25 de jun de 2011

O espelho




Depois de muito tempo fui me analisando, olhei fixamente para o espelho e eu já não sei quem mais sou. Tenho dez quilos a menos quando comecei a escrever, olheiras profundas, lágrimas querendo descer, e maquiagem borrada. Continuei me olhando no espelho fixamente e tentei adivinhar os fatores que aconteceram para que ele pudesse me ver longe. Não sou horrorosa, sou até bonitinha – quando estou em perfeito estado, sem olheiras ou maquiagem borrada – Continuei me examinando e vi o corte no pescoço, não fundo, apenas um cortezinho como se um gato me arranhasse ou como qualquer coisa assim. Continuei por um bom tempo pensando no que eu havia me transformado, ou até mesmo, no que eu era verdadeiramente e que só agora revelou-se.  Dez quilos a menos, um sorriso torto mas que possa mostrar a segurança de dizer que está tudo bem – mesmo sabendo que não há nada bem aqui – Sou automática, quando me perguntam se estou bem logo respondo e sorrio, para que a pessoa possa acreditar nisso. Sou uma ótima atriz, tenho cada vez mais certeza disso.
Sobraram os restos. Restos de sonhos e amores, de risadas e de abraços compulsivos. Sobrou um corte na garganta, sobrou a pena das pessoas e o olhar surpreendente de todos. Mostrei ao mundo uma menina que ninguém havia conhecido. Mostrei ao mundo uma menina que eu nem sabia que existia dentro de mim. Uma menina liberal, fácil, simpática e sorridente. Uma menina que tem cabelos loiros tingidos, sorriso fraco, e um jeito fácil de lidar. Não há complicação, não há negação, é apenas sim. Eu apenas digo sim. Virei algo totalmente fora do meu padrão. Me tornei algo que só Deus sabe, e eu não faço questão de descobrir, porque é melhor assim. Continuei parada e fui olhando cada espaço que há do meu corpo, meus braços magros, com alguns músculos salientes – faço academia ainda – E minha cor quase transparente, há séculos que eu não sei o que é ficar bronzeada, e não faço questão alguma disso. Tentei pensar que tudo estava bem e que já havia superado essa coisa interminável que há dentro de mim. Não consigo controlar. Quando dou por mim, estou sozinha, em desespero, pedindo para que tudo acabe rapidamente.
Lembrei de quando eu tinha dez, doze anos, e eu queria me tornar uma adulta. Tenho quase dezoito anos, uma quase-adulta e mal sei o que eu quero da vida. Pensei que quando ficasse mais velha tudo seria melhor, mas ao contrário disso tudo, não melhorou. Lembro de quando tinha oito anos e falava que iria para São Paulo morar com o cara que eu tenho uma enorme paixão e que hoje já não está mais aqui, e que pena, ele faleceu nos dias dos pais. O meu pai idealizado resolveu me deixar no dia que eu escolhi para ele. Triste não é? Pois é. Lembrei de quando meus sonhos eram fáceis, e quando eu era apenas uma menina, que ainda assim, milhares de vezes queria desistir de tudo. Meus sonhos não são levados a sério, eu não me levo a sério e assim, ninguém também me leva. E eu nunca fui o exemplo de nada. Na verdade, nunca quis ser o exemplo de nada e ninguém. Sempre achei um porre ser exemplo de alguma coisa. Me idealizaram como a menina boazinha e descobriram que isso não tinha nada a vê comigo. Sempre soube que não nasci para ser boazinha mas preferi que os outros pudessem descobrir isso. Sempre achei um porre essas meninas que são sempre legais, são sempre animadas, são sempre sorridentes. Eu não sou assim, nunca fiz questão de ser. Nem sempre eu estou sorrido. Mas é engraçado que de primeira impressão o mundo adora me julgar : Chatinha, mimadinha, enjoadinha. Mas vocês que me julgam, só tenho algo para dizer : Vocês não sabem o tamanho da dor que carrego dentro de mim, eu não sou chatinha, não sou mimada, e nem enjoada. Não tenho nojo de inseto, tenho pose de forte, eu sou durona.
E fui saindo de frente ao espelho, fui me sentando ao chão. Com uma vontade enorme de chorar, com uma vontade enorme de mandar o mundo para a puta que pariu. Mas aí respirei fundo, olhei para o espelho novamente e pensei que estava passando e que eu agüentaria até o fim. Acho que essa minha mania de tentar melhoras as coisas comigo mesma funciona. E mais uma vez olhei para o espelho e disse : Calma Layla, você vai superar essa dor, como já superou todas as outras, e continuará superando os futuros tropeços que vão acontecer. 

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