12 de mai de 2016

Para aquele que me deu saudade




Eu sei que agora você está em paz. E acho engraçado dizer que alguém está em paz quando finalmente descansa aos 20 e poucos anos. Você fechou seus olhos, e deu um the end no grande espetáculo. Esse mesmo espetáculo que somos engolidos e forçados a trabalhar, estudar, casar, ter filhos, para finalmente depois descansar. Esse espetáculo escroto que se chama a vida. Você, nos auge dos 20 e poucos, não cumpriu o curso desse espetáculo, e juro que sinto uma invejinha, se eu pudesse, até gostaria de trocar de lugar. Você,  nos auges dos 20, simplesmente fechou as cortinas e saiu de cena. E assim, saindo de cena, me fez pensar novamente se vale a pena realmente viver e enfrentar o mundo.

Te amei muito em várias fases da minha vida. Te amei quando nos conhecemos pela primeira vez,  e nem ao menos, posso me recordar de como foi, porque realmente não me recordo.  Te amei nas cenas dos teatros escolares. Te amei quando foi meu príncipe, e depois, o meu espantalho, em que eu era a jasmim. Te amei quando fomos dançar quadrilha, e depois, te amei pelo simples fato que te amava por todo aquele tempo. Te amei quando saiu do ensino médio e foi para o cursinho. Te amei quando passamos juntos na faculdade. Te amei na última vez em que eu te vi. Te amei escandalosamente quando te disse adeus.  E é engraçado viver agora dizendo no passado, porque eu ainda te amo, te amo muito. Amo tanto que me deixa imóvel ao ponto de simplesmente congelar minha vida e nunca mais querer sair.

Nós queríamos mudar o mundo. Nossa geração da década de 90 tem no sangue essa vontade incontrolável de curar doenças, descobrir mundos novos, descobrir coisas, novos povos. Você não mudou o mundo ao total, mas você mudou o nosso mundo, e quero que saiba disso. Conseguiu o que pouca gente consegue: Você cativou cada partezinha de nós.

Você conseguiu o que ninguém jamais tinha feito: Passei 20 e poucos anos da minha vida te amando, e desejando tudo que havia de melhor.  O que é realmente engraçado, porque não consigo amar e não odiar ninguém. Minha vida sempre foi esse misto de amor e ódio, ódio e desprezo, desprezo e indiferença, e com você, na primeira vez em toda minha vida, saiu ileso dessa roda gigante de sentimentos que existe dentro de mim.

Quando você foi embora, me sobrou um gosto horrível de vodka da boca, aquele gosto horrível de cigarro, aquele gosto horrível de zolpidem, e parecia que nada estava se ajustando. Nem eu me ajustava na roupa, e nem você se ajustava no meio de tantas flores. Aquele silêncio era a resposta que tudo aquilo realmente era o fim. E eu juro que esperei até os últimos momentos para acordar, esperei que os efeitos dos remédios passassem, e esperei que você soltasse o seu famoso "Tá sussa" para mim. Eu que sempre te infernizei para mexer em seu cabelo, estava lá, chorosa, e dolorida, arrumando seu topete e pensando em quantas vezes eu já tinha te visto sorrir.

E os seus sonhos?  E os lugares que você tinha para conhecer? E as pessoas que você tinha para amar? O que aconteceu com eles?  O que aconteceu com você, meu querido? O que aconteceu com a sua vida, e com a minha? O que te fez ficar assim? Queria viver naquela esperança de que quando virar a esquina, eu possa te ver andando pelas ruas. Queria ter a falsa esperança de que um dia, acidentalmente, a gente pudesse se ver de novo, iguais a esses amigos que passam anos sem se ver, e quando se encontram estão casados, com filhos, e morando em outra parte do mundo.

Eu sei que em algum lugar você deve rir de mim, de mim e da sua posição de telespectador de todo o show da vida que continua em algum lugar. Em algum lugar perdido e distante, sei que você sente também a falta de todo mundo. Sei que também você deve se assustar de ver o quanto amor que carreguei dentro de mim por todos esses anos. Sei, o que todo mundo sabe, você, em algum lugar, continua sendo o nosso cara, o filho bom, o meu príncipe do jardim da infância e o amigo de todo mundo. 

Não sei onde estará, mas quero que saiba que dentro de mim há uma saudade latente de você.

Quando o Paulo me deixou, eu finalmente entendi que eu posso gostar das pessoas sem querer dominá-las, sem querer possuir, ou sem querer odiar.




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