "Mulher em chamas". Li quase todo o Ivan Ângelo, também gosto muito, principalmente de O verdadeiro filho da puta, mas aí o conto-título começou a me dar sono e parei. Mas ele tem um texto, ah se tem. E como. Mas o melhor que li nesses dias não foi ficção. Foi um pequeno artigo de Nirlando Beirão na última IstoÉ (do dia 19 de dezembro, please, leia), chamado "O recomeço do sonho". Li várias vezes. Na primeira, chorei de pura emoção - porque ele reabilita todas as vivências que eu tive nesta década. Claro que ele fala de uma geração inteira, mas daí saquei, meu Deus, como sou típico, como sou estereótipo da minha geração. Termina com uma alegria total: reinstaurando o sonho. É lindo demais. É atrevido demais. É novo, sadio. Deu uma luz na minha cabeça, sabe quando a coisa te ilumina? Assim como se ele formulasse o que eu, confusamente, estava apenas tateando. Leia, me diga
o que acha. Eu não me segurei e escrevi uma carta a ele dizendo isso. Não sou amigo dele, só conhecido, mas acho que a gente deve dizer.

Escrevendo, eu falo pra caralho, não é?

Aqui em casa tá bom. É sempre um grande astral, não adianta eu criticar. O astral ótimo deles independe da opinião que eu possa ter a respeito, não é fantástico? A casa tá meio em obras, Nair mandou construir uma espécie de jardim de inverno nos fundos, vai ligar com a sala. Hoje estava pUta porque o Felipe não vai mais fazer vestibular: foi reprovado novamente no 3º colegial. Minha irmã Cláudia ganhou uma Caloi 10 de Natal do noivo (Jorge, lembra?), e eu me apossei dela e hoje mesmo dei voltas incríveis pelo Menino Deus
(?). Márcia tá bonita, mais adultinha, assim com um ar meio da Mila. Zaél cozinhando, hoje faz arroz com passas para o jantar.

Povos outros, nem vi. Soube que A comunidade está em cartaz ainda e tenho granas pra receber. Amanhã acho que vou lá.

Tô tão só, Zézim. Tão eu-eu-comigo, porque o meu eu com a família é meio de raspão. Tá bom assim, não tenho mais medo nenhum de nenhuma emoção ou fantasia minha, sabe como? Os dias de solidão total na praia foram principalmente sadios.

Ocê viu a Nova? Tá lá o seu Chico, tartamudeante, e uma foto muito engraçada de toda a redação — eu com cara de "não me comprometam, não tenho nada a ver com isso". Dê uma olhada. Falar nisso, Juan passou por aqui, eu tava na praia, falou com Nair por telefone, estava descendo de um ônibus e subindo noUtro. Deixou dito que volta dia três de janeiro ou fevereiro, Nair não lembra, pra ficar uns dias. Ficará? E nada acontecerá. Uma vez me disseram que eu jamais amaria dum jeito que "desse certo", caso contrário deixaria de escrever. Pode ser. Pequenas magias. Quando terminei Morangos mofados, escrevi embaixo, sem querer, "criação é coisa sagrada”. É mais ou menos o que diz o Chico no fim daquela matéria. É misterioso, sagrado, maravilhoso

Zézim, me dê notícias, muitas, e rápido. Eu não pensei que ia sentir tanta falta docê. Não sei quanto tempo ainda fico, mas vou ficando. Quero escrever mais, voltar à praia, fazer os documentos todos. Até pensei: mais adiante, quando já estivesse chegando a hora de eu voltar, você não queria vir? A gente faria o mesmo esquema de novo, voltaríamos juntos. A família te ama perdidamente, hoje pintaram até uns salseirinhos rápidos porque todo mundo queria ler a matéria do Chico ao mesmo tempo.

Let me take you down
cause I’m going to strawberry fields
nothing is real, and nothing to get hung about
strawberry fields forever
strawberry fields forever
strawberry fields forever


Isso é o que te desejo na nova década. Zézim, vamos lá. Sem últimas esperanças. Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias. E nenhuma, fora de viver cada vez mais plenamente, mais confortáveis dentro do que a gente, sem culpa, é. Let me take you: I’m going to strawberry fields.

Me conta da Adélia.

E te cuida, por favor, te cuida bem. Qualquer poço mais escuro, disque 0512-33-41-97. Eu posso pelo menos ouvir. Não leve a mal alguma dureza dita. É porque te quero claro. Citando Arantes, pra terminar: "Eu quero te ver com saúde I sempre de bom humor I e de boa vontade".

Um beijo do

Caio


PS — Abraço pro Nello. Pra Ana Matos, e Nino também.

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