8 de ago de 2011

Anjo



Volto ao passado e encontro uma garotinha. Uma garotinha de sotaque bem caipira, com cabelos lisos castanhos e olhos cor de mel. Uma garotinha que não tinha a companhia de seu pai, porque sua mãe se separou, e acabaram não mantendo mais o contato. Uma garotinha que havia apenas um amigo de verdade, e que até hoje, ele continua com ela, e é um cachorro peludinho, pretinho, um amor. Mas essa mesma garotinha, com sotaque puxado, e sorriso de aparelho tinha alguns sonhos. Quais os seus sonhos, garotinha? Ora, serei secretária do meu padrinho! Ele prometeu que iria me buscar quando eu entrasse no ensino médio, e eu serei sua secretária, moça.
Volto ao passado e encontro com esse moço. Alto, com um sorriso lindo, os dentes perfeitos,  um semblante de paz que acalmava quem estava por perto.  Ele era tão amigo, tão querido, tão protetor. E a vida é tão injusta que me recuso acreditar que aquela pobre menininha ficou sem aquele moço, aquele Anjo.  Descubro o passado deles dia após dia. Promessas, sorrisos. A mãe dessa menina tão amiga desse moço, aliás, são sobrinho e tia. Com pouca diferença de idade, e bastante em comum. Um tomando as dores do outro. Um rindo das idiotices do outro. Uma amizade tão igual. E chegara uns amigos do Anjo. Outros dois anjos. Um tinha nome que a menina não conseguia dizer, e acabava sendo algo como “Ervilho, Ermilho...” Já o outro amigo, era um verdadeiro palhaço e eu me lembro das nossas gargalhadas. Não havia como estar triste perto dele. Volto ao passado e encontro um poodle. Levado mas carinhoso.
Ora menininha, você não tem pai? Tenho sim! Claro que tenho pai! Ele só não mora comigo. Ele só não mora perto de mim. E a menina chorava. Anjo, por que eu não tenho pai? Tem sim, menininha. Sou seu pai de mentirinha. E aí a brincadeira começou. Pai, Pai, Pai! Eu tenho um pai agora, e esse meu pai é um dentista lindo de São Paulo. Eu tenho pai. MUNDO, EU TENHO UM PAI AGORA PRA PODER DAR PRESENTE DO DIAS DOS PAIS!  Eu tenho pai agora pra poder me levar no parque Duque de Caxias, em Santo André!
Olha menininha, dizia a sua mãe, o coração do seu Anjo está doente. Sério, mamãe? Sim, meu amor. Meu anjo vai sair dessa né mamãe? Sim, pequena, seu Anjo vai sair dessa. E a pobre menininha, não acostumada com a movimentação daquela cidade, ficava vendo ambulância indo e vindo na direção do consultório do seu Anjo. Tomara que seja com o meu Anjo. E todas as noites, das férias de julho e dezembro era aquela alegria, por saber que mais um dia seu Anjo estava lá com ela.
Idas e vindas ao médico, telefonemas, visitas, sorrisos, abraços e pai. Domingo, 08 de agosto de 2004. A menina iria completar onze anos. Já não usava mais aparelho. E seu cabelo já não estava mais liso. A menininha ouviu sua tia gritando, falando que seu Anjo havia se tornado realmente um Anjo. Tadinha da menina, seu pai de brincadeirinha havia partido no dia dos pais! Pobre criança, não pode entregar seu presente e nem pode dizer o quão amava aquele Anjo, não chegou nem ao menos dizer um feliz dia dos pais.  Por quê? Por que meu Anjo? Por que não poderia ser o Anjo de outra menina? O que vou fazer com o presente dele? Mãe? Por que ele, Mãe? O mundo era lindo, cheio das cores. E depois daquela tarde, daquele domingo de agosto, nada mais fazia sentido para ninguém. Nem para os amigos do anjo, nem para a mamãe do anjo, nem para o mundo. Nada mais fazia sentido. Por quê? Ele era tão bom! Ele era um Anjo. Nunca tinha feito mal a ninguém.
Sete anos se passaram. Ainda mais nada faz sentido para ninguém. O Anjo era jovem demais, com tantos sonhos para se acabarem assim do nada. Eu era tão nova, e eu mal sabia o que era perder alguém. Mal sabia que aquela dor, me tornaria o que sou hoje. Hoje não penso mais ser a sua secretária, hoje penso em ser igual a ele. Com a mesma profissão, e tentando seguir o seu exemplo e querendo ser melhor, para que o meu Anjo se orgulhe.  Não tenho mais onze anos, quase estou completando dezoito, e ainda sinto falta do meu Anjo. Aquele em que, dediquei uma tatuagem – Como se ele, desde sempre fosse uma estrela, e que hoje, só há as marcas dele em mim  -  Por isso, uma estrela vazada no meu pulso direito.
Olho as estrelas e fico imaginando qual é a sua. Olho para as estrelas e volto ao passado, e vejo aquela menininha aflita que sempre teve medo de sua morte. Você não estava aqui quando fiz minha primeira comunhão ou até mesmo quando completei quinze anos. Mas eu sei que onde você está, continua querendo que eu me torne cada vez melhor.
Espero que você possa entrar por aquela porta um dia, mesmo sabendo que isso é impossível. Algo me faz crer que ainda continua vivo. Algo me faz crer que o meu Anjo ainda está presente. Mas é mentira que criei. Ele já não está mais aqui conosco.  Meu Anjo foi forte. Não se deixava abalar, e lutava por aquilo que queria. Meu Anjo me ensinou muito mais do que ser Corinthiana ou gostar da Gaviões da Fiel. Meu Anjo me ensinou que devo lutar por aquilo que tanto quero.
Sonho com o meu Anjo ainda. Ora chora, ora me abraça. Mas eu prefiro acreditar que fui ao encontro dele. Foi tão difícil perder novamente um pai. Foi tão difícil, eu não era criança, mas também não era adulta. Mas sabe, chorei muito, ainda choro, porque muita coisa poderia ter sido evitada. A morte do meu Anjo foi inevitável.
Meu Anjo se tornou um Anjo. E hoje, é o aniversário que ele se sentou lá céu e está olhando por aquela menininha, que hoje é quase adulta. Ele orienta seus amigos também, hoje, não falo mais o nome deles errado. E ele orienta sua mamãe, que também sente tanta falta. Ele simplesmente, se foi para fazer aquilo que sempre fez de melhor. Ele foi e está protegendo cada um dia nós. Em silêncio, peço para que o vento me traga a sua presença, ou que pelo menos mande um abraço meu para você. Mas vai muito além.
Vejo as cartas que ele mandava para minha mãe e que na época, eu era apenas um bebê. Vejo nossas últimas fotos. E só consigo sentir saudade.
Eu sei, Anjo. Sinto sua presença. E sempre peço para que me oriente. Isso me faz sentir você por perto. Eu sinto sua falta. E sei que continuará me guiando até o dia em que eu for ao seu encontro. Não sei se breve, mas tudo bem, eu espero o tempo que for para poder te abraçar e dizer bem baixinho aquilo que não te disse. Vou te dizer bem baixinho, Anjo: Que bom te ver e feliz dia dos pais!


Ps: Eu sei que hoje não é dia dos pais. Eu sei que esse texto é impróprio para postar. Mas esse Anjo merece minha homenagem.
Ps: Me perdoem! Estou com saudade do meu animalzinho, e esse texto saiu um bocado profundo e desorientado. Espero que me entendam.

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