25 de out de 2014

Sete dias




Nunca tive medo de nada. Sempre enfrentei tudo sozinha, nunca abaixei a cabeça para ninguém e sempre tive resposta para tudo. Tive que amadurecer cedo e não me importo tanto com isso. Sei o que devo fazer mas nunca faço. Sei com quem devo andar mas evito. Nunca gostei de quem eu deveria gostar, nunca conversei com quem deveria conversar. Nunca fiz o que deveria. Nunca me importei com o que deveria me importar.

No primeiro dia, eu chorei. Chorei porque tinha que chorar para mostrar que realmente eu senti por aquele fato. Chorei e não consegui dormir. Não queria enfrentar o mundo, porque no primeiro dia sempre é tão mais difícil. Não queria me arrumar e nem ser feliz. Não fui para a aula e fiquei deitada até dar a hora da academia. Meu cachorro implorava carinho e eu neguei. Minha mãe implorava para que eu falasse algo com nexo, e eu só conseguia dizer coisas embaralhadas que nem mesmo eu, conseguia entender.

No segundo dia, eu não chorei mas também, não consegui dormir. Meus pensamentos dançavam funk, quadradinho de oito e ragatanga. Não consegui dormir e fui para a cama da minha mãe. Acordei chorando porque havia sonhado com a minha avó, mas pouco me liguei. Fiquei deitada o dia todo e me neguei mais uma vez, dar a volta por cima. Não Mãe, daqui do quarto eu não saio. O mundo ficou extremamente nojento. Todo mundo feliz e eu sendo a única podre. Todo mundo amando, cantando, erguendo os braços para celebrar e eu querendo correr para minha cama.

No terceiro dia, consegui finalmente sorrir mas é a base de calmante. Não chorei e nem mais reclamei, mas criei vingança, quis a vingança imediata. Conversei. Não quis me importar. Escrevi textos noturnos que foram deletados. Desliguei o celular. Cortei contato com o mundo. Não quis mais. Cruzei os braços, fiz greve para o mundo. Ou o mundo fica feio, ou eu fico alegre. Assim, teve que ser, fiquei feliz porque tinha que ficar.

No quarto dia, eu sorri. Sorri porque recebi um elogio inesperado. Sorri porque a vida mostrava novamente que minhas dores não duram muito tempo. Aos poucos, fui me reconstruindo. Fui buscando novos atalhos de rotas, e outras curvas. Procurei outras barbas, outros perfumes masculinos, e olha, por mais que me doeu, a busca inalcançável de recomeçar não é tão difícil assim.

No quinto dia, eu já não mais chorava, já não queria morrer, não queria colocar fogo nas meninas que você tanto gostava. No quinto dia, eu li livros, escrevi poemas, e declarei o quanto tudo isso me fez ser o que eu não estava mais acostumada. Caí na vida, é verdade. Reconheci rostos do passado, encontrei novos rostos. E tudo isso apenas no quinto dia. Apenas caí na vida, e aos poucos, tudo que quero é chegar ao topo. Não dá para ficar rastejando, e nem querendo bancar a virgem sofrida do ano. Não dá para declarar que essa foi a decepção da minha vida. Tenho preguiça de tudo que começa, mas desejo imensamente realmente comece algo. Mas o que exatamente também não sei.

No sexto dia, saí de casa para ver as pessoas e recebi um elogio. Gentilmente, agradeci. Não sou tão grossa como  tudo mundo sempre achou, mas foda-se, me deixe. Fiquei o dia inteiro com preguiça do mundo e com preguiça de todo o sofrimento que estava criando. Fiquei com preguiça das virgens sofredoras que sempre esperaram o príncipe encantado. Fiquei com preguiça do meu luto que nem era tão luto assim, mas que ainda assim, era uma pontinha de ego inflamado. Fiquei com preguiça de mim, e de você. Fiquei com pena de você porque nunca vai saber minhas cores preferidas, e o nome do meu primeiro amorzinho. Fiquei com preguiça, mas a pena de você me tomou conta.

Me entreguei a bebedeira para poder ser feliz devagarzinho. Me entreguei ao silêncio noturno e até mesmo com o luto forjado. No sétimo diz, eu refiz meu mundo. Criei novos passos, e até mesmo arrisquei um novo amor. Criei novos contos, disse tchau para poesia. Desfiz nossos planos e tua história dentro disso tudo. Depois de ter feito drama, chorado igual uma louca, reclamado e questionado o inquestionável, a vida apenas esfregou na minha cara que novamente tudo passa. A história se transformou, e eu cansei de colocar reticências.

Eu já estava inteiramente montada e tão intocável, que lembrei que um dia, tudo passa. As dores passam, a mágoa passa, a vontade de vingar também. Infelizmente ou não tão infeliz assim, tudo passa, e como diria os bregas "Tudo passa, tudo passarááááá..."





"No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu." (Brás Cubas - Machado de Assis)




Eu nunca vou entender - Tati Bernardi



Mais um domingo que você me liga. Igual faz a uns quatro ou cinco anos. Você beija a sua mãe depois do churrasco, dá um oi carinhoso e finalmente pensa sem culpa na sua ex, cheira sua camiseta pra ver se a coisa tá muito feia e descobre que sua vida está prestes a ficar vazia: chegou a hora de me ligar.Você não sabe ao certo o que vê em mim, mas também não sabe ao certo o que não vê. Você sabe que pode ter uma mulher mais gostosa do que eu, mas por alguma razão prefere a gostosa garantida, aquela que ainda ri das suas piadas. Mesmo sendo as mesmas piadas há quatro ou cinco anos.
Aí você me liga, com aquele ar descompromissado e meigo de quem só quer ir no cinema com uma velha amiga. Eu não faço a menor idéia do que vejo em você, mas também não faço idéia do que não vejo. Eu posso ter um cara mais gostoso, como de fato já tive milhares de vezes. Mas por alguma razão prefiro suas piadas velhas e seu jeito homem de ser. Você é um idiota, uma criança, um bobo alegre, um deslumbrado, um chato. Mas você é homem. E talvez seja só por isso que eu ainda te aguente: você pode ter todos os defeitos do mundo, mais ainda é melhor do que o resto do mundo.
Aí a gente, sem saber ao certo o que está fazendo ali, mas sem lugar melhor para estar, acaba pulando o cinema que nunca existiu e indo direto ao assunto. O mesmo assunto de quatro ou cinco anos que, assim como as suas piadas, nunca cansam ou enjoam.
E aí acontece um fenômeno muito estranho comigo. Mesmo quando não é bom, mesmo quando cansado e egoísta você não espera por mim e vira pro lado pra dormir ou pra voltar à sua bolha egocêntrica de tudo o que é seu, eu sempre me apaixono por você. Todas as vezes que te vi, nesses últimos quatro ou cinco anos, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronta pra começar algo, pra tomar um café de verdade, pra passear de mãos dadas no claro, pra poder te apresentar ao sol sem receber mensagens de gente louca ou olhares curiosos, pra escutar uma piada nova. E você sempre ignorou esse fato, seguindo seu caminho que sempre é interrompido pelo vazio da sua camiseta fedendo a churrasco. Eu nunca vou entender. Eu nunca vou saber porque a vida é assim. Eu nunca vou entender porque a gente continua voltando pra casa querendo ser de alguém, ainda que a gente esteja um ao lado do outro. Eu nunca vou entender porque você é exatamente o que eu quero, eu sou exatamente o que você quer, mas as nossas exatidões não funcionam numa conta de mais.
Eu só sei que agora eu vou tomar um banho, vou esfregar a bucha o mais forte possível na minha pele e vou me dizer pela milésima vez que essa foi a última vez que vou ficar sem entender nada. Mas aí, daqui uns dias, igual faz há uns cinco ou seis anos, você vai me ligar. Querendo pegar aquele cineminha, querendo me esconder como sempre, querendo me amar só enquanto você pode vulgarizar esse amor. Me querendo no escuro. E eu vou topar. Não porque seja uma idiota, não me dê valor ou não tenha nada melhor pra fazer. Apenas porque você me lembra o mistério da vida. Simplesmente porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência: não entendemos nada, mas continuamos insistindo.

17 de out de 2014

Procura-se esperança desesperadamente - Tati Bernardi





Pra onde foi a minha inspiração? Cadê? Uma preguiça de acordar. Uma preguiça de tomar banho, escolher uma roupa, escolher entre bolo de chocolate e suco de laranja. Tudo parece ter o mesmo gosto falso de paliativos. De forte somente a preguiça de contar de tantas preguiças. 
Da cartilha do sucesso, que manda estudar, amar o que se faz e se relacionar bem, apenas amei. Nem isso faço mais. Sou uma péssima aluna. 
Tenho a impressão de ter chegado ao topo de uma montanha, mas ela era muito alta e afastada e ninguém me viu. 
Em vez de sucesso sinto segundos desejáveis de suicídio, vontade de pular lá de cima da montanha com o dedo desejando um último foda-se ao mundo. Nem que seja para fazer barulho e sujar o chão dos equilibrados. Nem que seja para fazer falta. 
Cadê o gosto intenso de fugir do mundo com um segredo fatal? Não existem segredos fatais: todo mundo come todo mundo por caça e infelicidade. Somos animais tristes e não seres loucos e apaixonados. Eu me enganei tanto com o ser humano que ando com preguiça de me entregar. 
Ninguém tem coragem pra mudar nada, ou apenas é inteligente para saber que a rotina chega de um jeito ou de outro, não adianta se mover. 
Pra quem faço falta e aonde me encaixo? Aonde sou útil e pra quem sou essencial? Pra onde vou e aonde descanso? Pra quem e por quem vivo? 
Freud mexeu três vezes no túmulo com a vontade de me dizer que devo viver por mim. Dane-se a psicanálise: é muito mais gostoso ter outros encantamentos, além do umbigo. 
Não que esses encantamentos não sejam para agradar meu umbigo. Ok, fiz as pazes com Freud, que deve achar o egoísta um pouco menos doente que o depressivo. 
Ou não, não fiz as pazes com Freud, que acha tudo farinha do mesmo saco e nem está prestando atenção em mim. Ele é só mais um a não enxergar o alto da montanha, mesmo porque ele está embaixo da terra. Incluo Freud no meu "foda-se o mundo". Que papo é esse? 
A esperança desesperada por amor e reconhecimento profissional deixou escapar a cansada esperança que se assustou de desespero. 
Perdi meu deslumbramento, a válvula propulsora da vida que tive até aqui. 
Cansei de me encantar pelo difícil. Que tal um homem e um salário de verdade pra viver uma vida de verdade? Chega da miséria do sonho. 
Chega de idealizar uma vida com um fone no ouvido. Eu quero tocar, eu quero cair das nuvenzinhas acima da minha cabeça. 
Junto com meu deslumbramento, perdi boa parte de quem eu era. Boa parte tão grande que não tenho para onde ir. Sou uma sem-vida. 
Junto com o meu deslumbramento, perdi o rumo: quem não sonha não sabe aonde quer chegar. 
O sonho guia, leva longe. Mas de frustrado ele te faz retroceder alguns anos, te transforma em criança assustada. Sei disso quando durmo em posição fetal querendo ser devolvida ao quente da minha proteção primária. Freud volta a ser meu amigo. 
Minha esperança é que o sonho esteja apenas cansado e depois de uma boa noite retorne colorido, musicado e perfumado. Eu disse a minha esperança? Então eu ainda tenho alguma? Nem tudo está perdido. 
Estou deslumbrada com a vida, que te devolve à infância quando o mundo adulto atropela e fere. Lá na infância você se enche de sonhos e volta preparada para o mundo adulto, que se ocupa a frustrá-los todos novamente. 
Eu disse que estou deslumbrada? Não, eu não disse, eu escrevi. Que papo é esse? 
Entre idas e vindas me resumo feliz. Entre altos e baixos me resumo equilibrada. Sendo assim, tá na cara e não tem pane: ando meio mal mas vou sair dessa.

12 de out de 2014

EU SOU O MELHOR NO QUE FAÇO, MAS O QUE FAÇO NÃO É NADA BONITO - Fabrício Carpinejar




Meu pai me chama de Wolverine. É o nosso apelido secreto.

Não tenho o queixo quadrado e a baixa estatura do desenho da Marvel Comics. Muito menos a suíça e o cabelo alvoroçado do ator Hugh Jackman, que interpreta o herói no cinema. A referência física não contribui para nossas semelhanças.

Ele me compara ao personagem pelo meu alto poder de cicatrização. Eu me desespero e logo ressuscito, eu caio e logo levanto.

Não morro de uma única vez. Não desisto. Não me entrego mesmo que não veja a saída. Quando não há porta, eu espero no escuro até ser a porta.

A ansiedade que me enerva acaba por aumentar minha vontade de ver de novo a luz.

Tenho fúria de viver.

Não há perda que seja total. Alguém pode me machucar terrivelmente, mas não me leva. Posso permanecer sequelado, mas sei cavar a terra por dentro da terra. Penso nos filhos, penso nos amigos, penso na literatura e sigo adiante. Cambalear ainda é caminhar. A chuva lava minha ferida e o vento seca.

A carne da memória se recompõe de algum jeito. Talvez seja um excesso de sofrimento na infância que me preparou para o pior no futuro.

Eu sobrevivi a tanta coisa.

Sobrevivi ao bullying na escola, ao pessoal me chamando de ET e monstro todo dia durante o ensino fundamental.

Sobrevivi à resistência dos médicos que juravam que tinha algum retardo mental.

Sobrevivi à desistência dos professores com meu desempenho.

Sobrevivi à traição de amigos.

Sobrevivi às drogas para ser aceito na roda dos adultos.

Sobrevivi à briga de rua.

Sobrevivi a uma tentativa de suicídio na adolescência.

Sobrevivi a enterros de jovens amigos.

Sobrevivi a três acidentes de carro.

Sobrevivi a três separações.

Sobrevivi ao vício do cigarro.

Sobrevivi a dois assaltos a mão armada.

Sobrevivi a várias demissões.

Sobrevivi ao distanciamento de meus dois irmãos amados.

Sobrevivi, vou sobreviver, mesmo que não acredite na hora.

Só não entendia onde meu pai enxergava as garras retráteis de Logan.

– E as garras das mãos, pai?

– São as palavras, meu filho. Você se defende com a linguagem ou se agarra nela para não morrer.


Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 04/08/2013 Edição N° 17512

O perfume





“Você me salvou. Eu não aguentava mais pensar nos mesmos caras que eram sempre os mesmos caras. Você é novinho em folha e eu sou louca por você. Mas tudo isso eu não te conto pra você não achar que eu sou louca. Apesar de pirar na sua barriga e na sua nuca. E de querer eternizar o seu cabelo e o seu nariz feio. E de achar que o seu cheiro é o cheiro de uma nova vida que eu estava precisando tanto.” (Tati Bernardi)



Você sempre me mandou te esquecer, dar um jeito na minha vida, sumir, me reinventar. Você dizia que era para aprender a ser melhor sem você, sem tua presença, e até mesmo sem a tua ausência. Dizia que eu não te superava, continuava acreditando fielmente que meu mundo ainda girava em torno do seu, acreditando fielmente que eu iria te ligar depois de um terror noturno dizendo o quanto o teu espaço na minha vida me sufoca. Mas olha só, meu querido, nada disso aconteceu.

Não te liguei correndo e finalmente ontem consegui ter meu primeiro encontro direito depois de você.
Ele disse que eu sou linda. Não conseguia me lembrar de quando foi a última vez que você havia me elogiado. Não conseguia me lembrar da última vez que eu havia respirado tão fundo perto de uma barba que não fosse a sua. Não conseguia me lembrar quando foi a última vez que algum cara me tocou nos mesmos pontos que você me tocava: Dedilhando minhas costelas como se elas fossem algum violão. E eu que havia me prendido ao seu mundo, me dei espaço e liberdade para finalmente desmontar esse castelo que um dia eu criei.

Respirei fundo na nuca do menino, e toquei na barba dele como nunca havia te tocado. Ele me olhava como se eu fosse a última menina solteira nessa cidade, e eu o olhava perdida, porque vocês são tão diferentes fisicamente mas possuem o mesmo perfume. Com zilhões de perfumes no mercado, vocês precisam usar o mesmo? É sério isso? Que complô Deus tem comigo? Respirei novamente perto da nuca dele, e lembrei de você. Lembrei de como meu corpo correspondia teu toque, e que hoje, estava sendo correspondido por outro.

Não lembro de você ter me feito algum convite decente, não lembro nem de sequer você me puxando pela cintura da mesma forma que ele faz comigo. Não consigo encontrar tantas semelhanças entre vocês, a não ser o perfume. O mesmo perfume. O mesmo cheiro que me fazia sentir perdida e ao mesmo tempo tão viva. Aquele mesmo perfume que procurei por outros caras. E olhe só, depois de tanto tempo, acho que eu o encontrei. Porém, já não quero mais nada que envolva tuas memórias aqui comigo.

Ed Sheeran, Marron 5, Beatles, e quaisquer semelhanças nas minhas playlist embalaram a nossa noite. Até mesmo uma vaquinha assustadora que estava perto, e eu falava o quanto essas vacas são assustadores.  E eu nem me lembrava de como era sair com alguém que é tão parecido comigo, mas tão idêntico à você.  Escrevo desesperada para não morrer e para conseguir finalmente dizer o quanto busco ser um novo eu todos os dias. Escrevo às 05:54 AM. Para conseguir dizer que a vida passa, e que seu toque, seu perfume, e sua história, acabaram por aí. 



7 de out de 2014

Carta ao vazio





Do nascimento ao sexo. Do sexo ao amor. Do amor até os trechos clichês. Dos textos clichês até a separação. Da separação até mais textos clichês. Dos textos clichês o renascimento de todo o ciclo novamente. Tenho mil coisas pra dizer mas são coisas que podem sair conforme uma dança caótica em uma festa chata. Tenho mil coisas pra dizer mas são coisas que não sei se você me entenderia. São essas coisas que a gente confessa ao padre, e ao céu estrelado. São essas coisas que a gente confessa quando estamos bêbados, e quando estamos aos prantos. São essas coisas que você nunca soube e que estou aqui para te contar. 

Amiga, quero que saiba o seguinte: Ele não gosta de você. Sinto muito te dizer isso mas ele não gosta. Aquela menina que ele beijou na festa pode ser a paixãozinha platônica dele. Aquela menina daquela outra noite foi usada da mesma forma que você. Amiga, se ele quisesse, ele estaria aí, do seu lado, me ouvindo. Sabe, amiga, não me ache cruel por dizer isso, mas saiba que ele não te quer. O celular dele não está sem bateria, e sem internet. Ele não tem prova. Ele tem até mesmo tempo pra assumir qualquer namoro que ele te disse que nunca assumiria por justamente, falta de tempo. Amiga, você é linda, você sabe disso. Aquele moço também sabe. Aquele padeiro, aquele cantor daquela dupla sertaneja também. Aquele amigo desse moço também te acha linda. Então, supere isso. Coloque seu sorriso, e vá ser feliz ao lado de quem sabe o que quer. 

Vamos aos fatos: O amor acontece e morre. Ainda bem que tudo acaba, e você precisa entender bem isso. O amor é essa fonte que infelizmente seca. Paciência também acaba. Não te desgaste tanto ao ponto de não saber o que quer. Isso é o ideal para conseguir a viver, mas você precisa mais do que nunca de cuidados. Se cuide mais, e cuide dos teus amigos, dos teus irmãos, da tua mãe, e do teu pai. 

Ô pai, eu poderia escrever mil coisas, e poderia te agradecer por mais mil coisas, mas só te agradeço por ter me ensinado a ser tão espertinha com todos os homens ao redor. Obrigada, pai! Espero não encontrar nunca um homem igual a você.

Ô mãe, eu poderia escrever mil trechos bonitos, e mil frases aleatórias, mas obrigada por me ensinar a ser a mulher/homem da minha vida. Obrigada mesmo. E espero que você alcance toda felicidade plena e toda a sorte do mundo. 

Você que me ouve, qual é o teu problema? Qual é teu sonho? A vida é assim. Cheia desses inícios. Tu pode até ter chorado naquela noite que ele te mandou embora. Tu ali do canto, pode ter até pensado em voltar para o ex, mas quero que saiba que não compensa. Todo mundo quer voltar para o passado, mas saiba que isso é impossível. Acabou o tempo, acabou a vontade, acabou o tesão, acabou mesmo, com todas as letras e todas as pontuações possíveis. Acabou. Só isso. 

Sabe, no começo dói e eu achei que ia morrer. Achei que todo sofrimento iria me causar uma úlcera maior que já tenho. Achei que a dor iria corroer meus olhos, ouvidos, estômago e principalmente, o meu coração. Achei que o chão iria sumir e eu, secretamente, desejaria também desaparecer naquela noite. Achei que o mundo iria parar e eu iria cair durinha feito pedra. Mas engano meu, eu tô aqui hoje. Querendo contar o que não se conta, querendo declamar e xingar. Querendo ser refeita às pressas. Quero me refazer às pressas, sim. Quero refazer meus sonhos. Quero continuar na onde parei. Não lembro exatamente o local, mas sei que quero continuar. Mas quero continuar sim, mas não sei nem quando, e nem o quê. Só sei que quero ir sem medo e sem neuras. 

Eu só quero ir, e quero que você me permita isso. Quero que abrace minha ideia e se fosse possível, diga alguma palavra que me conforte. Você não sabe o quanto desejei ter uma palavra doce tua. Você não sabe quantas vezes desejei que tudo fosse uma neurose da minha cabeça mas que infelizmente, meu caro amigo, não era. Você não sabe quantas vezes virei aquela esquina jurando nunca mais voltar. Achei ainda que iria morrer quando escrevi o último texto. Sempre acho que vou morrer, e sempre acho que vou ressurgir. Vivo entre o caos e os pontos finais. Vivo de pontos finais, e não gosto de reticências.
Se você está chorando nesse exato momento, boa sorte. 

Boa sorte para os que tentam, para os que querem ressurgir, ou para aqueles que querem morrer.

Boa sorte do início ao fim.

Boa sorte, ou boa sei lá o que.

Porque eu tão cheia de mim, me vi tão cheia de você que acabei ficando esgotada de tudo isso.


4 de out de 2014

Estava curado até você aparecer - Fabrício Carpinejar



Tudo tão bem guardado, eu jurava que tinha esquecido, controlado o nosso passado.

Eu já sorria com os amigos, já me divertia, já trabalhava com afinco, viajava leve, flertava livre.

Eu já contava com uma outra vida.

Já não resmungava seu nome em cada ligação, já não rezava pelo seu retorno, já não esperava que o celular fosse tocar, já passava pelos nossos lugares favoritos como se fossem ruas desconhecidas do GPS.

Até que vi você em minha frente.

Até que abracei você.

Até que seu perfume voltou a se misturar à minha barba.

Até que sua boca se aproximou do meu pescoço, macia e fria, como a gola de uma camisa recém estreando.

E aquela atração que julgava desaparecida e morta ressurgiu como se fosse o nosso primeiro dia, o nosso primeiro dia com a memória do último dia.

Você me reabriu muito rápido. Quanta facilidade, quanta naturalidade. Precisou de pouco, quase nada. Eu me senti inútil, despreparado, decepcionado com a fraca resistência.

Você reabriu a caixa cardíaca que destruí e não acabou, a caixa cardíaca que enterrei e continua mandando em mim.

Você precisou só me olhar como se estivesse com fome, sem dizer nada, para que eu colocasse dois pratos na mesa.

Você só precisou ameaçar abrir o botão, sem dizer nada, para que lhe ajudasse a tirar o casaco.

O que sofri não me protegeu de você. A angústia não me protegeu de você. A raiva não me protegeu de você.

E me desesperei porque poderia sofrer tudo de novo e ainda assim não me protegeria de você.

Todo esforço foi em vão. Todo o domínio foi em vão. Toda a reabilitação foi à toa.

Tanta dor para erguer paredes, que apenas serviram para não ter saída.

Deveria saber que a dor não imagina portas, a dor não cria portas, a dor unicamente levanta paredes.

A dor me facilitou para você, estava preso em minhas palavras enquanto se aproximava.

Vejo hoje que, durante o tempo distanciado, enfrentava sua lembrança, jamais sua pele roçando a minha, jamais sua voz a um passo de meu rosto, jamais suas pernas entrelaçadas.

Não me preveni contra sua presença, e sim contra sua imagem.

Eu treinei me separar com você longe, não perto, não rente, não soluçando beijo. Este seu beijo que fica soluçado quando aumenta o desejo.

Bastou uma centelha para a esperança queimar a casa inteira. Bastou o fósforo apagado para recobrar o fogo.

Antes seguro, tranquilo, confiante, agora tremia, balbuciava, perdia o discurso, agradecia o abismo.

Meses de ressurreição desmoronados em segundos.

Você se escondeu de mim dentro de mim.

Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 4, 30/9/2014
Porto Alegre (RS), Edição N°17938

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