25 de out de 2014

Sete dias




Nunca tive medo de nada. Sempre enfrentei tudo sozinha, nunca abaixei a cabeça para ninguém e sempre tive resposta para tudo. Tive que amadurecer cedo e não me importo tanto com isso. Sei o que devo fazer mas nunca faço. Sei com quem devo andar mas evito. Nunca gostei de quem eu deveria gostar, nunca conversei com quem deveria conversar. Nunca fiz o que deveria. Nunca me importei com o que deveria me importar.

No primeiro dia, eu chorei. Chorei porque tinha que chorar para mostrar que realmente eu senti por aquele fato. Chorei e não consegui dormir. Não queria enfrentar o mundo, porque no primeiro dia sempre é tão mais difícil. Não queria me arrumar e nem ser feliz. Não fui para a aula e fiquei deitada até dar a hora da academia. Meu cachorro implorava carinho e eu neguei. Minha mãe implorava para que eu falasse algo com nexo, e eu só conseguia dizer coisas embaralhadas que nem mesmo eu, conseguia entender.

No segundo dia, eu não chorei mas também, não consegui dormir. Meus pensamentos dançavam funk, quadradinho de oito e ragatanga. Não consegui dormir e fui para a cama da minha mãe. Acordei chorando porque havia sonhado com a minha avó, mas pouco me liguei. Fiquei deitada o dia todo e me neguei mais uma vez, dar a volta por cima. Não Mãe, daqui do quarto eu não saio. O mundo ficou extremamente nojento. Todo mundo feliz e eu sendo a única podre. Todo mundo amando, cantando, erguendo os braços para celebrar e eu querendo correr para minha cama.

No terceiro dia, consegui finalmente sorrir mas é a base de calmante. Não chorei e nem mais reclamei, mas criei vingança, quis a vingança imediata. Conversei. Não quis me importar. Escrevi textos noturnos que foram deletados. Desliguei o celular. Cortei contato com o mundo. Não quis mais. Cruzei os braços, fiz greve para o mundo. Ou o mundo fica feio, ou eu fico alegre. Assim, teve que ser, fiquei feliz porque tinha que ficar.

No quarto dia, eu sorri. Sorri porque recebi um elogio inesperado. Sorri porque a vida mostrava novamente que minhas dores não duram muito tempo. Aos poucos, fui me reconstruindo. Fui buscando novos atalhos de rotas, e outras curvas. Procurei outras barbas, outros perfumes masculinos, e olha, por mais que me doeu, a busca inalcançável de recomeçar não é tão difícil assim.

No quinto dia, eu já não mais chorava, já não queria morrer, não queria colocar fogo nas meninas que você tanto gostava. No quinto dia, eu li livros, escrevi poemas, e declarei o quanto tudo isso me fez ser o que eu não estava mais acostumada. Caí na vida, é verdade. Reconheci rostos do passado, encontrei novos rostos. E tudo isso apenas no quinto dia. Apenas caí na vida, e aos poucos, tudo que quero é chegar ao topo. Não dá para ficar rastejando, e nem querendo bancar a virgem sofrida do ano. Não dá para declarar que essa foi a decepção da minha vida. Tenho preguiça de tudo que começa, mas desejo imensamente realmente comece algo. Mas o que exatamente também não sei.

No sexto dia, saí de casa para ver as pessoas e recebi um elogio. Gentilmente, agradeci. Não sou tão grossa como  tudo mundo sempre achou, mas foda-se, me deixe. Fiquei o dia inteiro com preguiça do mundo e com preguiça de todo o sofrimento que estava criando. Fiquei com preguiça das virgens sofredoras que sempre esperaram o príncipe encantado. Fiquei com preguiça do meu luto que nem era tão luto assim, mas que ainda assim, era uma pontinha de ego inflamado. Fiquei com preguiça de mim, e de você. Fiquei com pena de você porque nunca vai saber minhas cores preferidas, e o nome do meu primeiro amorzinho. Fiquei com preguiça, mas a pena de você me tomou conta.

Me entreguei a bebedeira para poder ser feliz devagarzinho. Me entreguei ao silêncio noturno e até mesmo com o luto forjado. No sétimo diz, eu refiz meu mundo. Criei novos passos, e até mesmo arrisquei um novo amor. Criei novos contos, disse tchau para poesia. Desfiz nossos planos e tua história dentro disso tudo. Depois de ter feito drama, chorado igual uma louca, reclamado e questionado o inquestionável, a vida apenas esfregou na minha cara que novamente tudo passa. A história se transformou, e eu cansei de colocar reticências.

Eu já estava inteiramente montada e tão intocável, que lembrei que um dia, tudo passa. As dores passam, a mágoa passa, a vontade de vingar também. Infelizmente ou não tão infeliz assim, tudo passa, e como diria os bregas "Tudo passa, tudo passarááááá..."





"No primeiro dia pensei em me matar. No segundo, em virar padre. No terceiro, em beber até cair. No quarto, pensei em escrever uma carta para Marcela. No quinto, comecei a pensar na Europa e no sexto comecei a sonhar com as noites em Lisboa. Em seis dias Deus fez o mundo e eu refiz o meu." (Brás Cubas - Machado de Assis)




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