16 de set de 2011

A brincadeira


Eu não quero mais brincar. Não quero mais colocar vestidinhos floridos, sandália de salto e bolsa de lado, não quero ser mais menininha. Recolherei os meus brinquedos jogados pela sala, eu não quero mais fazer parte dos sonhos dele, eu não quero simplesmente prolongar a história que não há mais nada para prolongar, nem mesmo as lembranças. Esse é o fim de uma brincadeira que não tem mais graça. Essa brincadeira já não faz mais ninguém sorrir como antes, muito menos suspirar como antigamente. Essa brincadeira só causa a dor para aqueles que são sozinhos – ora por escolha, ora por destino – mas a mesma brincadeira que um dia me fez sorrir, hoje já não tem mais graça.
Recolha as bonecas, meninas. Recolha o Ken, o Beto, qualquer bonequinho que possa representar o marido da Barbie. Deixe de acreditar nas bruxas de verruga na ponta do nariz e nos príncipes de sorrisos fáceis e de olhos azuis. Está na hora de crescer e coloque os brinquedos em qualquer prateleira, já não tem graça brincar sozinha. Está na hora de crescer e colocar em prática tudo aquilo que você leu quando era menor. Correr atrás dos sonhos, se lembra? Recolha todos os sonhos quebradiços de criança, esqueça aquele menino que na infância te desprezou, esqueça aquela amiga que hoje já não se importa com você. Cresça e mostre ao mundo essa menina linda que se tornou. Recolha seus sonhos partidos e promessas fáceis.
Você se lembra como era horrível brincar sozinha? Você se lembra de quantas vezes implorou para que alguém brincasse com você? Igualmente é no amor. Você não pode implorar para que alguém te ame, e é doloroso demais amar sozinho. Amar sozinho só causa uma perdição enorme no destino. Você se sente sozinho porque cortou todos seus relacionamentos – Por medo ou destino? Tanto faz, não é verdade? – É mais cômodo ser sozinha. É mais cômodo criar esperanças, sozinha. É muito mais cômodo sofrer sozinha do que sofrer a dois.  Porque eu não quero mais brincar. Não quero mais me fazer de bonequinha para ser colocada em alguma estante perdida. Eu não quero mais brincar.
Porque eu pensava que seria diferente mas de alguma forma tudo aconteceu de maneira em que ninguém imaginasse que um dia aconteceria. O menino não vai voltar, a brincadeira de sentir mágoa ou loucura vai se acabando aos poucos e só sobraram os pequenos rastros que também vão se apagando sem querer. As lembranças vão se deletando da minha memória, como se ele não existisse mais, como se eu fosse apenas uma louca criando uma história em cima de outra. Eu tive que aceitar que a brincadeira acabou, e que já não há mais ninguém que queira brincar comigo. Já não há mais ninguém para brincar ou talvez, nunca existiu realmente.
Tive que crescer realmente.Cresci na base do grito, do silêncio e do desprezo infiltrado nessas palavras. Morri e revivi milhares de vezes mas está tudo bem, finalmente está tudo bem. Não sei se tudo pode ficar pior, não sei se tudo pode voltar a ser o que era antes, não sei se voltarei a ser tão imatura como antes. Mas eu não quero mais essa brincadeira, nem essa história. Eu não quero mais brincar. Recolherei minhas bonecas e me dê licença, vou procurar algo melhor para fazer. Não quero mais sofrer. Não mesmo. Recolherei todos os meus brinquedos – sejam pessoas ou sentimentos – Recolherei tudo, não deixarei nada. Deletarei os rastros e as lembranças, deletarei tudo. Cresci, finalmente. Ufa. Passou tanto tempo.
Não quero mais fazer parte dessa brincadeira. Não mais. 

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