31 de ago de 2014

Playlist da semana


12 - Sem resposta - Luka


11 - Retrato em Branco em Preto - Chico Buarque


10 - The Smiths - Asleep 

9 - This Is What Makes Us Girls  - Lana Del Rey

8 - Muse - Madness

7 - Olho nos olhos - Chico Buarque


6 - Revolution - The Beatles


5 - De onde vem a calma - Los hermanos

4- Counting stars - OneRepublic

3- Sad girl - Lana Del Rey
2 - Arabella - Arctic Monkeys



1 - I wanna be yours - Artic Monkeys


27 de ago de 2014

Música - Tati Bernardi




As pessoas seguram uma risada quase de pena. Mas se ele nem morava aqui, mas se ele não ficou mais do que uma semana com você, mas se já faz tempo que ele se foi, sem nunca ter sido. Então o quê? Nem eu sei. Mas sei da minha enxaqueca que já dura uma semana. Latejando sem parar. O coração que subiu nos meus ouvidos. Gritando que sente falta e pronto.Eu sinto falta de ligar o celular, depois do avião aterrissar, e ter uma mensagem sua dizendo que vai dar tudo certo.E sorrir mesmo estando numa fila gigantesca para o táxi, embaixo daqueles 78 graus do Rio de Janeiro.

Não tem poesia nem palavra difícil e nem construção sofisticada. O amor é simples como sorrir numa droga de fila. E não se sentir mais sozinho e nem esperando e nem desesperado e nem morrendo e nem com tanto medo.

Eu sinto falta de querer fazer amigos em qualquer festa, só pra conhecer gente estranha e te contar depois. Agora, eu fico pelos cantos das festas. Voltei a achar todo mundo feio e bobo e sem nada a dizer. Porque eu acho que estava gostando mais das pessoas só porque te via em tudo. Agora as pessoas voltaram a me irritar. E eu voltei a ter que fazer muita força pra sair de casa.

Quando alguém não entende o meu amor, eu lembro daquele dia que você não queria tocar violão pra mim. Até que dedilhou reclamando que não era o seu violão. Daí tentou uma música conhecida. Tentou uma menos conhecida. Daí tocou uma sua, com a voz baixinha e olhando pro nada. E então me encarou e cantou com a voz alta. E então largou o violão, me encarou e cantou bem alto a sua dor, de pé, na minha frente, e eu achei que meu peito ia explodir. E ri achando que você ia sair correndo e dar um show na padoca da frente. E naquele momento eu pensei que poderíamos ser infinitos se fossemos música. E isso explica tudo, mas ninguém entende. Você entende. Mas cadê você?

Quando vai dando assim, tipo umas onze da noite, o horário que a gente se procurava só pra saber que dá pra terminar o dia sentindo algum conforto. Quando vai chegando esse horário, eu nem sei. É tão estranho ter algo pra fugir de tudo e, de repente, precisar principalmente fugir desse algo.

E daí se vai pra onde?

21 de ago de 2014

Folha de papel






Ela olhou com preguiça de tudo. Era um novo recomeço, um novo capítulo, uma nova falta de interesse. Havia se esgotado emocionalmente durante dois anos, dois profundos anos, e que essa era a hora de tirar um tempo de tudo. Tirar um tempo do mundo, das pessoas, e do próprio passado. Era hora de recolher os cacos, seus pedaços, os pedaços das cartas rasgadas e de dar a volta por cima. Era a hora de começar a pensar mais em si, mais no seu corpo, mais no seu cabelo, mais numa personalidade. Era a hora de moldar uma nova pessoa. Ser dolorida, bonita e poeta já não bastava mais. Era preciso mais alguma coisa. Mas a pergunta sempre é: Mais alguma coisa, o quê?

As pessoas vinham e voltavam. Ela se sentia sendo um próprio aeroporto de sua vida. Estava acostumada a dar tchau, e a dizer oi. Estava acostumada a desfazer laços, planos e percursos. Estava tão acostumada a mudar rotas de sua vida, que antes mesmo do final, ela se reinventava e resolvia partir antes. Estava tão acostumada em ser passageira, e leve, que chegou a muitas vezes acreditar que era feita de papel. Nem ela sabia o que isso significava, mas gostava muito de dizer que era levíssima como uma folha de papel ao vento. Nem ela entendia seus próprios textos, mas ainda assim, preferia acreditar que escrever salvaria a vida dela.

Um homem a encantava mas ainda assim, não a manteve interessada. Outro homem aparecera e era o mesmo dilema de sempre. Era tão fácil conquistar aquela menina mas o difícil mesmo era mante-la interessada e centrada no mesmo assunto. Era tão fácil levar um sorriso bobo dessa garota, era fácil até demais, mas o problema é que logo depois a seriedade tomava conta, e não encontrava mais motivo para sorrir. Essas oscilações de humor era mais um charme perdido dentro de uma folha de papel. Não poderíamos enumerar quantos encontros ela desmarcou. Não por coragem mas sim por preguiça. Preguiça do novo, preguiça de recomeçar, preguiça de se recompor, e de se moldar novamente.

A menina vaga pelas ruas com um sorriso perdido, com um olhar distante, com um nariz levantado. A menina vaga pelas ruas escrevendo poemas e imaginando quantos amores se desencontram. A menina me olhava com vontade de chorar. Sua dor era exposta, e não havia malícia naquilo. Seu rímel descia pelas bochechas, e se eu olhar buscava uma resposta. Eu, que era apenas um espelho, apenas observava tudo que acontecia. Eu, que não podia fazer nada, apenas observava sua chagas emocionais e seu descarrego.

As pessoas corriam e ela só queria parar. Nada aquilo se encaixava, e era muita preguiça. Ela não gostava de ser tão madura. Ela preferia dar meio passo de cada vez para a maturidade, já que tinha medo de cair em seus próprios pés em cima do seu ego que era tão frágil. Seu ego que foi reconstituído a força. Foi preciso se entregar para outros caras, e outros perfumes para que tudo voltasse ao normal. Pobre menina, foi exposta para o tormento e para o sufoco. Foi exposta e ficou tão cansada de tudo. Pobre menina que havia se tornado uma pobre folha de papel amassado.


19 de ago de 2014

Ninguém esquece




Ninguém esquece o primeiro desafeto. Aquela saudade corroída, aquela vontade esmagadora de querer dar a volta por cima.
Ninguém esquece o primeiro texto escrito. A vírgula mal colocada, a crase no lugar errado, o verbo conjugado errado. 
Ninguém esquece a dor do desprezo então, deve ser por isso que eu sou assim: tão cheia de mim e tão vazia dos outros. 
Ninguém esquece aquele silêncio em que ambos desejavam uma resposta só que mesmo assim, ninguém dizia nada.
Ninguém esquece o preço da saudade. Aquela saudade que corrói o peito nas noites. Aquela saudade que engasga e que não te deixa alimentar. Aquela saudade que vira aflição.
Ninguém esquece o ego ferido. Noites são preenchidas com um novo perfume masculino, um novo toque sobre a pele e tudo isso em busca de uma resposta, de uma escolha, de um ego reconstruído
Ninguém esquece aquele último adeus. Aquele beijo com o sentimento incerto. Aquela vontade de sair correndo pra algum lugar mas não sabe exatamente pra onde.
Ninguém esquece aquela vontade de dar a volta por cima. Aquela força involuntária de querer viver e de querer ser mais. Mais bonita, mais completa e menos tão superficial. 

Ninguém esquece a primeira declaração. Aquela coisa mal correspondida, ou então, totalmente correspondida. Aquele medo de não dar certo. Aquele silêncio tímido. Aquela parte que fez de você o que é hoje.
Ninguém esquece o ponto final. Aquele sofrido ponto final tendo a consciência que não voltará mais. Aquele sofrido fim que finalmente existe e está bem na sua frente. Aquele ponto final dolorido mas ainda assim, tão seu e tão composto de histórias e de curvas, e por isso, tudo valeu a pena. Mesmo com um ponto final, a consciência de que tudo aconteceu se torna bem melhor do que ter que viver culpada para sempre.





"Estou no seu âmago.
Ainda estou.
Estou no centro vivo e mole.
Ainda."

(Clarice Lispector - Água Viva)


13 de ago de 2014

Ao Simulacro da Imagerie - Caio Fernando Abreu





Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace. (Frida Kahlo, Diários)

O céu tão azul lá fora, e aquele mal-estar aqui dentro.

Fora: quase novembro, a ventania de primavera levando para longe os últimos maus espíritos do inverno, cheiro de flores em jardins remotos, perfume das primeiras mangas maduras, morangos perdidos entre o monóxido de carbono dos automóveis entupindo as avenidas. Dentro: a fila que não andava, ar-condicionado estragado, senhoras gordas atropelando os outros pelos corredores estreitos sem pedir desculpas, seus carrinhos abarrotados, mortíferos feito tanques, criancinhas cibernéticas berrando pelos bonecos intergalácticos, caixas lentas, mal-educadas, mal-encaradas. E o suor e a náusea e a aflição de todos os supermercados do mundo nas manhãs de sábado.

Ela olhou as próprias compras; bolachas-d’água-e-sal, água com gás, arroz integral e, num surto de extravagância, um pote de geléia de pêssegos argentinos. "Duranos"!, repetiu encantada. Gostava de sonoridades. E não tinha mãos livres para se abanar. E a mulher de pele repuxada amontoara no balcão seus víveres, dois carrinhos transbordantes de colesterol e sugar blues. Ela respirou. E olhou para cima, de onde a espiava uma câmara de TV, como se fosse uma ladra em potencial, e olhou também as prateleiras dos lados do corredor polonês onde estava encurralada e viu montanhas de pacotes plásticos com jujubas verdes, rosa e amarelas, biscoitos com sabor de bacon, cebola, presunto, queijo. E latas, pilhas de latas.

Suspirou outra vez, suspirava muito, e voltou a olhar para fora, para além das cabeças. Continuava o céu azul tão claro e raro naquela cidade odiosa. Mas aqui dentro ela só conseguia tirar um pé da sandália havaiana - era sábado, "danem-se", ela era assim mesmo - para apoiar os dedos de unhas muito curtas, sem pintura, sobre o outro pé. Feito uma garça, ela, pousada no meio do charco açucarado. A saia larga indiana estampada de muitas cores até os tornozelos, a blusa solta de seda branca sem mangas, o dinheiro contado escondido no bolso sobre o seio esquerdo. O pé inchado, balançou-o no ar para ativar a circulação. E se alguém olhasse para ela assim, sem ver o pé inchado escondido pela saia larga, diria ser perneta, pobre moça, toda desgrenhada, essas roupas meio hippie amassadas e ainda por cima perneta. Perneta, equilibrista, não se apoiava em nada nem ninguém, sem muletas ou bengala. "Danem-se", repetiu olhando enfrentativa em volta. Mas "danem-se" não era suficiente para aquela gentalha. Então rosnou: "Fodam-se!" em voz baixa, mas com ódio suficiente, exclamação, maiúscula e tudo. Ficou mais serena depois, embora exausta, desaforada e sem toxinas, a moça-garça.

Foi então que o viu na fila ao lado, já passando pela caixa. Não estava mais gordo, não no rosto pelo menos, nem mais calvo. Mas havia no corpo magro uma estranha barriga que parecia artificial. E rodas de suor nas axilas, manchando o tecido sintético da camisa branca social de manga comprida. Sem jeito, sem vê-la, ele tentava enfiar as compras nas sacolas de plástico, e enviesando a cabeça ela investigou curiosa: vodca, uísque, campári, pilhas de salgadinhos plásticos, maionese, margarina, pacotes de jornal com cruas lingüiças sangrentas, outro carrinho cheio até as bordas de latas de cerveja, queijo, patê - seria uma festa? -, mais latas, muitas latas, seleta de legumes, massas de tomate, atum. As sacolas furavam, latas despencavam pelo chão, ele curvava-se para apanhá-las tentando assinar o cheque, e ninguém o ajudava. Ele era um homem que conhecera havia muito tempo, quando ainda não era esse urbanóide naquele supermercado mas apenas um quase jovem recém-chegado de anos de exílio político no Chile, Argélia, depois a pós-graduação em Paris, em algum assunto que ela não lembrava direito. Só sabia que ele o tempo todo falava num certo simulacro de uma tal imagerie, as pernas cruzadas no sofá forrado de algodãozinho estampado de lilás e malva da sala do apartamento dela, as pernas apertadas com força protegendo as bolas, como se ela estivesse sempre a ponto de violentá-lo no segundo seguinte, falando e falando sem parar em Lacan e Althusser e Derrida e Baudrillard, principalmente Jean Baudrillard, enquanto ela se ocupava em servir mais vinho branco seco gelado com pistache, contemplar as rosas amarelas no centro da mesa e comover-se a admirá-lo, assim jovem, assim estrangeiro no próprio país, assim aterrorizado com qualquer possibilidade do toque de outro humano em sua branca pele triste sem amor vinda do exílio.

"Você sabe viver", dizia ele. Ela sorria modesta, mais sarcástica do que lisonjeada. Mal sabia ele do quanto, entre as traduções do alemão, ela mourejava feito negra passando panos com álcool nas paredes, aspiradores nos tapetes, recolhendo cortinas para a lavanderia, trocando lençóis todo santo dia, lavando louça com as próprias mãos avermelhadas que olhava melancólica quando ele dizia essas coisas, ensaboando no tanque roupa quase sempre branca, quase sempre seda, que não tinha nem teria jamais máquina, picando cenouras, rabanetes e beterrabas para saladas cruas, remexendo em panelas de barro com colher de pau, odiava microondas, para sempre e sempre exausta de tudo aquilo. Seu único consolo era a fita com Astrud Gilberto e Chet Baker sempre cantando búdicos ao fundo.

Limpa, ordenada, trabalhadeira, aquela mulher, todo dia. E morta de cansaço e amor sem esperanças por aquele homem que não a via nem veria jamais como realmente era, nem a tocaria nunca. Admirava-a para não precisar tocá-la. Conferia-lhe uma superioridade que ela não possuía para não ter que beijá-la. Dissimulado, songamonga, recolhia nomes, telefones, endereços de pessoas e lugares provavelmente úteis algum dia para a Árdua Tarefa de Subir na Vida, vampirizava cada um dos amigos dela, sobretudo os que detinham alguma espécie de poder, editores, políticos, jornalistas, donos de galerias de arte, cineastas, fiadores, produtores. Sedutor, insidioso, irresistível - "Vamos jantar uma hora dessas", insinuava ambíguo para todo mundo. Durante três anos. Nunca lhe dera um orgasmo. Nunca deitara nu ao lado dela na cama, nua também. No máximo sussurrava doçuras tipo: "Fica agora assim por favor parada contra essa janela de vidro que a luz do entardecer está batendo nos seus cabelos e eu quero guardar para sempre na memória esta imagem de você assim tão linda".

Não, ela não era tola. Mas como quem não desiste de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos, ela queria acreditar. Até a noite súbita em que não conseguiu mais. E jogou copos de uísque na cara dele, ligou bêbada de madrugada durante dias, deixou recados terríveis na secretária eletrônica ameaçando suicídio, assassinato, processo, chamando-o de ladrão, "Quero porque quero minhas fitas de Astrud e Chet de volta, sua bicha broxa", bem bruta e irracional repetindo o que seu analista, também exausto de tudo aquilo, dissera não especificamente sobre ele, mas sobre todos os homens do mundo: homossexual enrustido que não deu o cu até os trinta e cinco anos vira mau-caráter, minha filha. Ele tinha trinta e sete quando se conheceram. Agora quantos anos? Uns quarenta e três ou quarenta e quatro, era de Libra, daquele tipo que não sabe a hora de nascimento. E aquela barriga nojenta, aquele Ar de Quem Venceu na Vida, aquela camisa sintética, as rodas de suor, as calças Zoomp com pregas, as bolsas de plástico barato do super, três ou quatro em cada mão, saindo torto e quase gordo do supermercado.

Atrás dela, na fila, alguém empurrou-a com o carrinho. A caixa esperava com ar entediado e sotaque paraíba: "É cheque, cartão ou dinheiro, quéééérida?". "Dinheiro", ela disse. E jogou sobre o balcão a nota retorcida, como se fosse uma serpente viva. Depois pegou as poucas comprar e caiu fora. Ausgang!

Lá fora o vento bateu em sua saia longa, fazendo-a voar. "Estou sem calcinha", ela lembrou. E pensou em Cármen Miranda. Mas deixou que voasse e voasse. Respirou fundo. Morangos, mangas maduras, monóxido de carbono, pólen, jasmins nas varandas dos subúrbios. O vento jogou seus cabelos ruivos sobre a cara. Sacudiu a cabeça para afastá-los e saiu andando lenta em busca de uma rua sem carros, de uma rua com árvores, uma rua em silêncio onde pudesse caminhar devagar e sozinha até em casa. Sem pensar em nada, sem nenhuma amargura, nenhuma vaga saudade, rejeição, rancor ou melancolia. Nada por dentro e por fora além daquele quase-novembro, daquele sábado, daquele vento, daquele céu-azul - daquela não-dor, afinal.

Os sapatinhos vermelhos - Caio Fernando Abreu



Dançarás - disse o anjo
Dançarás com teus sapatos vermelhos
Dançarás de porta em porta
Dançarás, dançarás sempre.
Andersen: Os Sapatinhos Vermelhos

Tinha terminado, então. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina - ela repetiu olhando-se bem nos olhos em frente ao espelho. Ou quando começa: certos sustos na boca do estômago. Como carrinho de montanha-russa, naquele momento lá no alto, justo antes de despencar em direção. Em direção a quê? Depois de subidas e descidas, em direção àquele insuportável ponto seco de agora.

Restava acender outro cigarro, e foi o que fez. No momento de dar a primeira tragada, apoiou a face na mão e, sem querer, esticou a pele sob o olho direito. Melhor assim, muito melhor. Sem aquele ar desabado de cansaço indisfarçável de mulher sozinha com quase quarenta anos, mastigou sem pausa e sem piedade. Com os dedos da mão esquerda, esticou também a pele debaixo de outro olho. Não, nem tanto, que assim parece japonesa. Uma japa, uma gueixa,isso é que fui. A putinha submissa a coreografar jantares à luz de velas. - Glenn Miller ou Charles Aznavour?-, vertendo trêfegos os sais - camomila ou alfazema? - na sua água da banheira, preparando uísques - uma ou duas pedras hoje, meu bem?

Nenhuma pedra, decidiu. E virou a garrafa outra vez no copo. Aprendera com ele, nem gostava antes. Tempo perdido, pura perda de tempo. E não me venha dizer mas que teve bons momentos, não teve não? A cabeça dele abandonada em seus joelhos, você deslizando devagar entre os cabelos daquele homem. Pudesse ver seu próprio rosto: nesses momentos você ganhava luz e sorria sem sorrir, olhos fechados, toda plena. Isso não valeu Adelina?

Bebeu outro gole um pouco sofrêga. Precisava apressar-se, antes que a quinta virasse Sexta-Feira Santa e os pecados começassem a pulular na memória feito macacos engaiolados: não beba, não cante, não fale nome feio, não use vermelho, o diabo está solto, leva sua alma para o inferno. Ela já estava lá, no meio das chamas, pobre alminha, nem dez da noite, só filmes sacros na tevê, mantos sagrados, aquelas coisas, Sexta-Feira da Paixão e nem sexo, nem ao menos sexo, isso de meter, morder, gemer, gozar, dormir. Aquela coisas frouxa, aquela coisa gorda, aquela coisa sob os lençóis,aquela coisa no escuro,roçar molhado de pêlos,baba e gemidos depois de - quantos mesmo? - cinco, cinco anos. Cinco anos são alguma coisa quando se tem quase quarenta, e nem apartamento próprio, nem marido, nem filhos, herança: nada. Ponto seco, ponto morto.

Ué, você não escolheu? Ele ficou parado à frente dela, muito digno e tão comportadamente um-senhor-de-família-da-Vila-Mariana dentro do terno suavemente cinza, gravata pouco mais clara, no tom exato das meias, sapato ligeiramente mais escuro. Absolutamente controlado. Nem um fio de cabelo fora do lugar enquanto repetia pausado, didático, convincente - mas Adelina, você sabe tão bem quanto eu, talvez até melhor, a que ponto de desgaste nosso relacionamento chegou. Devia falar desse jeito mesmo com os alunos, impossível que você não perceba como é doloroso para mim mesmo encarar esse rompimento. Afinal, a afeição que nutro por você é um fato.

Teria mesmo chegado ao ponto de dizer nutro? Teria, teria sim, teria ditonutro&relacionamento&rompimento&afeto, teria dito tambémestima&consideração&mais alto apreço e toda essa merda educada que as pessoas costumam dizer para colorir a indiferença quando o coração ficou inteiramente gelado. Uma estalactite - estalactite ou estalagmite? merda, umas caíam de cima, outras subiam de baixo, mas que importa: aquela lança fininha de gelo afiado - cravada com extrema cordialidade no fundo do peito dela. Vampira, envelheceria séculos lentamente até desfazer-se em pó aos pés impassíveis dele. Mas ao contrário, tão desamparada e descalça, quase nua, sem maquilagem nem anjo da guarda, dentro de uma camisola velha de pelúcia, às vésperas da Sexta-Feira Santa, sozinha no apartamento e no planeta Terra.

Esmagou o cigarro, baixou a cabeça como quem vai chorar. Mas não choraria mais uma gota sequer, decidiu brava, e contemplou os próprios pés nus. Uns pés pequenos, quase de criança, unhas sem pintura, afundados no tapetinho amarelo em frente à penteadeira. Foi então que lembrou dos sapatinhos. Na segunda-feira tentando reunir os fragmentos, não saberia dizer se teria mesmo precisado acender outro cigarro ou beber mais um gole de uísque para ajudar a idéia vaga a tomar forma. Talvez sim, pouco antes de começar a escancarar portas e gavetas de todos os armários e cômodas, à procura dos sapatos. Que tinham sido presente dele, meio embriagado e mais ardente depois de um daqueles fins de semana idiotas no Guarujá ou Campos do Jordão, tanto tempo atrás. Viu-se no espelho de má qualidade, meio deformada, uma mulher descabelada jogando caixas e roupas para os lados até encontrar, na terceira gaveta do armário, o embrulho em papel de seda azul-clarinho.

Desembrulhou cuidadosamente. Uma súbita calma. Quase bailarina em gestos precisos, medidos, elegantes. O silêncio completo do apartamento vazio quebrado apenas pelo leve farfalhar do papel de seda desdobrado sem pressa alguma. E eram lindos, mais lindos do que podia lembrar. Mais lindos do que tinha tentado expressar quando protestou, comedida e comovida - mas são tão... tão ousados, meu bem, não tem nada a ver comigo. Que evitava cores, saltos, pinturas, decotes, dourados ou qualquer outro detalhe capaz sequer de sugerir sua secreta identidade de mulher-solteira- e– independente-que-tem-um-amante-casado.

Vermelhos - mais que vermelhos: rubros, escarlates, sanguíneos - com saltos finos altíssimos, uma pulseira estreita na altura do tornozelo. Resplandeciam nas suas mãos. Quase cedeu ao impulso de calçá-los imediatamente, mas sabia instintiva que teria primeiro que cumprir o ritual. De alguma forma, tinha decorado aquele texto há tanto tempo que apenas o supunha esquecido. Como uma estréia adiada, anos. Bastavam as primeiras palavras, os primeiros movimentos, para que todas as marcas e inflexões se recompusessem em requintes de detalhes na memória. O que faria a seguir seria perfeito, como se encenado e aplaudido milhares de vezes.

Perfeitamente: Adelina colocou um disco - nem Charles Aznavour, nem Glenn Miller, mais uma úmida Billie Holiday, I’m glad, you’re bad, tomando o cuidado de acionar o botão para que a agulha voltasse e tornasse a voltar sempre, don’t explain , depois deixou a banheira encher aos poucos de suave água morna, salpicou os sais antes de mergulhar, com Billie gemendo rouca ao fundo, lover man, e lavou todos os orifícios, e também os cabelos, todos os cabelos, enfrentou o chuveiro frio, secou o corpo e cabelos enquanto esmaltava as unhas dos pés, das mãos, no mesmo tom de vermelho dos sapatos, mais tarde desenhou melhor a boca, já dentro do vestido preto justo, drapeado de crepe, preso ao ombro por um pequeno broche de brilhantes, escorregando pelo colo para revelar o início dos seios, acentuou com lápis o sinal na face direita, igualzinho ao de Liz Taylor, todos diziam, sublinhou os olhos de negro, escureceu os cílios, espalhou perfume no rego dos seios, nos pulsos, na jugular, atrás das orelhas, para exalar quando você arfar, minha filha, então as meias de seda negra transparente, costura atrás, tigresa noir, Lauren Bacall, e só depois de guardar na carteira, talão de cheques, documentos, chave do carro, cigarros e o isqueiro de prata que tirou da caixinha de veludo grená, presente de trinta e sete, só mesmo quando estava pronta dos pés à cabeça e desligara o toca-discos, porque eles exigiam silêncio - foi que sentou outra vez na penteadeira para calçar os sapatinhos vermelhos.

Apagou a luz do quarto, olhou-se no espelho de corpo inteiro do corredor. Gostou do que viu. Bebeu o último gole de uísque e, antes de sair, jogou na gota dourada do fundo do copo o filtro branco manchado de batom.

(...)


Caio Fernando Abreu - Os dragões não conhecem o paraíso 



9 de ago de 2014

Para alguém de mentira mesmo que fosse verdade





Você que sempre me disse que lia todos os meus textos e que me imaginava gordinha, baixinha, e de óculos. Errou feio mas ainda assim, tenho miopia e eu aposto que não sabia disso. Tenho miopia e lordose - taí o motivo por eu ter a bunda tão empinada - Tenho uma mania insuportável de tomar leite quente com achocolatado, e amo muito café, e você também não sabia disso. Você também não sabia que dei meu primeiro beijo aos quinze e você foi o cara da minha virgindade. Você também não sabia que não acredito no amor, e que ainda assim, quero ter filhos. Você não sabe nada disso porque nunca me deu chance de te mostrar nada além do que coisas leves.

Você me contou de mulheres e eu apenas escutei. Dei palpite, conselhos, e colo. Dei suspiros e gemidos, e até orgasmos. Não havia o motivo de sentir ciúmes, nem paixão, nem compaixão. Não havia e não há motivos algum para sentir algum sentimento. E agora, além de tudo, não haverá mais motivo algum, e finalmente, não sei se posso suspirar aliviada, ou se posso me sentir aflita. Porque vai ser estranho, e digamos até mesmo incomum, ir pra algum lugar e não ter medo de te encontrar.

E agora você sabe porque eu não te cumprimento: Eu tenho mágoa de você, muita mágoa. Não aquela mágoa desastrosa que quer invadir minha alma e me tomar pelo rancor. Não é aquela mágoa que me dá vontade de te jogar numa fogueira. É aquela mágoa que virou ferpa de madeira, sabe? Aquela mágoa que incomoda dentro do peito, que vira e mexe, muda, deleta, e volta com força. Porque nada me deixava mais triste do que você, mas em contrapartida, nada me deixava mais feliz que você. Era aquela corda bamba que eu fazia questão de enfrentar só para não dizer que não era corajosa. Era aquela corda bamba que eu fiz questão de enfrentar só pra dizer que fui burra o suficiente.

Não precisa dizer mentiras. Eu nunca quis nada com você. Você nunca quis nada comigo. Vivíamos bem assim, e vivemos muito melhor assim. Digo com a toda certeza do mundo que gostei bastante de você até um certo ponto. Gostei deliciosamente de você até que um dia, a minha realidade disse que não dava mais para bancar de sofrer, e de fazer de vítima. Até que um dia, minha realidade me jogou na cara que você não tinha mais espaço na minha vida, e que eu, já tinha perdido esse tal espaço na sua vida também. E nada mais certo do que ir embora, né?

Eu estou bem e espero que você esteja muito bem também. Talvez, eu encontre um cara que faça sexo comigo do jeito que eu sempre dizia que era tão difícil achar alguém igual a você. Talvez, eu encontre alguém, de verdade, do jeito que você não quis ser. Talvez, mais pra frente, eu nem lembre mais de você, mas só quero deixar registrado essa parte da minha vida que você fez parte. E eu te agradeço por ter me ensinado a ser de outros caras, de ter tentado ser cada dia mais bonita. Te agradeço por ter me ensinado a ser superficial, e não tão intensa assim. Te agradeço por ter me buscado naquela esqueninha porque eu tinha medo de ser estuprada. Te agradeço finalmente por me ensinar a seguir em frente.

De tudo isso, eu esperava mais consideração, mais respeito e menos esse teu dilema de dizer "carpe diem". Eu sinto falta daquele menino que nem conhecia a cidade, e não disso que você se tornou dia após dia. Sinto saudade do teu sotaque, e do jeito que você sorria sem graça pra mim. Não, eu não gosto mais de você, e talvez sim, você foi o culpado por tudo isso ter terminado. E eu não me importo mais, não tanto quanto eu deveria, não tanto quanto me importava. Apenas, eu segui em frente como deveria de ser. E você, que havia seguido em frente antes de mim, deveria apenas me apoiar, e aceitar a ideia de que deixei de ser sua.

Eu sinto muito por você ter sentido tão pouco. Sinto muito por você não ter me conhecido inteiramente porque você diz que eu quis participar de uma brincadeira e acabei me fodendo. Sinto muito por você não ter gostado de mim, e dos meus demônios. Claro que eu sinto muito por mim por ter perdido tanto tempo assim. Mas eu sinto muito mais por você que nunca vai gastar sua capacidade para me entender. Sinto muito por você sentir tão pouco, mas na verdade, eu já não sinto mais nada há muito tempo. E ouso dizer que já não sinto mais nada há bastante tempo, e isso é tão triste. Porque você que abalou tantas vezes o meu mundo, agora não faz mais nem cócegas.

Era uma busca incansável de ter você em meu mundo. Eu me apegava na memória mais suja ou distante para que você não morresse dentro de mim. Me apegava nas lembranças mais tortas para te odiar todos os dias. E nada disso fez efeito algum. Você que é tão descartável, esquecível e passageiro, havia se tornado uma parte de mim, e que aos poucos consegui te deletar disso tudo. Mas tudo isso sai hipócrita já que estou escrevendo um texto para apenas dizer o quanto isso me machucou, feriu, e me fez ser alguém melhor. Eu espero gostar de alguém o tanto que eu gostei de você. Espero gostar de alguém como eu gostava de ir na sua casa num sábado a noite ou como eu gostava de virar a esquininha da sua casa. Aquela esquina que eu preferia virar mesmo que fosse para não poder mais seguir em frente. Aquela esquina que hoje eu evito passar por ela. Aquela esquina que mesmo que se eu passar, faço questão de soltar um suspiro dolorido.

A última vez que te vi, reparei o quanto seu andar era tão bonito. O quanto suas costas eram bonitas e o quanto eu sentia falta delas. A última vez que eu te vi, eu bebi porque estava enterrando mais um amor que se foi, mais uma fase que acabou, e mais uma vontade que se perdeu no meio do caminho. O último dia que eu te vi, eu te olhei de longe e estava tudo tão escuro e você estava com alguma garota qualquer. Aquelas garotas que tanto me irritaram e que hoje já não valem mais nada na minha vida. A última vez que te vi, eu tive a certeza que havia enterrado seus pedaços em mim. E que muitas vezes, eu me tornei você para que pudesse te entender. A última vez que eu te vi, olhei os pisca-pisca refletindo no chão, e naquela hora, eu sei que te falei tchau de verdade. A última vez que eu te vi comentei com a minha amiga que era falta de consideração tudo aquilo, mas que ainda assim, eu estava muito triste por tudo ter acontecido, só que agora, eu teria a certeza que finalmente tudo acabou.



"Eu tinha visto na sua solidão, uma excelente amiga para a minha solidão. Eu achei que elas pudessem sofrer juntas, enquanto a gente se divertia..." (Tati Bernardi)

E acabou.

Então, você que me lê, que não me entende, e que tanto me fez feliz, e da mesma forma, me fez tão infeliz, saiba que esse texto é seu. Prometi que não iria nunca escrever sobre você, mas estou aqui, cumprindo meu papel de escritora intensa e dizendo que: Você sabe, meu amor, eu nunca cumpro promessas.
Você sabe também o quanto que eu odeio que me fiquem em cima de mim. Você sabe também o quanto sou 8 ou 80. E eu poderia escrever um texto tão amargo e cheio de cicatrizes, mas você não merece isso. Apesar de tudo, você cativou as partes mais bonitas da minha existência, e conseguiu empurrar os meus podres de lado. Apesar de tudo, e de todos, esse texto é seu.

Cuide bem dele. E se cuide por aí.
Até.


"E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam - e queimar também destrói." 
(Caio Fernando Abreu in Itinerário)


"

7 de ago de 2014

Verdade interior - Caio Fernando Abreu



O vento sopra sobre o lago e agita as águas. Barcos de papel navegam pelas sarjetas. Você está parado na janela, atrás da vidraça. Você olha para fora. Não há nada diferente ou incomum lá fora. São os mesmos edifícios, do outro lado e mais além da rua. As mesmas árvores, poucas. Algumas vidas existindo tão discretamente quanto a sua, por trás de outras vidraças nos edifícios do outro lado e além da rua. Assim olhando, de repente você se percebe tão quieto que tem vontade de fazer alguma coisa. Qualquer coisa dessas cotidianas, anônimas, acender um cigarro, ligar o rádio, quem sabe abrir a vidraça atrás da qual você está parado. Mas não faz nada. Você prefere não fazer nada. Permanece assim: parado, calado, quieto, sozinho. Na janela, olhando para fora.
Então, o céu escurece. Não há pausa nem gradação. Súbito, o céu escurece. Começa a acontecer um vento, e você pensa: “O vento sopra sobre a superfície de um lago”. Embora não exista lago algum, só cimento, paralelepípedos. Chinês você se concentra. Repete mais claramente agora. “O vento sopra sobre o lago e agita a superfície das águas.” Você suspira. Sem dor nem inquietação. O suspiro é um sopro de ar que sai do fundo de pulmões certamente escurecidos pelos muitos cigarros e a poluição urbana, como cavernas negras. Esse ar morno vindo do fundo das cavernas embaça a vidraça atrás da qual você está parado.
Com a ponta do dedo indicador, então, sobre a vidraça embaçada, você risca um traço, aparentemente à toa. Como na infância, nos dias de tempestade. Depois você desenha outro, e outro. Não são muitos traços, assim limpos, verticais, horizontais. Duas formas, lado alado, ideogramas — Chung Fu.Você contempla o que acabou de desenhar no baço. Outra vez chinês, repete: “O vento agita a água porque é capaz de penetrá-la”. E pouco importa que ninguém — de certa forma, nem mesmo você, que está inventando — entenda isso que se passa agora, amanhã ou ontem.
Então começa a chover. Gotas pesadas, esparsas. Depois elas se aglomeram, mais finas. E chove, de repente, atrás da vidraça onde você está. Parado, atento. As águas se avolumam no alto da ladeira, despencam pela rua abaixo, em frente à sua janela. Espessas, amareladas. Levam pela frente papéis amassados, poeira, pontas de cigarro, latas de coca-cola. Todos esses restos que se amontoam pelas ruas da cidade, as águas levam. Ninguém sabe para onde. Bueiros, esgotos. Quem sabe para o mar?
É quando você pensa no mar que tem, ao mesmo tempo, vontade de descer pelo elevador até a sarjeta para soltar um barquinho de papel nessas águas. Meio tolo, você se pergunta assim:
“Para onde vão os barquinhos de papel soltos na enxurrada?” Mais tolo ainda, mas justificável, porque meio criança dessa vez, você lembra do soldadinho de chumbo de Andersen, com sua espingarda em riste dentro de um barquinho de papel. Com sorte, você deseja, o barquinho chegará à outra esquina. Com mais sorte ainda, cairá em algum ralo, depois num esgoto, depois ainda, sempre inteiro, será levado até algum rio. Até o mar, quem sabe? Você imagina um barquinho de papel capaz de atravessar incólume todas as torrentes e perigos para chegar ao mar. Pouco provável. Eram tão frágeis aqueles barquinhos que as crianças antigamente soltavam nas águas sujas das sarjetas.
Frágil — você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal, de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse.Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos, começa a passar.
Outra vez chinês, você se afasta um pouco para ver melhor o ideograma. “Verdade interior” — você repete. E acrescenta:
“Tenho uma boa taça. Quero compartilhá-la com você”. Estende as mãos para a frente, como se fosse tocar o rosto de alguém. Mas você está sozinho, e isso não chega a doer, nem é triste. Então você abre a janela para o ar muito limpo, depois da chuva. Você respira fundo. Quase sorri, o ar tão leve: blue.

O Estado de S. Paulo, junho/1987

6 de ago de 2014

SUGESTÕES PARA ATRAVESSAR AGOSTO - Caio Fernando Abreu




Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro- e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco.É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante:ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir,dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus, 
fica a suspeita de sinistros angúrios , premonições.Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem:qualquer problema , real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos- ou precauções-úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade...Esquecê-lo tão completamente quanto possível(santo ZAP!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu- sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o 
seu dentista. emoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados. 


Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se , e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques - tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire , a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas- coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter de mais no tema. Mudar de assunto, digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

(crônica escrita em AGOSTO de 1995, O ESTADO DE SÃO PAULO)

5 de ago de 2014

Metade



Metade de mim é vontade de ir embora. A outra metade é de querer ficar com você.
Metade de mim é o esquecimento. A outra metade é a memória viva de tudo aquilo que já me falou 
Metade de mim é paz interior. A outra metade é paranoia
Metade de mim é aflição.A outra metade é calmaria
Metade de mim é a vontade de ser de todos. A outra metade prefere ficar sozinha nesse tal mar de ilusões e de promessas fáceis
Metade de mim é o perdão. A outra metade grita por vingança 
Metade de mim é tesão reprimido. A outra metade é de voltar a ser virgem 
Metade de mim é saudade da tua pele. A outra metade é repulsa.
Metade de mim procura sinais. A outra metade apaga os rastros.
Metade de mim grita por respostas. A outra metade evita perguntas.
Metade de mim grita por sinceridade. A outra metade vive mentindo.
Metade de mim te encontrou. A outra metade te perdeu.
Metade de mim te esqueceu. A outra metade vai passar a vida inteira te procurando.
Metade de mim abraça o erro. A outra metade finge de cega, surda e muda.
Metade de mim cala quando você diz. A outra metade prefere que fique mudo.
Metade de mim virou personagem de livro. A outra metade prefere esquecer que escreve.
Metade de mim é fácil. A outra metade é uma farsa.
Metade de mim despede todos os dias de você. A outra metade chora baixinho.
Metade de mim prefere nunca mais te ver. A outra metade te busca em todas as pessoas e coisas.
Metade de mim prefere que não mais aconteça. A outra metade prefere estar morta.
Metade de mim evita. A outra metade força a barra.
Metade de mim é ter coragem de despedir. E a outra metade já deu adeus há tempos.


2 de ago de 2014

O mar mais longe que eu vejo - Caio Fernando Abreu



Tem piedade, Satã,
desta longa miséria
(Baudelaire: Litanias de Satã)

Meu corpo está morrendo. A cada palavra, meu corpo está morrendo. Cada palavra é um fio de cabelo a menos, um imperceptível milímetro de ruga a mais -uma mínima extensão de tempo num acúmulo cada vez mais insuportável. Esta coisa terrível de não saber a minha idade, de não poder calcular o tempo que me resta, esta coisa terrível de não haver espelhos nem lagos, das águas do mar serem agitadas e não me permitirem ver a minha imagem. Perdi todas as minhas imagens: as das fotografias, dos espelhos, dos lagos. Se meus olhos fossem câmeras cinematográficas eu não veria chuvas nem estrelas nem lua, teria que construir chuvas, inventar luas, arquitetar estrelas. Mas meus olhos são feitos de retinas, não de lentes, e neles cabem todas as chuvas estrelas lua que vejo todos os dias todas as noites.

Chove todos os dias aqui, não tenho relógio nem rádio, mas sei que deve ser por volta das três horas, porque é pouco depois que o sol está no meio do céu e eu senti fome. Então começa a subir um vapor da terra, e as nuvens, há as nuvens que se amontoam e depois explodem em chuva, e depois da chuva são as estrelas e a lua. Não há uma manhã, uma tarde, uma noite: há o sol abrasador queimando aterra e a terra queimando meus pés, depois a chuva, depois as estrelas e a lua. No começo eu achava que não havia tempo. Só aos poucos fui percebendo que se formavam lentos sulcos nas minhas mãos, e que esses sulcos, pouco mais que linhas no princípio imperceptíveis, eram rugas. E que meus cabelos caíam. Meus dentes também caíam. E que minhas pernas já não eram suficientemente fortes para me levar até aquela elevação, de onde eu podia ver o mar e o mar que fica mais além do mar que eu via da praia. Antes, eu ia e voltava da elevação no sol abrasador depois eu só conseguia sair daqui no sol abrasador e voltar na chuva e, depois ainda só nas estrelas e na lua. Agora são necessárias muitas chuvas, muitas estrelas, muitas luas e muitos sóis para ir e voltar. E isso é o tempo, muito mais tarde descobri que isso era o tempo. Fico aqui o dia inteiro, não há ninguém, não há nada. Fico aqui na gruta o dia inteiro, sem saber mais quando é sol abrasador, quando é chuva ou lua e estrelas, eu não sei mais.

No começo eu pensei também que houvesse outros, índios talvez, animais, formigas, baratas. Não havia ninguém, nada. Da elevação eu podia ver o todo, e o todo era só a areia e os coqueiros que me alimentam. O todo não tinha ninguém, não tinha nada. Eu chorava, no começo eu chorava e não entendia, apenas não entendia, e não entender dói, e a dor fazia com que eu chorasse, no começo. Eu sentia saudade, no começo, uma saudade apertada de gente, principalmente de gente. Não me lembro mais qual era o meu sexo, agora olho no meio das minhas pernas e não vejo nada além de uma superfície lisa e áspera, mas no começo eu sabia, eu tinha um sexo determinado, e a saudade que eu tinha de gente fazia com que eu rolasse horas na areia do sol abrasador, abraçando meu próprio corpo, inventando um prazer que eu precisava para me sentir vivendo talvez, porque eu não tinha medos nem preocupações nem mágoas nem nada concreto nem expectativas, as minhas células amorteciam, eu sentia que ia acabar virando uma palmeira, os meus pés agora parecem raízes, mas ainda tenho mãos, então eu rolava na areia quente enquanto meus dentes faziam marcas fundas roxas nos meus braços, nas minhas pernas e de repente todas as minhas células explodiam em vida, exatamente isso, em vida, eu tinha dentro de mim todo aquele sol todo aquele mar tudo aquilo que eu conhecera antes, que conheceria depois, se não estivesse aqui. Eu ficava amplo, na areia, abraçado a mim mesmo.

Talvez, sim, talvez eu fosse mulher, porque pensava no príncipe, a minha mão direita era a minha mão e a minha mão esquerda era a mão do príncipe, e a minha mão direita e a minha mão esquerda juntas eram as nossas mãos. Apertava a mão do príncipe sem cavalo branco, sem castelo, sem espada, sem nada. O príncipe tinha uns olhos fundos, escuros, um pouco caídos nos cantos e caminhava devagar, afundando a areia com seus passos. O príncipe tinha essa coisa que eu esqueci como é o jeito e que se chama angústia. Eu chorava olhando para ele porque eu só tinha ele e ele não falava nunca, nada, e só me tocava com a minha mão esquerda, e eu cantava para ele umas cantigas de ninar que eu tinha aprendido antes, muito antes, quando era menina, talvez tenha sido uma menina daquelas de tranças, saia plissê azul-marinho, meias soquete, laço no cabelo, talvez. Sabe, às vezes eu me lembro de coisas assim, de muitas coisas, como essa da menina -como se houvesse uma parte de mim que não envelheceu e que guardou. Guardou tudo, até o príncipe que um dia não veio mais. Não, não foi um dia que ele não veio mais, foram muitos dias, em muitos dias ele não veio mais, a água do mar salgava a minha boca, o sol queimava a minha pele, eu tinha a impressão de ser de couro, um couro ressecado, sujo, mal curtido. E havia essa coisa que também esqueci o jeito e que se chamava ódio. De vez em quando eu pensava eu vou sentir essa coisa que se chama ódio. E sentia. Crescia uma coisa vermelha dentro de mim, os meus dentes rasgavam coisas. Devia ser bom, porque depois eu deitava na areia e ria, ria muito, era um riso que fazia doer a boca, os músculos todos, e fazia as minhas unhas enterrarem na areia, com força.

Tenho um livro comigo, não é um livro, era um livro, mas depois ficou só um pedaço de livro, depois só uma folha, e agora só um farrapo de folha, nesse farrapo de folha eu leio todos os dias uma coisa assim: "Tem piedade, Satã, desta longa miséria". Só isso. Fico repetindo: "tempiedadesatãdestalongamisériatempiedadesatãdestalongamisériatempiedade" tempo, tempo. Aí sinto essa coisa que ainda não esqueci o jeito e que se chama desespero.

Havia outras pessoas, sim. Não aqui, mas lá, bem para lá do mar que eu avistava de cima da elevação e que é o mar mais longe que eu vejo. Mais longe ainda tinha gente, a gente que me trouxe para cá. Só não lembro mais por quê. Verdade, eu tinha qualquer coisa assim como andar de costas, quando todos andam de frente. Qualquer coisa como gritar quando todos calam. Qualquer coisa que ofendia os outros, que não era a mesma deles e fazia com que me olhassem vermelhos, os dentes rasgando as coisas, eu doía neles como se fosse ácido, espinho, caco de vidro. Então eles me trouxeram. Por isso, me trouxeram. Lembro, sim, eu lembro que havia coisas escuras que eles faziam e que eu não fazia, correntes, sim, sim, eu lembro: havia correntes e fardas verdes e douraduras e cruzes, havia cruzes, cercas de arame farpado, chicotes e sangue, havia sangue, um sangue que eles deixavam escorrer sem gritar enquanto eu gritava, eu gritava bem alto, eu mordia defendendo meu sangue.

A gruta é úmida escura fria. Não tenho roupa, não tenho fome, não tenho sede. Só tenho tempo, muito tempo, um tempo inútil, enorme, e este farrapo de folha de livro. Não sei, até hoje não sei se o príncipe era um deles. Eu não podia saber, ele não falava. E, depois, ele não veio mais. Eu dava um cavalo branco para ele, uma espada, dava um castelo e bruxas para ele matar, dava todas essas coisas e mais as que ele pedisse, fazia com a areia, com o sal, com as folhas dos coqueiros, com as cascas dos cocos, até com a minha carne eu construía um cavalo branco para aquele príncipe. Mas ele não queria, acho que ele não queria, e eu não tive tempo de dizer que quando a gente precisa que alguém fique a gente constrói qualquer coisa, até um castelo.

Acho que não passo da lua desta noite, talvez não passe nem da chuva ou do sol abrasador que está lá fora. São muitas palavras, tantas quanto os fios de cabelo que caíram, quanto as rugas que ganhei, muito mais que os dentes que perdi. Esta coisa terrível de não ter ninguém para ouvir o meu grito. Esta coisa terrível de estar nesta ilha desde não sei quando. No começo eu esperava, que viesse alguém, um dia. Um avião, um navio, uma nave espacial. Não veio nada, não veio ninguém. Só este céu limpo, às vezes escuro, às vezes claro, mas sempre limpo, uma limpeza que continua além de qualquer coisa que esteja nele. Talvez tudo já tenha terminado e não exista ninguém mais para lá do mar mais longe que eu vejo. O mar que com este sol abrasador fica vermelho, o mar fica vermelho como aquela coisa que eu esqueci o nome, faz muito tempo. Aquela coisa que se eu lembrasse o jeito poderia ser minha matéria de salvação. Talvez olhando mais o vermelho eu lembre, o mar dilacera coisas com os dentes, enterra as unhas na areia, o mar tem aquela coisa que o príncipe também tinha, o mar de repente parece que. Não, não adianta, o vapor está subindo. Pela entrada da gruta vejo as primeiras nuvens se formando, não adianta, o mar está escurecendo, as nuvens aumentam, aumentam, é muito tarde, tarde demais. Daqui a pouco vai começar a chover .

Caio Fernando Abreu -  O Inventario do Irremediavel

1 de ago de 2014

Os sobreviventes - Caio Fernando Abreu




(Para ler ao som de Angela Ro-Ro)
Para Jane Araújo, a Magra
SRI LANKA, quem sabe? Ela me diz, morena e ferina, e eu respondo por que não? mas inabalável continua: você pode pelo menos mandar cartões-postais de lá, para que as pessoas pensem nossa, como é que ele foi parar em Sri Lanka, que cara louco esse, hein, e morram de saudade, não é isso que te importa? uma certa saudade: em Sri Lanka, brincando de Rimbaud, que nem foi tão longe, para que todos lamentem ai como ele era bonzinho e nós não lhe demos a dose suficiente de atenção para que ficasse aqui entre nós, palmeiras e abacaxis. Sem parar, abana-se com a capa do disco de Ângela enquanto fuma sem parar e bebe sem parar sua vodka nacional sem gelo nem limão. Quanto a mim, a voz rouca, fico por aqui comparecendo a atos públicos, entre uma e outra carreira, pixando muros contra usinas nucleares, em plena ressaca, um dia de monja, um dia de puta, um dia de Joplin, um dia de Tereza de Calcutá, um dia de merda enquanto seguro aquele maldito emprego de oito horas diárias para poder pagar essa poltrona de couro autêntico onde neste exato momento vossa reverendíssima assenta sua preciosa bunda e essa exótica mesinha de centro em junco indiano que apóia vossos fatigados pés descalços ao fim de mais uma semana de batalhas inúteis, fantasias escapistas, maus orgasmos e crediários atrasados. Mas tentamos tudo, eu digo, e ela diz que sim, claaaaaaaro, tentamos tudo, inclusive trepar, porque tantos livros emprestados, tantos filmes vistos juntos, tantos pontos de vista sócio político artístico filosófico existenciais e bababá em comum só podiam dar mesmo nisso: cama. Realmente tentamos, mas foi uma bosta. Que foi que aconteceu, eu pensava depois acendendo um cigarro no outro, e não queria lembrar mas não me saía da cabeça o teu pau murchos e os bicos do meus seios que nem sequer ficaram duros, pela primeira vez na vida, você disse, e eu acreditei, pela primeira vez na vida, eu disse, mas não sei se você acreditou. Quero dizer que sim, que acreditei, mas ela não pára, tanta tesão mental espiritual moral existencial e nenhuma física, e eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, ai como éramos diferentes, éramos melhores, éramos mais, éramos superiores, éramos escolhidos, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou, cultura demais mata o corpo da gente, cara, filmes demais, livros demais, palavras demais, só consegui te possuir me masturbando, tinha a biblioteca de Alexandria separando nossos corpos, enfiava fundo o dedo na buceta noite após noite pedindo mete fundo, coração, explode junto comigo, depois virava de bruços e chorava no travesseiro porque naquele tempo ainda tinha culpa nojo vergonha, mas agora tudo bem, o Relatório Hite liberou a punheta. Não que fosse amor de menos, você dizia depois, ao contrário, era amor demais, você acreditava mesmo nisso? Naquele bar infecto onde costumávamos afogar nossas impotências em baldes de lirismo juvenil, imbecil, e eu disse não, o que acontece é que como bons-intelectuais-pequeno-burgueses o teu negócio é homem e o meu é mulher, podíamos até formar um casal incrível, tipo aquela amante de Virginia Woolf, como era mesmo? Vita, Vita Sackville-West e o veado do marido, não se erice, queridinho, não tenho nada contra veados, me passa a vodka, o quê? e eu lá tenho grana pra comprar wyborowas? não tenho nada contra lésbicas, não tenho nada contra decadentes em geral, não tenho nada contra qualquer coisa que soe a: uma tentativa. Peço cigarro e ela me atira o maço na cara, com que joga um tijolo, ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, ,veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara. Podia ter dado certo entre a gente, ou não, afinal você naquele tempo ainda não tinha se decidido a dar a bunda, nem eu a lamber buceta, ai que gracinha nossos livrinhos de Marx, depois Marcuse, depois Reich, depois Castañeda, depois Laing embaixo do braço, aqueles sonhos colonizados nas cabecinhas idiotas, bolsas na Sorbonne, chás com Simone e Jean-Paul nos 50, em Paris; 60 em Londres ouvindo here comes the sun here comes the sun, little darling; 70 em Nova Iorque dançando disco-music no Studio 54; 80 a gente aqui, mastigando essa coisa porca sem conseguir engolir nem cuspir fora em esquecer esse gosto azedo na boca. Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia, sobrou só esse nó no peito, agora o que faço? Não é plágio do Pessoa, mas em cada canto do meu quarto tenho uma imagem de Buda, uma de mãe Oxum, outra de Jesuzinho, um pôster de Freud, às vezes acendo vela, faço reza, queimo incenso, tomo banho de arruda, jogo sal grosso nos cantos, não te peço solução nenhuma, você vai curtir os seus nativos de Sri Lanka depois me manda um cartão-postal contando qualquer coisa como ontem à noite, à beira do rio, deve haver um rio por lá, um rio lodoso, cheio de juncos sombrios, mas ontem na beira do rio, sem planejar nada, de repente, por acaso, encontrei um rapaz de tez azeitonada e olhos oblíquos que. Hein? claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, ,a questão é onde, ,não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo? Mato, não mato, atordôo minha sede com sapatinhos do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, ouvindo samba-canção e blues com caipira de vodka, neste apartamento que pago com o suor do potencial criativo da bunda que dou oito horas diárias pra aquela multinacional fodida. Mas eu quero dizer, e ela me corta mansa, claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca, me passa o cigarro, não estou desesperada, ,não mais do que sempre estive, não estou bêbada nem louca, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, não se preocupe, depois que você sair tomo banho frio, lente quente com mel de eucalipto e gin-seng, depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma? Passa devagar a tua mão na minha cabeça, no meu coração, eu tive tanto amor um dia, pára e pede, preciso tanto, tanto, tanto, bicho, não me permitiram, então estendo os dedos e ela fica subitamente pequenina apertada contra meu peito, perguntando se está mesmo muito feia e meio puta e muito velha e completamente bêbada, eu não tinha essas marcas em volta dos olhos, eu não tinha esses vincos em torno da boca, eu não tinha esse jeito de sapatão cansado, e eu repito que não, que está linda assim, desgrenhada e viva, ela pede que eu coloque uma música e escolho o Noturno número dois em mi bemol de Chopin, quero deixá-la assim, dormindo no escuro, sobre este sofá, ao lado das papoulas quase murchas, embalada pelo piano remoto como uma canção de ninar, mas ela se contrai violenta e peded que eu ponha Angela outra vez, então viro o disco, amor meu grande amor, caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça sobre a privada para que vomite, e sem querer vomito junto, ao mesmo tempo, os dois abraçados, bocas amargas, fragmentos azedos sobre as línguas, ela puxa a descarga e vai me empurrando para a porta, pedindo que me vá, e me expulsa para o corredor dizendo não esqueça então de mandar um cartão de Sri Lanka, aquele rio lodoso, aquela tez azeitonada, que aconteça alguma coisa bem bonita para você, te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em todos de novo, que leve para longe da minha boca esse gosto podre de fracasso, de derrota sem nobreza, não tem jeito, companheiro, nos perdemos no meio da estrada e nunca tivemos mapa algum, ninguém dá mais carona e a noite já vem chegando. A chave gira na porta. Preciso me apoiar contra a parede para não cair. Atrás da madeira, misturada ao piano e à voz rouca de Angela, nem que eu rastejasse até o Leblon, consigo ouvi-la repetindo que tudo vai bem, tudo continua bem, tudo muito bem, tudo bem. Axé, axé, axé! eu digo e insisto, até o elevador chegar. Axé, odara!




Caio Fernando Abreu - Morangos Mofados

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