1 de jun de 2013

Oito, um, onze - Tati Bernardi




Ligo pra ele, meu melhor amigo de falar besteiras. Ficamos horas rindo porque o meu marceneiro queria selar a rosca com o sifão na mão. Não tem a menor graça. Mas é bom rir. Desligo. Ligo pra ele, meu melhor amigo para eu me sentir especial. Ele vai passar na minha casa hoje, trazer um presentinho, essas coisas. É bom. Vem mais tarde, depois da novela. É bom. Ligo pra ele, meu melhor amigo pra fazer drama. Ele fala que não é bem assim, Tati. Claro que vai dar tudo certo. E sim, vamos sair num horário sem trânsito e sim você vai pagar todas as contas e sim, eles vão nascer. Um dia eles nascem. E mais tarde ele passa aqui, depois do amigo que vem depois da novela. E ligo pra ele, meu mais novo amigo. Ele chega com seu carro enorme e me ajuda a subir. Vamos sempre jantar em lugares chiques e bregas e divertidos. E me dá preguiça mas é melhor do que ficar em casa ou no telefone. E ele me elogia, diz que branquinha assim, eu sou tão diferente de tudo. E eu quero explicar que sou sim diferente de tudo, mas nada tem a ver com a epiderme. E ligo pra ele, o homem que sempre quer me ver mas nunca diz diretamente e acabamos não marcando. E moramos tão perto. E ele me explica que é complicado, se eu soubesse. E eu finjo não saber. E eu só viajo naquela voz, naqueles silêncios, em como ele nunca sabe o que me dizer e fica pensando e pensando. Em como eu, tão boba, deixo ele bobo. E gosto um pouco desse meu poder solitário. E eu nem lembro dele, mas lembro o que eu senti quando o vi pela primeira e única vez. Da força que saia de dentro dele. E agora isso, esses vários silêncios e lacunas. E gosto ainda mais dele. Mesmo sem saber quem ele é e mesmo sabendo que é só pra distrair os dias. E ligo pra ele, meu amigo querido, meu amigo desesperado de amor e ao mesmo tempo só querendo sentir alguma coisa que não seja o domingo acabando de novo. E rimos, tomamos nosso café, e choramos. E o papo é profundo e tal e de repente é só pra gente se achar muito em Paris ou Buenos Aires. E não de novo com o domingo acabando no mesmo lugar de sempre. E ligo pro meu amigo “posudo”. E ele vem cheio de cigarros, músicas, doenças e interpretações perfeitas a respeito da minha maluquice. E se esforça pra focar em mim, porque, assim como eu, ele gosta mesmo é de falar de si. E ligo pro velho amigo de sempre. E ele vem correndo, segurar meu coração, aliviar meu pescoço e dizer que nada mudou, foram 56 mil anos mas nada mudou. Ele ainda está aqui pra mim.
E assim consigo dormir mais um dia, passar mais um dia, viver mais algumas horas, sem ligar pra única pessoa que eu queria ligar. Consigo seguir em frente mais um dia sem ligar pra ele. Consigo distrair meus dedos, minha mente, meu peito, minha violência, meu buraco, minha vertigem, meu soco no estômago, meu desespero, meu automático, meu extinto contrário, minha curiosidade infantil mas sempre com resultados duros demais para uma criança, minha vontade de enfiar o dedo na tomada só pra sentir a descarga mortal que tanto parece com impulso de vida. Consigo distrair os batimentos cardíacos que sinto em lugares do meu corpo que ainda queriam mais um toque dele. E partes da minha pele que saem buscando porque ainda não receberam a informação do fim, o sangue ainda não levou a má notícia para meu corpo todo. E consigo distrair minhas roupas, que querem se mostrar, cada dia uma diferente, para ele. Só para ele. E distrair meus ouvidos loucos pela sua voz. E distrair meus pés loucos pra encaixar atrás da sua batata da perna. E distrair minha língua, querendo decodificar e marcar cada centímetro das suas estranhezas. E distrair a crença cansada, a saudade renegada. Distrair essa sobrinha de você que continua enorme, mesmo sendo, agora, uma sobrinha.
A conta vem cara, os amigos são muitos, as risadas invadem, o sofrimento dissipa. Eu sigo. Eu sigo sem ligar. A mão captura rápido o celular, eu começo a colocar o número dele. Mas passa. Ligo pra outro. E outro. E outro. E passo mais um dia sem fazer o que eu sei que não devo. Tudo o que ainda pensa e se preserva em mim grita e eu escuto. Sem cabimento, sem história, sem motivo, sem eco, sem colo, sem cumplicidade, sem acolhimento, sem nada. O que mais eu quero ouvir? O que falta para eu entender que acabou? Que dor falta sentir? Que parte do meu conformismo estava de férias essas semanas? O que falta viver em cemitérios abandonados? O que falta sentir em peitos esfaqueados? O que falta amarrar nesse emaranhado de fios dilacerados que eu virei? O que falta amar em olhares escondidos? O que falta acreditar quando a verdade é tão absurda que ocupa tudo? Não passo de uma força descontrolada que vai dar com a cara na parede branca, dura e incorruptível. Não ligue, Tati. Ligue para o mundo inteiro, encha o mundo inteiro, canse o mundo inteiro, ame o mundo inteiro. Vamos, mais um dia. Tente mais um pouco o resto. Daqui a pouco, esse resto vira rotina. Esse resto vira tudo. E ele será resto. Mais um pouco. Vamos, se esforce. Use essa violência para construir uma parede e não mais para sair esmurrando outras paredes por aí. Vamos, não ligue. Daqui a pouco isso se perde, como tudo. Como todas as pessoas fazem. As pessoas fazem isso, e seguem, equilibradas, frias, certas, velhas, assustadoras. Você pode ser como elas. Você é como elas. Não, você não é. Mas foda-se. Mesmo assim, não ligue. Nunca mais.



                                                                                                                         Tati Bernardi

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