24 de mai de 2013

Cavalinho de pau




Eu tinha cinco, seis anos de idade e tinha um vizinho. Ele se chamava Bruno e tinha cabelos enrolados. A gente estudava no mesmo colégio mas, eu como era atrasada, estava numa série na escola a menos. Mas pouco ligava até porque, eu era uma criança e não tinha a noção da vida, do mundo, da escola e muito menos das pessoas.
Para ser franca, eu era esquisitinha. Usava shortinho de uniforme, um tênis preto e meia branca porque era uniforme. O meu cabelo era tão liso e eu tinha inveja das meninas que conseguiam fazer um rabo de cavalo ou até mesmo um coque de ballet. Eu era tão magra que era facilmente confundida com uma caveira do laboratório.
Mas voltando assunto, eu tinha o Bruno. Eu morava perto do colégio e a gente ia a pé. Ele com a sua mãe, e eu com a minha. Nós íamos na frente, e ele me fazendo inveja porque tinha um cavalinho de pau e não me deixava brincar, essa é uma das poucas recordações que eu tenho. A gente brigava porque ele não me deixava brincar com os brinquedos dele. A gente brincava e brigava. Até que ele se mudou de cidade e eu cresci. Eu acho que gostei dele do jeito inocente e bobo de criança, tive milhares de peixes nessa época e todos se chamavam Bruno ou Bruna, e tudo dependia da cor dos peixinhos.
Fiquei uma pré-adolescente mimada com um sotaque misturado porque convivia com o paulistanos. Convivi com paulistas e paulistanos até completar 11 anos, e nunca mais perdi o jeitinho de ser.
Nunca mais havia tido notícia do Bruno e dos seus cabelos enrolados, e muito menos do cavalinho de pau. Até que minha mãe chegou para mim, lá pra meados de julho de 2004 e disse:
- Layla, você lembra do Bruno?
- O  que era vizinho, mãe?
- Sim, querida, esse mesmo.
- O que tem ele? Ele vai voltar pra Alfenas?
- Não, amor, o Bruno morreu.
E eu não lembro qual foi minha reação, e eu não chorei porque não havia o motivo de chorar. Logo depois, um mês depois, perdia o meu padrinho, e aí chorei pelo Bruno, e pelo meu padrinho. Menos de três meses, perdi minha avó materna e aí o choro veio multiplicado. Chorei pelo Bruno, pelo cavalinho de pau que nunca pude brincar direito, pelo meu padrinho e pela minha vó. Chorei porque eu era uma criança e havia perdido tanta gente em tão pouco tempo. Chorei porque a vida foi cruel.
Hoje, eu tenho quase meus vinte anos. Passei em quatro faculdades, mas não tive coragem de começar nenhuma - já que não tenho a mínima ideia do que quero para minha vida - Hoje, eu tenho cabelo loiro, liso mas não tão fino quanto antes. Hoje, meu corpo ganhou músculo e até uma bundinha para contar história. Não estudo mais em colégio de freiras e nem uso meia branca para ser meiguinha, porém, guardei o rosto do Bruno comigo, e do cavalinho de pau que tinha uma fita vermelha no pescoço.
Talvez, eu perderia meu BV com Bruno, ou quem sabe, eu teria um amor platônico - já que tenho uma facilidade tão grande de arrumar amores platônicos por aí - Talvez, a gente se casasse um dia, ou talvez ele seria meu padrinho de casamento.
Não lembro bem, só sei que tenho uma saudade daquilo que nunca existiu. Logo, irá completar 9 anos que você se foi, Bruno. E para sempre irei guardar seus cabelos enroladinhos da cor preta, e seu cavalinho de pau que nunca me deixou brincar.


In memoriam de Bruno Teixeira.

* 12/07/1993
+ 11/07/2004 


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3 comentários:

  1. Você sendo sensível e sentimental apenas me dá vontade de cuidar de ti pra sempre. Layla linda você é demais!
    Beijos no core

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  2. Porra Layla, acabando comigo em pleno sábado!

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