4 de out de 2013

Recolha



Eu queria terminar a história gostando de você. Eu queria continuar a seguir minha vida, gostando aos pouquinhos do seu jeito. Porque quando acabar, não vai sobrar nada. Porque quando eu sair por aquela porta, não vai mais haver sentimento algum e isso é tão triste, tão chato, tão repugnante. Aquele cara que me deixava com um buraco do tamanho do universo é o mesmo que agora, me deixa tão repulsiva, tão apreensiva e todas aqueles adjetivos que possa traduzir o tamanho de desprezo. Porque se desse, eu seria sua e pronto, ninguém mais teria que se meter. Só que não dá, na verdade, nunca deu. Me lembro que toda aquela imensidão era maior que a minha própria existência. Me lembro que via teus olhos tão de perto, e eu sentia que seria devorada por aqueles olhos tão vazios que não me contavam nada. Lembro que sentia teu perfume tão perto, e tão intensamente, que acabava me tornando parte de sua fragrância. Lembro de todos os erros e todos os quase acertos. Lembro do vazio, da solidão imensa e profunda que sentia mesmo quando tinha você ao meu lado. Lembro que chorei. Chorei muito. Chorei inúmeras vezes porque não fazia mais sentido. Eu não queria mais e mesmo assim, eu insistia até a última gota. Te obriguei a me dar valor, porém, foi em vão. Foi tempo perdido, foi um tempo triste. Foi, apenas.
Engoli muitos sapos, tenho vontade de cuspir a sinceridade de volta. Engoli mentiras e desejo imensamente vomitar sinceridades em cima de você. Não quero voltar mas também não quero ir. Cheguei ao ponto seco da história e não há mais graça alguma, porque é isso aí, campeão, it's over. A partida acabou, recolha suas cartas e leve seu prêmio. Recolha as cartas e seus lixos. Recolha sua vida que está dentro da minha. Recolha teus sonhos ausentes, tua voz firme e tuas garotinhas. Recolha teu silêncio que está preso em mim. Recolha seu passado, seu presente e seu futuro. Recolha aquele tempo perdido e me devolva o que eu perdi com você. Recolha tudo, e me jogue fora. Recolha e não queira me arrastar contigo. Recolha, isso, me tire de uma vez do seu mundo. Isso, isso mesmo! Recolha, isso. Me dilacere mais um pouquinho, mais um cortezinho naquela lembrança ali. Isso! Diga que não me conhece. Diga que nunca me viu e que sou louca. Diga que não sabe quem eu sou e que o meu perfume nunca foi parar no seu travesseiro.
Faço uma pausa rápida para tentar acompanhar a música que toca. "E para não chorar/ Eu só vou gostar de quem gosta de mim". Eu também, Caetano. Eu não quero mais chorar, e nem mais amar. Não quero ir embora mas também tenho a plena certeza que não quero ir embora. Talvez, quero ir embora, bem aos poucos. Mas talvez, lá no fundo, eu quero ficar.  "A vida é assim/ Eu falo por mim/ Pois eu vivo sem ninguém". De uma vez por todas, eu te peço que me deixe gostando de você, do seu mundo, das suas gírias. Te peço para que não seja tão apelativo. Deixe que os nossos laços sejam cortados naturalmente. Deixe que o fim chegue sozinho, sem aos menos a nossa ajuda, mas peço que por favor, recolha seu mundo do meu porque não há mais motivo para ficar aqui.
Fui e infelizmente, ainda sou capaz de muitas coisas que não acho certo ou que se acho certo, prefiro não entrar muito em detalhes. Tenho medo de encostar nessa feridinha e sangrar. Tenho medo de esbarrar novamente e sangrar até não poder mais. Vejo essas novas pessoas fazendo parte de nossas vidas, e que não há mais conexão física e nem mental. Não há conexão alguma. É como se o meu corpo estivesse fechado novamente e nada se encaixa. Eu não me encaixo mais e não quero me encaixar. Sabe, quero que recolha pela última vez os meus cacos, os meus sonhos, e o meu toque. Quero pela última vez te dizer que por mais que sangrei ao te ver desperdiçar e esmagar meus sonhos, eu gostei intensamente de você. Gostei de todas as formas que alguém pode gostar de outra pessoa. Mas como diria a música "E para começar/Eu só vou gostar de quem gosta de mim..."



 Só vou gostar de quem gosta de mim - Caetano Veloso




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