7 de mai de 2015

O sultão sem coração - Tati Bernardi




Mal pisei na balada já correram pra me avisar: “Se prepare, ele está aí, e não está sozinho.”
Eu sabia, eu sabia. Estava saindo de casa com meu jeans fuleiro, meu tênis vermelho surrado e uma camiseta qualquer quando tive a brilhante idéia de me trocar inteira. Eu era agora uma moça com um pretinho básico curtérrimo, uma longa bota de bico fino e um belo decote que insinuava um sutiã pink. Um arraso. 


Ah, então ele estava lá e estava acompanhado? Sem problemas, quem já tá na merda não se incomoda com mais sujeiras. Eu não iria embora não, iria ficar e tentar rebolar ao máximo a bunda que eu não tenho.
Escolhi o ângulo perfeito, aquele em que ele não teria como não ver, e comecei a desfilar minha falsa alegria pela pista, eu ria e dançava como se fosse a pessoa mais alegre do planeta. 


Uma amiga me alertou: “Ele está com uma loira que é um arraso.” Eu nem liguei, arraso por arraso e loira por loira, até aí eu também sou. Com a diferença de que eu sempre fui uma loira-arraso que sabia conversar uma ou outra coisinha com ele e nunca fiz questão de presentes. Aquela devia ser uma burra interesseira.
Daqui a pouco outra amiga (tô começando a duvidar dessas amizades) veio com a novidade: “Você viu a morena que está com ele? Sensacional!” 


Uma morena? Mas não era uma loira? Que seja, dane-se, eu também era, no fundo, no fundo, uma morena. Ele estava cansado de saber (e conferir) isso. Uma morena não estragaria minha noite não, eu tinha um sutiã pink, uma cano alto de couro nos pés, um novo corte chiquérrimo de cabelo e uma nuca deliciosa à mostra. Tava tudo certo. 


Resolvi conferir, por via das dúvidas. Como será que era essa loira, ou essa morena. Era loira ou morena? Andei o bar inteiro atrás dele até que o vi sentado num sofá imperial com seus adidas velhos em cima de um puf imperial (a decoração da bosta do bar é imperial). Enquanto ele saboreava um mojito das mãos de uma linda loira, uma linda morena esfregava seus enormes peitos na cara dele e chupava uma folhinha de hortelã. O sofá ainda abarcava uma castanha, uma ruiva, uma japonesa, duas baixinhas assanhadas e uma grandona com cara de traveco. 


Ele não estava nem com uma loira, nem com uma morena. Ele estava em um harém. Ele era um sultão com mil mulheres. Era o dono do pedaço. Mandava e desmandava naquela merda. Se naquela merda de bar vendessem uvas em cachos, ele certamente estaria comendo uma das mãos de uma daquelas vadias.
Eu quase podia ouvir ele falar no ouvido deslumbrado daquelas putas: “Vai, querida, pega lá o que você quiser beber, hoje é por minha conta.” “Vamos, lindinha, vamos lá pra minha casa que tem oito andares, uma king size com mil almofadas de seda e um deck decorado de estrelas”. 


Ele fez que não viu, mas me viu olhando. Se ajeitou no sofá, jogou a porra do cabelo ensebado pra trás e deitou a cabeça no meio dos peitos da morena. A loira, enciumada mas querendo participar da brincadeira, jogou as pernas por cima dos dois. As outras dançavam e rebolavam em volta dele. Era praticamente uma orgia na minha frente. 


Cansei, era demais pra mim. Ainda que eu subisse em alguma mesa pelada e jogasse fanta uva nos peitos (eu não bebo), eu não ganharia dele. Ele tinha vencido, ele estava por cima, só me restava ir embora.
Depois de três horas sem entender por que raios a fila para pagar a bosta do bar não andava, resolvi ver o que estava acontecendo. 


E como desgraça pouca é bobagem, o que estava acontecendo é que demorava um pouco para somar a conta de 14 putas alcóolatras numa só comanda e dar para o sultão pagar com o cartão da empresa. Que cena, que vontade de vomitar. 


Tudo bem, tudo bem, respirei fundo. Quantas vezes eu não tinha desfilado com garotos mais jovens e mais fortes do que ele? Quantas vezes ele já não havia me ligado implorando um almocinho sem maiores danos e eu havia negado. Ele só estava me dando o troco. E que troco: a conta das vadias bêbadas tinha ultrapassado toda a grana que ele já havia gasto comigo em anos. 


Cheguei em casa arrasada. Arranquei aquela roupa ridícula que mostrava aquele sutiã ridículo e joguei aquelas botas ridículas o mais longe que eu pude. Coloquei, querendo morrer, meu pijama de ursinhos: enquanto isso ele comia duzentas mulheres que certamente usavam roupinhas mais sexy. 

A Lolita (minha cachorrinha) se encaixou em mim, querendo dormir de conchinha. Que fim triste para essa mulher de maquiagem borrada e coração dilacerado. Enquanto isso ele devia estar encoxando duzentas mulheres que também latiam (e com muita sorte minha também eram peludas). 


Mais uma vez a velha e boa sensação de que o mundo todo é lindo, o mundo todo é desejado, o mundo todo se diverte, o mundo todo vibra, trepa, goza, brinca, ama, festeja, acontece, se dá bem… e eu continuo feia, brega, renegada, com teias de aranha, sozinha e no escuro. 


Meu sofrimento não tinha fim, mas foi interrompido pela salsa eletrônica do meu novo celular rosa. Era ele do outro lado: “Conversa comigo? Tô sem sono…”

Eu sabia, eu sabia, nem todas as “sultãonetes” do mundo eram capazes de dar a ele o que eu dava. Ainda que meu coração fosse um só.

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