9 de ago de 2014

Para alguém de mentira mesmo que fosse verdade





Você que sempre me disse que lia todos os meus textos e que me imaginava gordinha, baixinha, e de óculos. Errou feio mas ainda assim, tenho miopia e eu aposto que não sabia disso. Tenho miopia e lordose - taí o motivo por eu ter a bunda tão empinada - Tenho uma mania insuportável de tomar leite quente com achocolatado, e amo muito café, e você também não sabia disso. Você também não sabia que dei meu primeiro beijo aos quinze e você foi o cara da minha virgindade. Você também não sabia que não acredito no amor, e que ainda assim, quero ter filhos. Você não sabe nada disso porque nunca me deu chance de te mostrar nada além do que coisas leves.

Você me contou de mulheres e eu apenas escutei. Dei palpite, conselhos, e colo. Dei suspiros e gemidos, e até orgasmos. Não havia o motivo de sentir ciúmes, nem paixão, nem compaixão. Não havia e não há motivos algum para sentir algum sentimento. E agora, além de tudo, não haverá mais motivo algum, e finalmente, não sei se posso suspirar aliviada, ou se posso me sentir aflita. Porque vai ser estranho, e digamos até mesmo incomum, ir pra algum lugar e não ter medo de te encontrar.

E agora você sabe porque eu não te cumprimento: Eu tenho mágoa de você, muita mágoa. Não aquela mágoa desastrosa que quer invadir minha alma e me tomar pelo rancor. Não é aquela mágoa que me dá vontade de te jogar numa fogueira. É aquela mágoa que virou ferpa de madeira, sabe? Aquela mágoa que incomoda dentro do peito, que vira e mexe, muda, deleta, e volta com força. Porque nada me deixava mais triste do que você, mas em contrapartida, nada me deixava mais feliz que você. Era aquela corda bamba que eu fazia questão de enfrentar só para não dizer que não era corajosa. Era aquela corda bamba que eu fiz questão de enfrentar só pra dizer que fui burra o suficiente.

Não precisa dizer mentiras. Eu nunca quis nada com você. Você nunca quis nada comigo. Vivíamos bem assim, e vivemos muito melhor assim. Digo com a toda certeza do mundo que gostei bastante de você até um certo ponto. Gostei deliciosamente de você até que um dia, a minha realidade disse que não dava mais para bancar de sofrer, e de fazer de vítima. Até que um dia, minha realidade me jogou na cara que você não tinha mais espaço na minha vida, e que eu, já tinha perdido esse tal espaço na sua vida também. E nada mais certo do que ir embora, né?

Eu estou bem e espero que você esteja muito bem também. Talvez, eu encontre um cara que faça sexo comigo do jeito que eu sempre dizia que era tão difícil achar alguém igual a você. Talvez, eu encontre alguém, de verdade, do jeito que você não quis ser. Talvez, mais pra frente, eu nem lembre mais de você, mas só quero deixar registrado essa parte da minha vida que você fez parte. E eu te agradeço por ter me ensinado a ser de outros caras, de ter tentado ser cada dia mais bonita. Te agradeço por ter me ensinado a ser superficial, e não tão intensa assim. Te agradeço por ter me buscado naquela esqueninha porque eu tinha medo de ser estuprada. Te agradeço finalmente por me ensinar a seguir em frente.

De tudo isso, eu esperava mais consideração, mais respeito e menos esse teu dilema de dizer "carpe diem". Eu sinto falta daquele menino que nem conhecia a cidade, e não disso que você se tornou dia após dia. Sinto saudade do teu sotaque, e do jeito que você sorria sem graça pra mim. Não, eu não gosto mais de você, e talvez sim, você foi o culpado por tudo isso ter terminado. E eu não me importo mais, não tanto quanto eu deveria, não tanto quanto me importava. Apenas, eu segui em frente como deveria de ser. E você, que havia seguido em frente antes de mim, deveria apenas me apoiar, e aceitar a ideia de que deixei de ser sua.

Eu sinto muito por você ter sentido tão pouco. Sinto muito por você não ter me conhecido inteiramente porque você diz que eu quis participar de uma brincadeira e acabei me fodendo. Sinto muito por você não ter gostado de mim, e dos meus demônios. Claro que eu sinto muito por mim por ter perdido tanto tempo assim. Mas eu sinto muito mais por você que nunca vai gastar sua capacidade para me entender. Sinto muito por você sentir tão pouco, mas na verdade, eu já não sinto mais nada há muito tempo. E ouso dizer que já não sinto mais nada há bastante tempo, e isso é tão triste. Porque você que abalou tantas vezes o meu mundo, agora não faz mais nem cócegas.

Era uma busca incansável de ter você em meu mundo. Eu me apegava na memória mais suja ou distante para que você não morresse dentro de mim. Me apegava nas lembranças mais tortas para te odiar todos os dias. E nada disso fez efeito algum. Você que é tão descartável, esquecível e passageiro, havia se tornado uma parte de mim, e que aos poucos consegui te deletar disso tudo. Mas tudo isso sai hipócrita já que estou escrevendo um texto para apenas dizer o quanto isso me machucou, feriu, e me fez ser alguém melhor. Eu espero gostar de alguém o tanto que eu gostei de você. Espero gostar de alguém como eu gostava de ir na sua casa num sábado a noite ou como eu gostava de virar a esquininha da sua casa. Aquela esquina que eu preferia virar mesmo que fosse para não poder mais seguir em frente. Aquela esquina que hoje eu evito passar por ela. Aquela esquina que mesmo que se eu passar, faço questão de soltar um suspiro dolorido.

A última vez que te vi, reparei o quanto seu andar era tão bonito. O quanto suas costas eram bonitas e o quanto eu sentia falta delas. A última vez que eu te vi, eu bebi porque estava enterrando mais um amor que se foi, mais uma fase que acabou, e mais uma vontade que se perdeu no meio do caminho. O último dia que eu te vi, eu te olhei de longe e estava tudo tão escuro e você estava com alguma garota qualquer. Aquelas garotas que tanto me irritaram e que hoje já não valem mais nada na minha vida. A última vez que te vi, eu tive a certeza que havia enterrado seus pedaços em mim. E que muitas vezes, eu me tornei você para que pudesse te entender. A última vez que eu te vi, olhei os pisca-pisca refletindo no chão, e naquela hora, eu sei que te falei tchau de verdade. A última vez que eu te vi comentei com a minha amiga que era falta de consideração tudo aquilo, mas que ainda assim, eu estava muito triste por tudo ter acontecido, só que agora, eu teria a certeza que finalmente tudo acabou.



"Eu tinha visto na sua solidão, uma excelente amiga para a minha solidão. Eu achei que elas pudessem sofrer juntas, enquanto a gente se divertia..." (Tati Bernardi)

E acabou.

Então, você que me lê, que não me entende, e que tanto me fez feliz, e da mesma forma, me fez tão infeliz, saiba que esse texto é seu. Prometi que não iria nunca escrever sobre você, mas estou aqui, cumprindo meu papel de escritora intensa e dizendo que: Você sabe, meu amor, eu nunca cumpro promessas.
Você sabe também o quanto que eu odeio que me fiquem em cima de mim. Você sabe também o quanto sou 8 ou 80. E eu poderia escrever um texto tão amargo e cheio de cicatrizes, mas você não merece isso. Apesar de tudo, você cativou as partes mais bonitas da minha existência, e conseguiu empurrar os meus podres de lado. Apesar de tudo, e de todos, esse texto é seu.

Cuide bem dele. E se cuide por aí.
Até.


"E recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa só existência. É por isso que me esquivo e deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam - e queimar também destrói." 
(Caio Fernando Abreu in Itinerário)


"

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2 comentários:

  1. Foi um dos melhores textos seus que já li

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  2. Não consigo acreditar que você é a mesma Layla que eu conheço... tão doce aqui

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